John Lennon : A morte de João ninguém

Lennon saiu dos Beatles, lutou contra a guerra e gravou um bocado de canções engajadas. Mas foi assassinado quandoa única paz que buscava era a de ser um homem comum

Alexandre Petillo Publicado em 01/12/2005, às 00h00 - Atualizado em 18/10/2018, às 13h20

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Em julho de 1971, o músico inglês John Lennon e sua mulher, a artista plástica japonesa Yoko Ono, resolveram fazer uma canção de Natal enquanto tomavam café-da-manhã em Nova York. Eles queriam que a letra incitasse o ouvinte a fazer alguma coisa pela paz, pois a sangrenta guerra do Vietnã estava em curso. Em questão de minutos, os versos foram ficando prontos, começando com “Então é Natal/ E o que você fez?” Depois de deixar a canção de lado por meses, Lennon resolveu gravá-la em novembro. Embora o tempo fosse curto demais, pressionou a gravadora para lançá-la antes do Natal. Conseguiu. Mas, devido à divulgação insuficiente, o single alcançou pouco mais do que o 40o lugar das paradas de sucesso. Seu nome era “Happy Xmas (War Is Over)” – algo como “Feliz Natal (A Guerra Acabou)”.

Nove anos depois, em 8 de dezembro de 1980, Lennon estava chegando a seu prédio quando ouviu um homem chamá-lo. Antes que o músico terminasse de se virar para olhar, o segurança desempregado Mark Chapman o atingiu com quatro tiros de revólver. Lennon faleceu a caminho do hospital. Sua morte chocou a geração que havia começado ouvindo Beatles, passado pelo desbunde do amor livre e, depois, se engajado em movimentos pela paz e respeito aos direitos humanos. Nas multidões que logo se formaram para prestar homenagem a Lennon, canções pacifistas de sua autoria eram entoadas em coro. E, no próprio Natal de 1980, “Happy Xmas (War Is Over)” atingiu o número 1 nas paradas da Inglaterra. Em 1983, faria estrondoso sucesso nos Estados Unidos e, até hoje, é presença certa na programação de fim de ano das rádios.

Esse clamor tardio pela paz não deixa de ser irônico. Desde meados dos anos 70, o compositor já tinha parado de ir a manifestações ou gravar canções de protesto. Nos seus últimos anos, Lennon esteve mais preocupado em curtir a família. O disco que estava gravando quando morreu não continha nenhum libelo, apenas canções reflexivas e pessoais (que foram lançadas no álbum póstumo Milk and Honey, de 1984).

O período ativista da vida de Lennon começou ainda antes do fim dos Beatles. Em 1969, logo após selar sua união com Yoko, partiu em lua-de-mel promovendo o que eles chamaram de Bed-In for Peace (“Na Cama pela Paz”). Em março, eles foram para o hotel Hilton de Amsterdã, na Holanda, e enviaram aos jornalistas um cartão que dizia: “Venha para a lua-de-mel de John e Yoko: uma sessão de cama”. Com as recentes esquisitices do casal (a capa do disco Two Virgins, com os dois nus, era um exemplo), houve quem esperasse o pior. Só que, ao chegar, os repórteres encontraram os anfitriões vestidos de branco e falando apenas de paz.

Na segunda sessão do Bed-In, em um hotel de Montreal, no Canadá, eles conseguiram ainda mais atenção. Chamaram o então primeiro-ministro local, Pierre Trudeau, para visitá-los (o encontro só se concretizaria meses depois, pouco antes do Natal de 1969, e o casal saiu declarando que, se mais líderes tivessem as idéias de Trudeau, o mundo seria um lugar pacífico). Foi durante o Bed-In canadense que, na presença de 50 fãs, Lennon registrou, com um gravador portátil, a despojada “Give Peace a Chance”.

Como as andanças de Lennon e Yoko demonstravam, o músico não estava mais preocupado com o destino dos Beatles. Logo veio o fim da banda, anunciado em abril de 1970. Foi aí que o engajamento político se tornou a obsessão da vida de Lennon. Ele nunca havia lidado bem com a omissão do conjunto diante dos temas palpitantes dos turbulentos anos 60 (os Beatles eram proibidos pelo empresário Brian Epstein de comentar assuntos polêmicos).

