O lado B do bushido

O código de honra dos samurais está na origem das atrocidades cometidas pelos japoneses durante a Segunda Guerra

Ricardo Bonalume Neto Publicado em 01/04/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Os samurais tinham várias qualidades notáveis, como a fidelidade, a honestidade, a frugalidade. Mas seu código de conduta, o bushido, continha as sementes que viriam a dar frutos bem amargos, anos depois de os samurais, como casta, terem desaparecido. Associado ao militarismo da década de 1930, o bushido está na origem das atrocidades que os japoneses cometeram em vários países da Ásia e contra prisioneiros de guerra aliados na Segunda Guerra.

Com a modernização do Japão no século 19, os samurais foram extintos e seu papel na sociedade foi tomado por forças armadas de modelo ocidental. Mas o bushido ganhou força como um norte ético para toda a sociedade. A devoção incondicional ao imperador passou a ser o ensinamento básico nas escolas, e martelado à exaustão depois nas casernas.

O bushido, ou “caminho do guerreiro”, significava a morte. O samurai perfeito era um morto-vivo esperando a morte gloriosa – ou então o suicídio ritual, o seppuku, em caso de desonra. Era inconcebível para um guerreiro japonês ser aprisionado. O samurai derrotado tinha de se matar; e isso foi aos poucos estendido para as novas forças armadas, e mesmo para toda a sociedade.

Na Segunda Guerra, quando acuados, soldados japoneses faziam uma última carga suicida gritando “banzai!”, e morriam às centenas, moídos por canhões e metralhadoras inimigos. A invenção do aviador-suicida, o kamikaze, só é compreensível pelo bushido.

Justamente por não conceber a rendição, o militar japonês desprezava quem o fizesse. E, para o azar dos aliados, um bom número de soldados caiu prisioneiro nos primeiros meses da Guerra do Pacífico. Só uma parte pequena estava viva quatro anos depois.

Em 1945, as tropas aliadas vencedoras tiveram dois momentos de forte comoção. Um deles foi na Europa, quando as tropas anglo-americanas e soviéticas libertaram os judeus que estavam em campos de extermínio nazistas. O outro foi quando os aliados chegaram aos campos de prisioneiros de guerra administrados pelos japoneses.

Os sobreviventes desses campos, tanto na Europa como na Ásia, eram figuras esqueléticas e doentes, sem um pingo de gordura no corpo, que mal conseguiam ficar de pé. O Holocausto judeu é bem conhecido; menos divulgados foram os maus-tratos que os japoneses dispensaram a americanos, ingleses, holandeses, chineses e outros aliados.

Milhares de americanos e filipinos morreram na chamada “marcha da morte”, depois da ocupação das Filipinas pelos japoneses em 1942. Milhares de britânicos capturados em Cingapura e Hong Kong morreram trabalhando na construção de uma ferrovia na Birmânia, episódio lembrado no filme A Ponte do Rio Kwai (mas feito com atores em bom estado de saúde).

Não era só o odiado “homem branco colonialista” quem sofria. O Japão colonizara a Coréia desde 1910. Os coreanos eram tratados como seres humanos de segunda categoria, escravizados em fábricas ou como prostitutas em bordéis de campanha – eufemisticamente chamadas de “mulheres de conforto”.

“Degeneração moral”

“As atrocidades cometidas pelo Exército e pela Marinha imperiais atestam a degeneração moral da elite governante. A conduta das forças japonesas na Segunda Guerra Mundial foi muito inferior ao seu comportamento disciplinado nas guerras sino-japonesa e russo-japonesa”, escreveu o historiador japonês Saburo Ienaga (1913-2002).

Em 1894 e em 1905, o militarismo e o autoritarismo não tinham ainda contaminado o país como aconteceria na década de 1930. Os chineses foram os primeiros a sentir a mudança. Nanquim (ou Nanjing) era a capital da China em 1937 quando os japoneses a invadiram. Localizada perto do mar, era um alvo fácil. Sua população foi objeto de massacre sistemático pelas tropas japonesas. Dezenas de milhares de civis foram mortos – as estatísticas, imprecisas, variam de 100 mil a 300 mil. Milhares de mulheres foram estupradas.

Mesmo hoje o massacre de Nanquim é tabu no Japão. Em 1982, o Ministério da Educação chegou a censurar a menção do massacre em livros didáticos. Políticos nacionalistas japoneses ainda acham que o massacre era mera propaganda chinesa. Ienaga manteve uma luta constante contra essa deturpação dos livros didáticos.

O problema permanece até hoje e afeta inclusive japoneses. Um fato conhecido foi o suicídio forçado de civis japoneses pelos militares na ilha de Okinawa, invadida pelos americanos em abril de 1945. Os soldados japoneses forçaram milhares de civis a se jogarem de penhascos para não serem capturados pelos americanos.

No ano passado, o Ministério da Educação japonês ordenou mudanças nos livros didáticos expurgando o papel dos militares no suicídio. Mais de 100 mil habitantes de Okinawa – incluindo o governador da ilha – fizeram uma demonstração protestando contra a mudança nos livros. “Nós não podemos deixar de jeito nenhum que a história seja distorcida”, disse o organizador do protesto, Toshinobu Nakazato.

Ricardo Bonalume Neto, 47 anos, é repórter da Folha de S.Paulo especializado em ciência e assuntos militares. Cobriu conflitos em vários continentes e é autor de A Nossa Segunda Guerra – Os Brasileiros em Combate, 1942-1945.