Irã: quem vai riscar o fósforo?

Com suas críticas ao Ocidente e sua pregação anti-semita, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, coleciona desafetos poderosos. Até quando ele vai agüentar?

Adriana Maximiliano, de Washington Publicado em 01/09/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Mahmoud Ahmadinejad tem duas faces. Uma é a interna, de amigo do povo, governante que ajuda os desfavorecidos e defende os interesses de seu país. A outra é a externa, de tirano que desafia as potências globais – como os Estados Unidos, que ele chama de “Grande Satã” – e brada seu anti-semitismo sem pudor. Desde junho de 2005 no poder, o presidente do Irã vem dando as duas faces barbadas de xiita para bater e, de quebra, oferece uma caixa de fósforos. Nas mãos, ele tem também um barril de pólvora. O presidente norte-americano, George W. Bush, está entre os primeiros da fila, louco para riscar o fósforo, mas o desgaste com a Guerra do Iraque tem adiado a tarefa. Quem também engrossa a fila dos desafetos são os judeus. Ahmadinejad insiste que o holocausto promovido pelos nazistas contra os judeus não passa de “um mito” e, se dependesse dele, Israel simplesmente seria “varrido do mapa”. Com tantos inimigos que está angariando mundo afora, resta saber quando e quem vai acender o barril de Ahmadinejad.

Quando foi eleito presidente, em junho do ano passado, Ahmadinejad deixou claro que chegara ao fim os tempos de reforma e abertura, promovidos com moderação por seus antecessores, Mohammad Khatami (1997-2005) e Hashemi Rafsanjani (1989-1997). Com o apoio do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, o novo governo tem um caráter ultraconservador e apocalíptico. Tanto que o presidente acredita que sua principal missão seja abrir o caminho para a volta do 12º e último imã, Mahdi, um líder religioso que, segundo os muçulmanos xiitas, teria desaparecido no ano 941 e reaparecerá “no fim dos tempos”. Para Ahmadinejad, a volta de Mahdi acontecerá dentro de dois anos.

“É triste ter um presidente que aguarda ansiosamente o fim dos tempos, manda bater em universitários que questionam o regime, financia grupos extremistas palestinos e promove as diferenças entre os direitos de homens e mulheres, sunitas e xiitas e muçulmanos e não-muçulmanos”, diz o iraniano Mohsen Sazegara, professor de Estudos Internacionais da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Sazegara, que teve vários cargos no governo de seu país durante os anos 80, escreveu em maio uma carta aberta a Ahmadinejad, incitando-o a não abandonar a razão. O texto foi a resposta da classe média intelectual iraniana a uma carta que Ahmadinejad escrevera para Bush, também em maio. Em 18 páginas recheadas de questionamentos sobre as ações beligerantes dos Estados Unidos e um convite – para estudar o islamismo –, o presidente iraniano tentou ganhar a simpatia da opinião pública.

Bush ignorou completamente a carta, afirmando que ela não tinha propostas concretas. Os dois presidentes têm trocado desaforos por meio da imprensa. E, para aumentar a tensão, não é raro encontrar declarações moderadas de Ahmadinejad, em persa, transformadas em bombas, após a tradução para o inglês.

“Amigo do povo”

No Irã, a população mais pobre adora Ahmadinejad e ele sabe tirar proveito disso. Em seu site pessoal, o presidente tem o nome acompanhado da palavra mardomyar, que significa “o amigo do povo”. Ali Ahmadinejad conta que é o quarto de sete filhos de um ferreiro – a mãe, que obviamente era dona de casa, sequer é citada. Nasceu em 1956, na cidade de Garmsar, a cerca de 100 quilômetros ao sul de Teerã, e mudou-se ainda bebê para a capital. Na Revolução Islâmica, Ahmadinejad apoiou o aiatolá Khomeini. E, durante o regime do líder religioso, ele teria se envolvido na repressão a oponentes políticos, segundo seus adversários. Em meados dos anos 80, entrou para a Guarda Islâmica Revolucionária e lutou na Guerra Irã-Iraque. Em paralelo, Ahmadinejad virou PhD em engenharia civil e deu aulas em universidades iranianas – é o primeiro presidente do país cujo diploma não é do campo religioso.

Ahmadinejad era o único dos seis candidatos à presidência do Irã que não morava em Jamarã, distrito rico ao norte de Teerã, onde vive quase toda a elite iraniana. Ele decidiu permanecer no sul pobre da capital com sua mulher e os três filhos mesmo depois de virar prefeito, em 2003. Durante a campanha presidencial, seu estilo de vida simples ganhou popularidade. Enquanto os demais candidatos exibiam com orgulho suas mansões para as equipes de TV, Ahmadinejad mostrava que não queria saber de luxo. Sua casa sequer tinha sauna, um dos símbolos de status no Irã. A campanha foi focada na economia e no combate à corrupção, com direito a ameaças de cortar as mãos de ladrões e corruptos. Para surpresa internacional, o azarão virou presidente, obtendo 62% do total de 16 milhões de votos (apenas 25% dos eleitores iranianos foram às urnas).