Poucos meses após a dissolução do grupo, Lennon devolveu à rainha a Ordem do Império Britânico, que ganhara com os outros três Beatles em 1965. O ato foi um protesto contra o apoio da Grã-Bretanha à Nigéria durante a repressão a Biafra, um estado que pretendia se separar do país africano (a guerra civil matou 1 milhão de pessoas). A devolução da medalha também representou a revolta com o suporte dado pelo Reino Unido aos americanos na Guerra do Vietnã. Esse conflito foi o grande alvo das manifestações pacifistas de Lennon. Perto do Natal de 1970, ele e Yoko espalharam outdoors por 11 cidades do mundo com os dizeres: “War is over! If you want it. Happy Christmas from John & Yoko” (“A guerra acabou! Se você quiser. Feliz Natal de John e Yoko”).

Numa conversa com o paquistanês Tariq Ali (um dos mais importantes escritores de esquerda contemporâneos), publicada na revista Red Mole em janeiro de 1971, Lennon disse que conheceu na pele a opressão das classes populares, embora os Beatles o tivessem afastado da realidade. “Quando comecei com o rock, esse gênero era a revolução para as pessoas da minha idade”, afirmou. “Quero influenciar as pessoas com a minha música e minhas entrevistas.”

Lennon parecia mesmo determinado a fazer alguma coisa pelo mundo além de boas canções. Ele saiu de Londres e, em agosto de 1971, foi para Nova York, o grande centro mundial do capitalismo e da contracultura. Lennon e Yoko foram morar no bairro de Greenwich Village, onde se concentrava todo tipo de ativistas. O casal alugou um humilde apartamento de dois quartos com um colchão no lugar da cama. O Rolls-Royce branco com que circulavam em Londres foi trocado por duas bicicletas.

Nos Estados Unidos, Lennon começou a se engajar em causas americanas. Em setembro de 1971, uma rebelião na penitenciária de Attica, em Nova York, envolveu mais de mil presos. Quando as negociações emperraram, o governador Nelson Rockefeller enviou ao local 1 700 soldados, que mataram 32 pessoas. Lennon demonstrou seu descontentamento usando um broche com a inscrição: “Indiciem Rockefeller por assassinato”. E organizou um concerto em prol das viúvas dos presos.

No mesmo mês em que ocorreram os violentos confrontos de Attica, chegou às lojas americanas o disco Imagine, gravado ainda na Inglaterra. A faixa-título fez muito sucesso já no lançamento, e se tornou a mais emblemática canção já feita sobre a paz – foi interpretada por gente tão díspar como a pacifista Joan Baez e o brega Ray Conniff. Ao piano, John imagina um mundo sem guerras, religiões, posses, ciúmes e tudo mais que seja capaz de gerar conflito.

Mesmo pregando a paz sem parar, Lennon virou uma ameaça aos olhos do governo americano. Era o roqueiro mais influente do mundo – o decadente Elvis, por exemplo, estava fazendo shows para quarentonas em Las Vegas – e tinha o objetivo declarado de incitar as massas. O telefone do músico foi grampeado e seus passos foram seguidos de perto pelas autoridades. Ele de fato estava mantendo contato com figuras conhecidas da polícia ianque, como John Sinclair, fundador do movimento Panteras Brancas (inspirado nos Panteras Negras). Sinclair estava preso desde 1969 por ter vendido dois cigarros de maconha a policiais disfarçados. Em dezembro de 1971, Lennon e Yoko lideraram mais um concerto político, desta vez no estado do Michigan, em que cantaram “John Sinclair”, que pedia a libertação do ativista. Coincidência ou não, a Suprema Corte daquele estado autorizou a soltura de Sinclair três dias depois.

Quando o visto de permanência de Lennon e Yoko expirou em fevereiro de 1972, eles receberam uma ordem de deportação – que teve como pretexto uma prisão por posse de maconha acontecida ainda em Londres, em 1968 –, contra a qual recorreram. Contudo, ao se aprofundar nas investigações, o FBI (a polícia federal americana) chegou à conclusão de que o excesso de drogas deixara o músico inofensivo. “Lennon parece ter orientação radical, mas não dá a impressão de ser um verdadeiro revolucionário, já que está constantemente sob a influência de narcóticos”, diz um relatório da época. Inofensivo ou não, fato é que Lennon começou a se desiludir com as causas – e com as pessoas – que havia apoiado. John Sinclair, por exemplo, o processou para ter uma porcentagem de dinheiro no projeto cinematográfico Ten for Two, justamente o registro de um show organizado por Lennon para pedir sua libertação.

