José Hamilton Ribeiro: repórter por vocação

Em 1968, o jornalista foi destacado para cobrir a Guerra do Vietnã. Por ironia, ele próprio acabou virando notícia

Fábio Varsano Publicado em 01/04/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Há 40 anos, quando a Guerra Fria rachava o mundo entre duas superpotências, um brasileiro foi encarregado de testemunhar a batalha que era o epicentro dessa divisão de corações e mentes. Repórter da revista Realidade – a mais importante do país na época –, José Hamilton Ribeiro tinha 32 anos em março de 1968, quando foi ao Vietnã para cobrir a guerra que opunha o Sul, apoiado pelos Estados Unidos, e o Norte, que contava com o respaldo da União Soviética e da China. A idéia do jornalista era conhecer os dois lados do confronto e escrever uma reportagem com “olhar brasileiro”. Mas ele só cumpriu parte do que havia programado e não conheceu a metade do país dominada pelos vietcongues. Não por ter desistido.

Na manhã do dia 20 daquele mês, o último no front americano, José Hamilton acompanhava uma companhia da Cavalaria Aérea quando foi atingido por uma mina terrestre que arrancou parte de sua perna esquerda. A explosão mudou os planos do correspondente, que virou capa da própria reportagem, escrita após passagens por hospitais do Vietnã e Estados Unidos. O emocionante relato dos dias no confronto e do acidente está no livro O Gosto da Guerra (Objetiva, 2005) e nesta entrevista a GRANDES GUERRAS. Aos 72 anos, 52 só de carreira, José Hamilton não é somente um repórter vocacionado, como gosta de dizer. É o mais premiado deles – só de prêmios Esso (o mais famoso do Brasil), ele coleciona sete. Em uma profissão de fé, orgulha-se do papel dos jornalistas nas batalhas: “Para mim, qualquer guerra só é importante se tem alguém que escreva sobre ela”, afirma na entrevista a seguir.

Como surgiu a idéia de cobrir a Guerra do Vietnã?

Em 1968, a Guerra do Vietnã era o assunto mais importante do jornalismo em todo o planeta. Dizia-se, na época, que lá havia mais furo por metro quadrado que em qualquer lugar do mundo. Era a guerra mais quente da Guerra Fria. Parecia o momento mais decisivo da disputa entre Estados Unidos e União Soviética. Além disso, dos pontos de vista cultural e social, tudo girava em torno do Vietnã: protestos, artigos, livros... Era a síntese da agitação. E, diante desse cenário, eu trabalhava na revista Realidade, que tinha a ambição de ser a maior revista brasileira. Por isso, chegou-se à conclusão que não se podia tratar um assunto dessa importância com um olhar que não fosse o nosso, apenas com material vindo das agências internacionais de notícia, uma espécie de produto de segunda mão.

E você se prontificou imediatamente para a missão?

O Paulo Patarra, diretor de redação, chegou para mim e disse: “A primeira escolha é você. Se não quiser, a gente vai abrir voluntariado”. Respondi que ia pensar e, no dia seguinte, falei que aceitava.

Você passou por treinamento para poder acompanhar as tropas?

Não. E nem sei se existia algo semelhante para jornalistas, como há atualmente. Sei disso porque passei por essa experiência recentemente. Minha filha é casada com Sérgio D’Ávila, repórter da Folha de S.Paulo que foi ao Iraque, e ele teve de fazer um curso destinado a jornalistas que atuam em regiões de conflito.

Do ponto de vista psicológico, você se julgava preparado para aquele desafio?

Eu encarei com tranqüilidade. Sabia que era uma responsabilidade grande, mas sempre acreditei ser um repórter por vocação. E cobrir uma guerra é o degrau mais alto da carreira de um repórter. Depois que voltei, houve muito debate aqui no Brasil, onde não há tradição de enviar correspondentes para guerras, sobre se vale ou não arriscar a vida por uma matéria. Costumo responder da seguinte forma: para aceitar esse tipo de missão, é preciso um pouco de vaidade, outro tanto de espírito de aventura, uma pitada de falta de juízo e muito da sensação de que o jornalismo é um trabalho importante para a sociedade – de um lado, para relatar um caso como testemunha da história; de outro, para denunciar abusos, injustiças e iniqüidades.

Quando você deixou o Brasil, quais eram os planos para sua reportagem sobre o Vietnã?

A idéia era mostrar todos os lados da guerra. Ficaria primeiro uns dias em Saigon, no Vietnã do Sul. Depois, acompanharia por 20 dias soldados americanos no front. Por último, seguiria para Hanói, para ver o lado vietcongue. Mas o projeto todo mudou e essa parte final não pôde ser feita por causa do acidente que sofri, no último dia com os americanos.

Você pode relembrar como foi o acidente com a mina?

Eu e o fotógrafo Kei Shimamoto, um freelancer japonês, conseguimos credencial para acompanhar a rotina da 1ª Divisão de Cavalaria Aeromóvel americana. Todas as tardes um oficial de Inteligência fazia um briefing para dizer o que cada companhia iria fazer no dia seguinte. E nós escolhíamos um grupo conforme a avaliação do que fosse render melhor material jornalístico. Faltavam poucos dias para irmos embora e o Shima, como eu o chamava, achava que ainda faltava uma foto com emoção. Ele tinha bastante experiência na guerra. Por isso, decidimos acompanhar no dia seguinte uma patrulha que iria até a Aldeia Sem Alegria, um vilarejo de plantadores de batatas onde havia suspeitas de que ajudassem os vietcongues.

