Kublai Khan x Hojo Tokimune

Herdeiro de um dos maiores impérios da História, o líder mongol Kublai Khan amargaria duas derrotas frente aos samurais e ao clima

Douglas Portari Publicado em 01/07/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Muito além de estratégias e exércitos envolvidos, um fator imponderável tem se mostrado presente no resultado de vários combates: a natureza. Em muitos episódios célebres da História, foi ela quem decretou a salvação ou destruição de um dos lados em conflito. No século 13, Kublai Khan, neto do conquistador mongol Gêngis Khan, aprenderia essa lição do modo mais duro – pela experiência.

Pouco antes de sua morte, Gêngis Khan dividira o vasto império mongol em quatro khanatos – regiões administradas por seus filhos e netos e que deviam submissão a Khan. Nascido na China durante as campanhas de seu avô, Kublai recebera o título de Grande Khan em 1264, após disputas com outros descendentes, e escolheu Pequim como capital de seu império. Apesar de ainda enfrentar a resistência local da Dinastia Song em seus planos de unificação da China, passou a exigir a submissão do Japão. Hojo Tokimune, o regente do xogunato Kamakura (à época, o xogun, ou seu regente, lideravam o Japão de fato), recebia os emissários, mas, para ganhar tempo, não respondia. Tokimune, que havia assumido em 1268, aos 18 anos, mandou que os samurais se preparassem, pois sabia do poder de Kublai. Como esperado, o Grande Khan ordenou a construção de navios para a invasão do Japão. Em novembro de 1274, cerca de 900 embarcações, com mais de 20 mil homens, entre mongóis, chineses e coreanos, partiram da Coréia.

Após destroçar a resistência no arquipélago de Tsushima, a força mongol aportou na Baía de Hakata, na cidade de Fukuoka. A princípio, os samurais foram alvos fáceis para os arcos de longo alcance dos mongóis, sua experiência de cavalaria e o uso de primitivas granadas que, como fogos de artifício, se não feriam, desorganizavam as fileiras japonesas.

Kamikaze

Mesmo subjugados em número, os samurais não desistiram. Somente duas semanas depois, tiveram de retroceder para o interior. Em função do número de baixas causado por sua resistência, a força invasora não os seguiu. A natureza, então, favoreceu os japoneses. A chegada de uma tempestade fez os exércitos mongóis retornarem aos navios. Era um tufão. Mais de um terço da frota mongol foi devastada e os sobreviventes, sem condições de combate, retornaram para a Coréia. Tokimune agradeceu aos céus pelo kamikaze, o “vento divino”. Mas sabia que, sem ele, não teriam vencido e que Kublai não aceitaria a derrota.

Na China, o Grande Khan havia vencido a Dinastia Song e fundara a sua própria, a Yuan. Era agora um imperador e, como tal, enviou novamente emissários para o Japão. Tokimune, dessa vez, era claro na resposta: decapitava os enviados. Enquanto isso, a Baía de Hakata ganhava uma muralha de 20 quilômetros de extensão.

A nova invasão ocorreria em 1281. Os mongóis chegaram à Baía de Hakata em junho, com mais de 4 mil barcos e cerca de 140 mil homens. Estimam-se as forças japonesas em 10 mil homens, mesmo número da primeira invasão, mas as fortificações se mostraram eficazes e os samurais surpreenderam. Por meio de botes, entravam nos navios mongóis à noite e massacravam os tripulantes.

Os combates duraram até agosto, quando outro tufão surgiu no Mar do Japão. O resultado foi ainda mais catastrófico para os mongóis. Cerca de 80% de seus navios afundaram. Os sobreviventes deram meia-volta. O “vento divino” novamente havia salvado os japoneses. Tokimune morreria três anos depois, aos 33 anos, mas os samurais continuariam de prontidão durante anos.

Porém, com a morte de Kublai Khan, em 1294, não haveria outra invasão. A heróica resistência ao império mongol forjou o senso de que o Japão era uma terra impenetrável para seus inimigos. Uma crença que seria posta à prova somente sete séculos depois, quando novos samurais apelariam para o “vento divino”. Mas, então, sem a ajuda da natureza.

Kublai Khan (1215-1294)

Quem foi: neto de Gêngis Khan e fundador da dinastia chinesa Yuan. Era o líder do maior império do século 13, que se estendia do Mar do Japão ao Mar Cáspio

Contingente de invasões: cerca de 160 mil homens

Que fim levou: com sua morte, em 1294, não houve mais um Grande Khan e o império mongol se fragmentou. A reunificação da China sob uma única dinastia é atribuída a Kublai

Hojo Tokimune (1251-1284)

Quem foi: regente do xogunato Kamakura. À época, mais que o imperador, o xogum, líder dos samurais, ou o regente, exerciam o poder de fato no Japão

Contingente de invasões: cerca de 20 mil homens

Que fim levou: adoeceu e morreu aos 33 anos. Nos séculos seguintes, a liderança dos xoguns iria enfraquecer. Tokimune é tido como um precursor do Budismo no Japão, tendo ordenado a construção de templos

 

Para saber mais

Livro

Ghenko: The Mongol Invasion of Japan, Nakaba Yamada, University Publications of America, 1979 (em inglês)

Lançado em 1916, narra as invasões e a origem do nacionalismo japonês.