Luiz de Orleans e Bragança: imperador sem coroa

Bisneto da princesa Isabel, ele seria nosso rei, se ainda vivêssemos no império. Com postura de monarca, ele relembra os feitos de seus antepassados. E avisa: a monarquia voltará ao Brasil

Felipe Van Deursen Publicado em 01/03/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Nas veias deste homem corre o sangue de santos católicos, reis cruzados e heróis nacionais. Se o Brasil não tivesse se tornado uma república, em 1889, hoje ele seria imperador. Mas Luiz Gastão Maria José Pio de Orleans e Bragança nunca usou uma coroa, não tem grandes feitos em sua biografia e sabe que as origens são seu maior tesouro. Trineto de dom Pedro II e bisneto da princesa Isabel, ele exalta a nobreza nos adjetivos pomposos que usa e no broche com o brasão real que leva na lapela do terno.

Aos 69 anos e caminhando com a ajuda de uma bengala por conta da poliomielite que o acometeu na infância, dom Luiz, como é conhecido no círculo monarquista, tornou-se herdeiro do trono quando o primogênito da princesa Isabel, Pedro de Alcântara, renunciou ao cargo – ao se casar, em 1908, com uma condessa que não pertencia a nenhuma das famílias reais européias. Em razão desse affaire, o direito de reinar foi dado ao irmão mais novo de Pedro, Luiz, que passou a herança dinástica e o mesmo nome ao neto, atual chefe da Casa Imperial do Brasil.

Dom Luiz vive da ajuda daqueles que, como ele, sonham com a volta da monarquia a estes trópicos. Membro da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), ele diz que o plebiscito de 1993 foi uma fraude, que o Brasil não precisa de reforma agrária e que a “república é uma lenta decadência”. Longe de ter a vida de um rei, mora numa confortável casa no bairro nobre do Pacaembu, em São Paulo (SP) – decorada com imagens, brasões e lembranças da família real –, onde recebeu Aventuras na História para esta entrevista. O homem que sonha em ser monarca relembra tempos que não viveu. Solteiro, mas com 17 sobrinhos, filhos de 7 dos seus 11 irmãos, ele diz que somente um “desastre de primeira grandeza” acabará com a linha sucessória.

Com as comemorações do bicentenário da chegada da corte, como é ver a atenção dos brasileiros voltada a sua família?

Houve durante muito tempo uma campanha de detração de dom João VI. Diziam que ele era um gordalhão, indeciso, que vivia com coxinhas de frango no colete. Tudo isso é uma legenda que começou com a república para denegrir a monarquia. Hoje, sabe-se que ele era um homem sagaz, de grande visão política.

São lugares-comuns que estão caindo por terra?

Qualquer brasileiro com alguma noção da história sabe que dom João fundou a nacionalidade do país. Três dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, ele já tinha o governo instalado.

Como o Brasil seria hoje se não fosse dom João VI?

Veja o que aconteceu com as colônias espanholas. Elas se subdividiram. Enquanto o Brasil estava em paz, na monarquia, as colônias espanholas tiveram golpes de Estado, regimes demagógicos.

Mas ocorreram muitas revoltas de norte a sul do país naquela época.

Elas aconteceram, mas o Brasil permaneceu uno. Graças a dom João VI, hoje desfrutamos de uma unidade nacional.

Esse é o maior legado da monarquia?

É o maior legado. Mas o Brasil também viveu em prosperidade de 1808 até 1889, em comparação com outros vários países espalhados pela América do Sul.

Apesar das dezenas de revoltas do século 19, como a Confederação do Equador, no Nordeste, e a Farroupilha, no Rio Grande do Sul, o senhor acredita que o Brasil viveu um período de paz?

Sim. Foram revoltas locais, que não afetaram a nacionalidade.

O senhor é francês, nasceu no exílio. O banimento da família real após a Proclamação da República foi uma injustiça?

Eu pergunto: você acha justo que uma família que se dedicou ao bem do país durante 80 anos seja exilada assim, de repente? Trinta anos, o maior exílio da história do país! E, mesmo longe, ela continuava querendo o bem do Brasil. Vou dar um exemplo: houve no Banco do Brasil uma desordem bem republicana. As contas não estavam em dia, uma bagunça infernal. E o presidente, não lembro quem [Hermes da Fonseca, 1910-1914], chegou à conclusão de que a única pessoa que seria capaz de pôr um ponto final naquilo era João Alfredo Corrêa de Oliveira, que fora ministro no império. Quando foi convidado, João Alfredo respondeu que era monarquista e só aceitaria o cargo se sua imperatriz autorizasse. Ao escrever para a princesa Isabel – ao lado de quem ele tinha promulgado a Lei Áurea, em 1888 –, teve como resposta: “como é para o bem do Brasil, o senhor tem de aceitar”. João Alfredo Corrêa ficou uns anos no banco, deixou tudo perfeitamente em ordem, saiu e morreu pobre, diferentemente de como as coisas são hoje em dia.

Como seria o Brasil hoje se a república nunca tivesse sido proclamada?

