Loucos pela Segunda Guerra

Em um boteco no Rio, João Barone conduz um animado bate-papo com outros apaixonados pelo tema: Arthur Dapieve, Aldir Blanc e Fausto Fawcett

Mariana Sgarioni Publicado em 01/09/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Era quarta-feira à tarde. Mais precisamente, 15 horas. Fazia calor, muito calor, em pleno inverno carioca, quando o músico João Barone, colunista de Grandes Guerras, escalou a dedo quem ia passar aquela tarde ensolarada de julho bebericando e papeando num boteco da Tijuca, tradicional bairro carioca. Os convidados foram chegando um a um: o jornalista Arthur Dapieve e os músicos Aldir Blanc e Fauto Fawcett (o humorista Marcelo Madureira também foi convocado, mas não pôde comparecer).

Com este cenário montado, daria até para pensar que o tema da conversa foi samba ou futebol. Mas a indumentária em cima da mesa do boteco não deixava dúvidas: réplicas em miniatura de um avião de guerra e de um tanque das forças aliadas. Isso sem contar um capacete original das Forças Armadas dos Estados Unidos e outro da Prússia, relíquias que Barone guarda em casa e fez questão de mostrar para seus amigos.

O assunto era guerra, mais precisamente a Segunda Guerra Mundial. Suas causas, seu legado, seus valores, a participação brasileira e até das mulheres – afinal, como elas ficariam de fora de uma conversa de botequim? Papo vai, papo vem, e o encontro foi ficando mais animado, varando noite adentro. Tudo regado a muita cerveja, salsichas, chucrutes. Num bar alemão. Claro.

Grandes Guerras – Só para começar a conversa: vocês acham que é possível a humanidade ter evoluído a partir da Segunda Guerra Mundial?

João Barone (JB) – Lógico que sim. É só ver as grandes invenções que surgiram a partir da Segunda Guerra Mundial. Por exemplo: a penicilina, a comunicação por satélite, os radares. O mundo era limitado antes, principalmente no que se refere à informação. A propaganda, então, foi algo que evoluiu demais.

Arthur Dapieve (AD) – O desenvolvimento tecnológico foi uma espécie de efeito colateral da Segunda Guerra.

Aldir Blanc (AB) – Sim, tivemos uma evolução na marra.

JB – Eu ouço sempre o seguinte questionamento de algumas pessoas: como seria o mundo sem guerra? Não sei se dá para pensar assim, uma vez que a guerra está tão dentro da nossa história de vida...

AD – Eu me lembro de que, quando tinha 5 anos de idade, já assistia a um seriado chamado Combate, nos anos 60. Cresci e achei que devia ir além. Fui então jogar “War” [risos].

AB – A guerra esteve mais próxima de nós do que podemos imaginar. E pensar que Hitler tinha grandes planos inclusive aqui para o Brasil... Ele tinha várias idéias de colonizações, queria criar um país intercontinental fora da Europa...

JB – A Alemanha tinha influências incríveis fora da Europa, que pouca gente conhece. O namoro de Hitler com Getúlio Vargas, sem contar a influência na Bolívia, que era gigantesca.

Fausto Fawcett (FF) – Hitler tinha mapas com tudo marcado. Agora: por que exatamente a Bolívia? Bem, alguém tinha de fazer alguma coisa com a Bolívia, cá entre nós... [risos]

JB – A Bolívia era um ponto estratégico por ficar próximo do Canal do Panamá. Em um determinado momento, o plano da Alemanha era dominar os canais, como o de Suez e do Panamá.

AB – Hoje você vê um “neo-hitlerismo” incrível no Irã, por exemplo. O presidente Bush é outro que quer expandir seus domínios.

FF – Na Guerra dos Bálcãs, Clinton também fez isso.

JB – Os programas de extermínio a doentes mentais, por exemplo, ficaram associados ao lado mais terrível do nazismo. Mas os nazistas tinham interesses semelhantes aos dos Estados Unidos, quando mataram os índios, e da França na África. Ou seja, americano não é nada bonzinho. Nem inglês e francês.

AD – Eu ainda acho que prefiro os americanos aos chineses.

AB – Os peles vermelhas sempre foram uma pedra no sapato dos Estados Unidos.

AD – Aliar-se a Milosevic é o mesmo que se aliar a Hitler.

FF – Tenho a impressão de que até 10 anos atrás estávamos ainda vivendo essa sensação da guerra, não?

AP – Talvez o primeiro fato novo fora desse script tenha sido os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Acredito que esses ataques tenham inaugurado uma nova fase.