Em 1973, frustrado com a esquerda americana, o casal vai viver no luxuoso edifício Dakota, próximo ao Central Park. No final daquele ano, Yoko avisa que está se separando, cansada das traições e do alcoolismo de Lennon. Sozinho, ele vai para Los Angeles, onde passa meses se drogando e compondo sem parar. Mas, em 28 de novembro de 1974, nos bastidores de um show de Elton John, o casal se reconciliou e voltou à velha relação apaixonada.

Depois de tanto sofrer, 1975 foi um ano inesquecível para Lennon. “Fame”, parceria dele com David Bowie, alcança o topo da parada em setembro. Logo depois, a Justiça americana finalmente cancela a ordem de deportação do casal. O cantor passa de perseguido a “cartão-postal” de Nova York. Dois dias após a decisão, em 9 de outubro, nasce Sean Taro Ono Lennon – um presente de aniversário para o pai, nascido na mesma data, em 1940. Enfim, chegava a paz (em tempo: longe dali, em abril, a Guerra do Vietnã havia acabado).

Nesse momento, Lennon resolve sair de cena. Ele sentia por não ter sido um bom pai para seu primeiro filho, Julian (que nasceu em 1963, da união com Cynthia). Vivendo a beatlemania, o músico fora totalmente ausente – nem estava presente no dia do nascimento. Mas com Sean seria diferente: Lennon anunciou que só voltaria a gravar quando a criança tivesse 5 anos. E assim foi. O período posterior ao nascimento de Sean é tido como o mais feliz da vida de Lennon – longe dos estúdios, o ex-beatle dedicou seu tempo a tarefas domésticas.

Lennon retornou às paradas de sucesso em 17 de novembro de 1980, com o álbum Double Fantasy. Ele escolheu “(Just Like) Starting Over” como música de trabalho – o título significa “(Justamente Como) Começar de Novo”. E a volta foi para valer: antes do fim do ano, o roqueiro já estava de novo trabalhando em estúdio. Não cansava de dizer que se sentia seguro em Nova York, cidade que o ajudou a esquecer a paranóia de lugares abertos que adquirira durante os Beatles. Foi esse o homem que Mark Chapman matou, há exatos 25 anos. Um homem comum, que certa vez buscou a paz no mundo – mas a encontrou dentro do próprio lar.

 

Tempo de guerra, canções de protesto

Seis momentosengajados da discografiade Lennon

Live Peace In Toronto ‘69 (1969)

Os Beatles não tinham acabado oficialmente, mas Lennon foi, sem eles, participar de um festival canadense que protestava contra a Guerra do Vietnã. Ao lado de amigos como o guitarrista Eric Clapton, ensaiou dentro de um avião enquanto cruzava o Atlântico. O show vai bem, mas a coisa complica quando Yoko, na faixa “John, John”, grita durante mais de 12 minutos.

Plastic Ono Band (1970)

Farto de brigar com os ex-companheiros de banda, Lennon faz desse disco um verdadeiro divã e o enche de desabafos. Ele exorciza fantasmas como a morte da mãe (“My Mummy’s Dead”) e o desprezo de seus pais (“Mother”), comenta a opressão da classe trabalhadora (“Working Class Hero”) e deixa bem claro que o fim dos Beatles era irreversível (“God”, onde o compositor diz que “o sonho acabou”).

Imagine (1971)

Contando com a guitarra do ex-Beatle George Harrison em metade das canções, esse é o disco mais vendido de Lennon – e o último que ele gravou na Inglaterra. Tem “I Don·t Want to Be a Soldier”, inspirado nos jovens que eram enviados para lutar no Vietnã, e “How Do You Sleep?”, em que alfineta Paul McCartney. A belíssima faixa-título tomou as rádios e logo se tornou um hino pacifista.

Some Time In New York City (1972)

Auge da militância de Lennon, é inspirado no noticiário da época. Ele homenageia dois ativistas políticos: “Angela” e “John Sinclair”. Já “Sunday Bloody Sunday” e “The Luck of The Irish” protestam contra a ocupação da Irlanda pela Inglaterra. “Attica State” fala do massacre numa penitenciária americana.

Mind Games (1973)

A canção que leva o nome do disco fala de uma “guerrilha mental” pela paz. Já a libertária “Bring On the Lucie (Freda Peeple)” critica os governantes e clama pelo fim dos assassinatos (em alusão ao Vietnã). Uma “canção” interessante é “Nutopian International Anthem”, que é o hino de um país (Nutopian) imaginado por John e Yoko: nada mais do que cinco segundos de silêncio.