Como foi essa patrulha?

Eram 120 homens na companhia. Fomos de helicóptero até as proximidades e depois caminhamos até a aldeia. Lá, os soldados vasculharam todas as casas à procura de armas – uma prova definitiva do apoio – ou de excesso de comida – sinal de que mais alguém estava sendo alimentado. O povo foi simpático, sorridente, ofereceu até chá. Foi uma busca infrutífera. Só que, na véspera de deixarmos o front, o oficial contou que a tropa voltaria até a aldeia porque aviões haviam fotografado canhões antiaéreos enterrados, comprovando que havia ligação com o vietcongue.

E o cenário nessa segunda patrulha havia mudado?

Completamente. Voltamos ao mesmo local e não havia ninguém. A tropa, então, relaxou e começou a andar normalmente, sem formação. Mas a verdade é que os moradores tinham sido evacuados e o campo, minado. De repente, começou a explodir gente. Imediatamente, os soldados voltaram à formação, numa espécie de triângulo, protegendo o centro, onde se deslocavam o comando, o oficial de comunicação, o médico, o enfermeiro e os jornalistas. Mas logo houve outras explosões, com vários feridos ao mesmo tempo, e essa proteção meio que se desfez.

Qual foi sua atitude na hora?

Eu tinha de andar sempre junto de um militar encarregado da minha segurança. Quando começaram as explosões, havia um ferido bem a nossa frente. O médico já estava atendendo outro. O fotógrafo queria ir até lá para registrar a imagem, enquanto eu e o outro militar iríamos tentar prestar algum socorro. Só que houve outra explosão, com muita fumaça. Não senti nada. Só um tempo depois, notei que tinha sido comigo e vi o Shima me fotografando. Tinha perdido a perna. Era a foto emocionante de que ele precisava.

Aquela foi a pior sensação que você teve durante a guerra?

Por incrível que pareça, não. Na hora, havia muita adrenalina, muita tensão e nem sentia tanta dor assim. Depois, quando fui levado para o hospital de campanha, é que foi terrível. Com as dores e a solidão, achava que ia morrer. E o pior: que ninguém iria saber. Pensava que ia ser abandonado pelos americanos. Afinal, havia soldados em condições muito piores que as minhas. Hospital de campanha é uma coisa terrível. Você vê situações que jamais imaginou. Essas foram as imagens mais impactantes que tive da guerra.

Quanto tempo você ficou internado só no Vietnã?

Entre o hospital de campanha e o da cidade, foram 11 dias. Depois, fui mandado para os Estados Unidos. Aquela sensação de abandono durou os primeiros três ou quatro dias. Quando fui colocado numa cadeira de rodas, percebi que tinha escapado.

Você testemunhou algum caso de abusos praticados por soldados durante a guerra?

Não vi nenhuma crueldade ou prepotência, mas justamente porque estava lá. A 30 quilômetros da base onde fiquei, houve a chacina de Milai. Foi quando uma patrulha semelhante àquela que acompanhei foi checar uma informação numa aldeia de plantadores de arroz. Só havia mulheres, velhos e crianças, num sinal de que os adultos jovens estariam escondidos. Os americanos colocaram cerca de 150 pessoas numa praça e amarraram todos com uma corda, que ia sendo apertada. De repente, um soldado deu um disparo. Os outros, achando que se tratava de um ataque, também atiraram. Resultado: todas as pessoas foram baleadas. Minha conclusão é que se um jornalista estivesse no grupo, o massacre não teria acontecido.

E do lado contrário você acha que também era assim?

Acredito que sim. Recentemente, a National Geographic publicou uma entrevista com um fotógrafo que atuou no Vietnã do Norte durante a guerra. Ele contou um episódio envolvendo a captura de um piloto americano. O militar estava sendo interrogado, rodeado pelos vietnamitas, com cara de pavor. Quando o fotógrafo foi chamado, a expressão do piloto mudou. Imediatamente ele relaxou.

Você concorda que os jornalistas nunca tiveram tanta liberdade para cobrir uma guerra quanto no Vietnã? E que, depois dela, as restrições aumentaram muito?

Certamente. No Vietnã, chegou a haver 500 correspondentes estrangeiros e 90% tinham uma opinião pró-vietcongue. Os americanos estavam lá, mas sabiam que não era uma guerra deles, era do Vietnã do Sul. Por isso, havia uma grande liberdade para circular. Já no Vietnã do Norte, onde não consegui ir, sabia que o governo só permitia a entrada daqueles que simpatizavam com a causa deles.

Mesmo com condições muito diferentes daquelas que existia em 1968, você acha que hoje valeria a pena participar de uma nova cobertura de guerra?

Claro. Se o jornalista tem vocação de repórter, tem de ir para contar o que acontece da forma mais imparcial possível. Para mim, qualquer guerra só é importante se tem alguém que escreva sobre ela. O que seria de Canudos sem Euclides da Cunha? Seria um mero relato de manobras militares de três ou quatro páginas, com o número de baixas de cada lado.