JB – Sim, eles remetem a um extremismo que vem das Cruzadas.

FF – É aquela velha história: na Segunda Guerra, todo mundo sabia onde estava. Era o mundo em guerra, algo claro e preciso. Hoje, vem bomba de tudo o que é lado e ninguém sabe de onde.

AB – Sim, tem a máxima: a bomba atômica matou mil, mas evitou a morte de milhões. Difícil pensar assim, né?

Grandes Guerras – Puxando a brasa um pouco para o nosso lado, como vocês enxergam a participação do Brasil na Segunda Guerra?

AB – Se formos pensar pelo lado de Getúlio Vargas, ele foi um grande oportunista. Getúlio tentou inventar o Brasil como grande potência nas costas dos outros. Acho que foi um incrível desrespeito à gloriosa participação dos nossos soldados, que foram combater lá na Itália e “colocaram o deles na reta”.

AD – Nossa entrada na guerra foi meio que uma declaração de princípios: estávamos sempre do lado menos mau. Mas o resultado foi bem importante, uma vez que depois da guerra uma ditadura no Brasil ficou insustentável.

JB – Ficou parecendo que o papel desempenhado pelo Brasil na guerra foi pequeno. Mas não foi, não.

AD – Fomos excelentes soldados, além de exímios pilotos.

FF – É porque não se valoriza guerra no Brasil, esta é a verdade. Somos o país da tranqüilidade. Esses soldados deveriam ser tratados como heróis, no entanto, ninguém se lembra deles...

AB – Somos pacifistas, tratamos o assunto guerra como se não fosse com a gente...

FF – Na verdade, podemos dizer que somos passistas, e não pacifistas... [risos]

AD – No ano passado, durante os eventos de comemoração da vitória das forças aliadas na guerra, nem o Lula compareceu à festa. Achei aquilo um desrespeito. Todo brasileiro deveria se orgulhar da nossa participação na guerra.

JB – O Brasil deu várias lições: por exemplo, o fato de termos uma tropa bem miscigenada, com negros, brancos, mulatos, japoneses. Acho que nós demos um grande exemplo de organização, de quem toca um Exército na base do “é para ontem”. O País ainda tem um forte tributo histórico a pagar.

AB – Muitos dos grandes feitos do nosso Exército foram devidos à habilidade dos nossos pracinhas. Os altos comandantes eram sujeitos próximos à imbecilidade: jogaram os pracinhas na fogueira para depois serem condecorados. Foram as suas crias, aliás, que fizeram a Revolução de 64...

Grandes Guerras – Quais os valores morais que herdamos da Segunda Guerra? Quais os princípios do nosso dia-a-dia que mudaram?

FF – Primeiro, eu acho que a paz se tornou tema de discussão mundial.

JB – Foram criadas as Nações Unidas para garantir a paz, pelo menos, em tese. Mas o problema é que os Estados Unidos não estão nem aí... De todo modo, o ideal era a liberdade, a igualdade.

FF – Herdamos também a sociedade de consumo, de certa forma.

JB – Até o rock é filho legítimo da Segunda Guerra Mundial! Apareceu na Inglaterra a geração transviada, passaram a ser vendidas motos Harley-Davidson, jaquetas de couro...

FF – Sim, a juventude acabou se transformando em um grande negócio.

JB – Até o momento em que a alienação chegou ao rock. É o caso de pegar numa guitarra em vez de pegar num fuzil...

AD – Tenho a impressão de que a humanidade percebeu, depois da Segunda Guerra, que poderia acabar, que ela poderia se auto-exterminar. Isso muda tudo quando você passa a ter a noção de que pode acabar consigo mesmo.

JB – Vamos falar um pouco das mulheres... Da participação das mulheres na Segunda Guerra... Bem, existem vários clichês, tipo que mulher não gosta de guerra etc. Em filmes de guerra você quase não vê mulheres...

AB – Eu nem vou falar de filmes porque sou de uma ignorância incrível...

AD – As forças soviéticas tinham mulheres pilotando aviões e tanques. Elas eram excelentes atiradoras também.

JB – Acho que boa parte das mulheres que sobreviveram ao holocausto nazista teve uma importância incrível na hora de contar o que viu. Elas registraram a história da vida privada.

FF – Mas não tem jeito, a guerra é o ápice da testosterona.

AB – Olha, as mulheres resistem a este assunto porque elas são muito mais inteligentes que nós. Elas sabem que aquilo não vai dar em nada mesmo. A essência da guerra é burra, é uma aberração.