Shaved Fish (1975)

Foi a única coletânea de sucessos lançada durante a vida de John. A vantagem é que traz algumas canções que nunca tinham saído em disco algum, como é o caso da pacifista “Give Peace a Chance” e da revolucionária “Power to the People”. Também tem uma versão de “Happy Xmas (War Is Over)”, canção natalina antibelicista que faria muito sucesso após a morte do músico.

E se fosse o Paul?

Imagine: Lennonsobreviveu ao atentadoe hoje tem 65 anos
Ricardo Alexandre

Os jornais daquele dia 8 de dezembro não falavam de outra coisa: John Lennon fora baleado. Três tiros disparados de um carro em movimento, que passou em baixa velocidade em frente ao edifício Dakota e sumiu no trânsito de Nova York. Somente um dos tiros atingiu o músico, na perna, de raspão, sem maiores complicações. Ninguém imaginaria esse tipo de violência contra um cantor pop, por mais politizado que fosse. O ex-Beatle voltava de cinco anos afastado do meio musical, preparado para engatar sua primeira turnê solo. Pois o atentado mudou seus planos: Lennon decidiu lançar o álbum Milk and Honey com as gravações inacabadas, mudou-se com Yoko e seu filho Sean para uma fazenda na Austrália e lançou a famosa frase: “Muita coisa está mudando no mundo. Eu quero mudar antes”. Praticamente ao mesmo tempo, seu antigo parceiro Paul McCartney surpreendeu o planeta e trocou o romantismo por uma postura mais combativa. Engajou-se raivosamente em campanhas pacifistas, na defesa do vegetarianismo e dos direitos civis dos negros – os críticos o acusaram de tentar pegar mórbida carona na atenção que o atentado a John criou em torno dos Beatles. Em 8 de dezembro de 1981, durante uma palestra de McCartney na Wayne State University, em Detroit, um fã da primeira fila sacou um revólver e alvejou o ex-Beatle com dois tiros à queima-roupa. O músico morreu no local. Mark Chapman foi detido e confessou ser o mesmo atirador que, exatamente um ano antes, tentara matar Lennon. Nunca se viu tamanha comoção mundial, graças ao gosto de “tragédia anunciada”, misturado ao insólito da violência gratuita contra os dois compositores mais cultuados do século 20. Chapman declarou que estava em busca de atenção da mídia – e, tristemente, conseguiu. Até hoje cumpre prisão, falhando em seu intento original de assassinar os quatro Beatles. Os três sobreviventes reagiram de maneira semelhante: recolheram-se, encastelados em suas mansões. Somente em 1986, dizendo-se “farto de temer o medo”, Lennon voltou para Nova York, anunciou um novo álbum (com participação de George Harrison e Ringo Starr), placidamente intitulado Lennon. Separou-se de Yoko Ono e assumiu seu relacionamento com a secretária May Pang – que existia desde os anos 70. Depois disso, gravou mais quatro discos, todos com arranjos crus, como se fossem gravados ao vivo no estúdio. Seus interesses divergiram entre cinema alternativo (foi o produtor executivo dos polêmicos documentários de Michael Moore) e incentivos à liberdade de expressão na internet. Em 1995, logo após o lançamento da megaoperação Anthology (pacote de CDs e DVDs, abrilhantado pela reunião dos Beatles sobreviventes cantando e tocando sobre fitas inacabadas de “One and One Is Two” e “1882”, de McCartney), Lennon concedeu uma bombástica entrevista a Jay Leno. Revelou ser homossexual. Desde então, com a mesma entrega com que abraçara o rock, o LSD, Yoko Ono e a reclusão, Lennon luta pelos direitos dos gays. Ainda hoje, aos 65 anos, Lennon continua sempre pronto a lutar. Só precisa de uma causa.

Saiba mais

Livros

Lembranças de Lennon, Jann S. Wenner, Conrad, 2001 - Íntegra da entrevista que o ex-Beatle deu à revista Rolling Stone, em 1971, onde fala cheio de ressentimento de tudo que passou no fim da banda.

Como John Lennon Pode Mudar Sua Vida, Alexandre Petillo, Eduardo Palandi e Pablo Kossa, Geração Editorial, 2005 - A partir de canções de Lennon, o livro investiga como suas atitudes influíram em sua arte.

Sites

www.lennonfbifiles.com - Traz cópias dos arquivos do FBI sobre Lennon.