Lévi-Strauss : Viagem ao Brasil profundo

Em Tristes Trópicos, Claude Lévi-Strauss descreve seu contato com tribos indígenas

Sergio Amaral Silva Publicado em 01/06/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Em um domingo de outono em 1934, o jovem filósofo belga Claude Lévi-Strauss recebeu um telefonema de Célestin Bouglé, diretor da Escola Normal Superior de Paris. Bouglé perguntou se Claude ainda tinha interesse de estudar etnografia. “Sem dúvida!”, foi a resposta. “Então apresente sua candidatura para professor da Universidade de São Paulo. Os arredores estão repletos de índios, a quem você dedicará os seus fins de semana.” Dias depois, o embaixador do Brasil em Paris, Luís de Sousa Dantas, deu a Lévi-Strauss uma informação completamente diferente. “Índios? Infelizmente, prezado cavalheiro, lá se vão anos que eles desapareceram.” Ao chegar a São Paulo, o professor descobriu que Bouglé e Dantas estavam errados. Lévi-Strauss não visitou tribos índígenas nos fins de semana, mas, nos períodos de férias, encontrou várias no interior do país. O resultado de suas experiências, o livro Tristres Trópicos, foi publicado em 1955 e tornou-se um clássico da antropologia do século 20.

Lévi-Strauss, que em novembro deve completar 100 anos de vida, morou no Brasil entre 1935 e 1937 e de 1938 a 1939. Não gostou das cidades. A ele, a baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, pareceu uma boca desdentada. São Paulo, do seu ponto de vista, era uma típica cidade do Novo Mundo, dessas que “vão do frescor à decrepitude sem se deterem no antigo”. Mas, no contato com as aldeias, o antropólogo encantou-se. Ele conheceu os cadiueus e os bororos, do Mato Grosso do Sul, os nambiquaras, do Mato Grosso, e os tupi-cavaíbas de Alto-Machado, no Amazonas.

Embora comece com uma manifestação de repúdio às viagens e aos exploradores de todos os tempos, o livro trata da difícil arte de viajar, embora não se reduza a isso. Com sua visão aguda de observador e cientista, o professor narra ainda o surgimento de sua vocação pessoal para a antropologia. Lévi-Strauss, que nunca aceitou o conceito de que a civilização ocidental é superior às demais, apresenta nesse livro as origens de sua teoria, que depois se tornaria famosa. Para ele, a mente selvagem é, na essência, bastante semelhante à civilizada, e, no fundo, as características humanas mais básicas são universais.