Depois de eleito, Ahmadinejad manteve o visual mal-ajambrado da campanha, tirou os caros tapetes persas de seu gabinete e lançou o “Fundo do Amor”, destinando bilhões de euros para ajudar casais pobres. O fato de ser o primeiro presidente em 24 anos sem um posto na igreja islâmica não muda nada. Uma das primeiras providências de Ahmadinejad ao assumir o governo foi doar 20 milhões de dólares para a mesquita de Jamkaran, onde ele acredita que o 12º imã aparecerá.

Passado nebuloso

Ahmadinejad já foi apontado pela imprensa internacional como um dos militantes iranianos que tomaram a embaixada dos Estados Unidos em Teerã, entre novembro de 1979 e janeiro de 1981. O grupo manteve 52 americanos como reféns durante 444 dias. “Ele era extremamente cruel”, disse uns dos reféns que identificaram o presidente iraniano como o líder dos seqüestradores. O governo iraniano nega que Ahmadinejad tenha participado do seqüestro. Na mesma ocasião, um jornal tcheco acusou Ahmadinejad de ter participado do assassinato do líder curdo Abdur Rahman Kasemlu, em Viena, em 1989. A negativa, dessa vez, já não foi tão veemente. O fato é que o presidente fez parte, sim, de alguns grupos radicais na juventude em Teerã.

Dentro do país, seus maiores inimigos são justamente os jovens. Nos oito anos do governo Khatami, a juventude iraniana descobriu que o islamismo radical não é o único caminho e passou a acreditar que a abertura para o Ocidente seria uma questão de tempo. Maioria no país – 65% da população do Irã tem hoje menos de 25 anos –, eles sonham com modernização, reforma e abertura, enquanto ouvem rock americano na garagem. Bem-educados, esses jovens vivem sob censura no limite da ilegalidade: têm acesso parcial à internet, vestem calças jeans contrabandeadas e assistem a programas de TVs por satélite, mesmo que sejam proibidos.

A ocidentalização é uma enorme pedra nos sapatos conservadores do Irã. Rock, para Ahmadinejad, é palavrão. Durante seu mandato como prefeito de Teerã, ele fechou fast-foods e proibiu uma campanha publicitária que tinha como estrela o jogador inglês de futebol David Beckham, ou seja, um ocidental de barba feita, penteado esquisito e calção. Ahmadinejad também exigiu que os funcionários da prefeitura usassem barba e camisa de manga comprida, e que mulheres e homens tivessem elevadores diferentes. Para Ahmadinejad, o lugar das mulheres é em casa, cuidando da família. Assim que assumiu o poder, iniciou uma campanha baseada nos ideais da Revolução Islâmica para que elas voltem a usar o xador, véu que cobre o corpo da cabeça aos pés.

Nos Estados Unidos, a prestigiosa revista The New Republic, em sua edição de 24 de abril, retratou Ahmadinejad como o próprio diabo. Em Israel, ele foi comparado a Adolph Hitler por causa de suas declarações anti-semitas, incluindo a negação do Holocausto. “O Ocidente tem dado mais importância para o mito do genocídio dos judeus do que para Deus, religião e os profetas”, disse ele para a revista alemã Der Spiegel. As tensões com Israel podem acender o barril de pólvora de Ahmadinejad a qualquer momento. Resta saber se, quando acabar o bate-boca e começar um conflito de verdade, os jovens iranianos vão apoiar seu presidente xiita ou deixá-lo sozinho com sua fé. De uma forma ou outra, poderá ser mesmo o início do fim dos tempos. Pelo menos para Ahmadinejad.

 

Isto é Ahmadinejad

Revolução

• “A onda da revolução islâmica vai alcançar todo o mundo em breve.”

• “Hoje o mundo muçulmano é o mais pobre das potências globais.”

Judeus

• “Se vocês queimaram os judeus, por que não dão um pedaço da Europa, Estados Unidos, Canadá ou Alasca para Israel?” (a um jornalista da revista alemã Der Spiegel)

• “Nós não acreditamos que Hitler matou seis milhões de judeus. Mesmo que isso fosse verdade, por que os palestinos têm de pagar por isso?”

Nacionalismo

• “Ao longo da História, nosso querido país, o Irã, vem sendo alvo de ameaças.”

• “O poderoso Irã é o melhor amigo dos Estados vizinhos e a melhor garantia da segurança na região.”

Energia nuclear

• “Acreditamos que a energia atômica é uma benção de Deus.”

Democracia

• “O Irã não fez uma Revolução (a Islâmica, de 1979) para implantar uma democracia.”

 

A retomada do programa nuclear

No final de julho, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução exigindo que o Irã suspenda todas as atividades relativas ao enriquecimento de urânio. É mais um capítulo na crise deflagrada em 2003, quando a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) descobriu que o Irã vinha desenvolvendo um programa nuclear em segredo. Pressionado pela comunidade internacional, o então presidente iraniano, Mohammad Khatami, decidiu interromper o plano. Mas, logo após vencer a eleição presidencial no ano passado, Mahmoud Ahmadinejad anunciou a retomada do programa. Segundo ele, o objetivo do país é a geração de energia.

Para saber mais

www.president.ir/eng/ - Site oficial de Mahmoud Ahmadinejad (em inglês)