É difícil dizer, mas o Brasil certamente seria muito mais estável. Acho que o país teria crescido ainda mais do que cresceu, e provavelmente teria muito mais peso nas relações internacionais. No Brasil de dom Pedro II, o país mediou grandes pendências diplomáticas. O imperador era a segunda maior autoridade moral em todo o mundo, depois apenas do papa.

Dom Pedro II, então, foi o maior estadista do Brasil?

Foi. Páreo duro com dom João VI. Dom João também foi um grande estadista. Ele fez o Brasil.

Entre os presidentes, houve algum grande estadista?

O mais inteligente, mais capaz, foi Epitácio Pessoa. Mas a república é uma lenta decadência.

Há 15 anos nós tivemos o plebiscito para definir a forma de governo do país, e a monarquia obteve 10% dos votos. O que o senhor achou desse resultado?

Ficamos manietados durante 99 anos, por conta de uma cláusula pétrea da Constituição de 1891 que proibia qualquer manifestação monárquica. Em 1987, escrevi uma carta aos constituintes, dizendo que a cláusula era contrária aos princípios democráticos. Aboliram-na e convocaram o plebiscito para dali a cinco anos. Mas anteciparam a data da votação, prejudicando nossa campanha. Afinal, um movimento amordaçado por 99 anos não se arruma em cinco. Além disso, eu e meus irmãos não tivemos acesso à televisão.

Por que não?

Barganhas e correntes contrárias. Apelamos ao Supremo Tribunal Federal, mas eles protelaram a decisão até depois do plebiscito. Aí, não tinha mais jeito. Os meios de comunicação fizeram uma campanha de detração da monarquia. Diziam que iríamos restabelecer a escravidão, como pode? A princesa Isabel aboliu a escravidão! Diziam que iríamos tirar as aposentadorias dos velhos e deixá-los na miséria. E nós não podíamos nos defender. Tivemos a minoria no resultado, de fato. Não houve uma disputa em iguais condições.

O Brasil voltará a ser uma monarquia?

Sim. Não é para hoje, mas é para amanhã ou depois de amanhã, tenho certeza. Na monarquia, o soberano tem o mesmo interesse que o país, ele sabe que vai ficar até o fim da vida e que depois o filho o sucederá. Então, se ele governar mal, quem sofrerá será ele, por meio do filho. A ordem natural posta por Deus na natureza é monárquica. O regime hierárquico é normal, está na natureza.

Mas não só a monarquia é hierárquica.

Sim, mas as outras são hierarquias não estáveis, em que os interesses dos titulares não são os mesmos da nação. O interesse particular deles é a própria estabilidade ou a do seu partido. A roubalheira é fruto disso. Rui Barbosa, um republicano histórico, dizia que dom Pedro II foi o grande fiscal da moralidade pública. O resultado da república é o que temos hoje no Brasil, um escândalo após o outro.

Hoje, como chefe da Casa Imperial do Brasil, o que o senhor pode fazer diante dessa situação?

Eu represento a possibilidade de uma volta ao regime que deu ao Brasil sua estabilidade, sua prosperidade. A família real lembra as normas que podem repor o país no caminho de sua verdadeira grandeza. Eu represento a honestidade, o decoro, a honra – uma palavra que não existe mais na nossa pátria.

Essa exposição dada ao bicentenário ajuda na causa monárquica?

Não queremos tirar proveito de imediato. Queremos que essas comemorações lembrem o bem que a monarquia fez ao Brasil.

Numa carta aos brasileiros, em 2006, o senhor se refere a “hordas de agitadores que se atiram contra aqueles que aproveitam as riquezas do nosso solo...”

Repito isso e assino embaixo. Talvez não haja um movimento mais desprestigiado que o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra]. Ele invade terras, estraga fazendas, tira empregos e não produz nada. Os assentamentos do MST são favelas rurais, vivem de bolsa-família, bolsa-escola, bolsa-não-sei-o-quê. O Brasil não precisa de reforma agrária. Latifúndios, com o tempo, transformam-se naturalmente em minifúndios, não precisa haver conflitos. Aqui, no estado de São Paulo, grandes fazendas deram lugar a pequenas propriedades. Tenho certeza de que o mesmo vai ocorrer no resto do país.

O senhor estudou Química. Exerce a profissão? De onde vem sua renda?

Não exerço. Tenho um apartamento em Higienópolis [bairro de classe média alta em São Paulo], que me dá uma renda mensal de uns 500 reais. Fora isso, vivo de doações de simpatizantes da causa monarquista. Não sou rico. Você pode ver por esta casa, que não é nenhum palacete.

Críticos da monarquia dizem que famílias reais vivem das glórias do passado e são um peso para a sociedade.

De geração em geração, aprendemos a ter bom senso. Somos criados para chefiar uma nação. Reis têm educação e formação que, muitas vezes, presidentes não têm. E temos isso justamente porque glorificamos nosso passado. É meu maior tesouro.

Como é ser príncipe de um país sem reino?

Sinto-me no dever de manter as tradições da monarquia e divulgá-las para o bem do povo brasileiro. Estou certo de que a volta à monarquia seria o ideal para o Brasil. Mas, mesmo que ela não volte, os valores que eu devo representar são muito maiores, para o bem da pátria.