Madeira-Mamoré: Ferrovia maldita

Construção da Madeira-Mamoré, fracasso bilionário que matou 6 mil trabalhadores, completa 100 anos

Felipe Van Deursen Publicado em 01/08/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

A má fama de um trecho sinuoso do rio Madeira, na fronteira entre Brasil e Bolívia, correu o mundo no século 19, depois de fracassarem algumas tentativas de se construir uma estrada de ferro junto ao rio, no meio da Amazônia. Mesmo assim, o controverso e megalomaníaco empresário americano Percival Farquhar decidiu bancar o desafio. Em agosto de 1907, a Madeira-Mamoré Railway Company foi fundada para tocar as obras de uma via que serviria para escoar para o Atlântico a borracha e outros produtos cultivados na região.

Cinco anos, milhares de mortes e um rio de dinheiro depois (o equivalente a 28 toneladas de ouro ou cerca de 1,2 bilhão de reais em valores atuais – tudo bancado pelo governo), a ferrovia foi inaugurada. Mas, em 1912, nossa borracha começava a perder espaço no comércio mundial para a produzida no Sudeste Asiático, o que fez com que a estrada desse prejuízo. Desativada em 1972, ela virou sucata, vendida a uma siderúrgica. Hoje, os poucos trilhos que sobraram, tombados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), estão ameaçados de ficar debaixo d’água pela possível construção de um complexo hidrelétrico em Rondônia.

 

No meio da floresta

Por que a estrada de Rondônia, que ligava nada a lugar nenhum, não deu certo

DA LAMA AO CAOS

Para ficar perto da produção de borracha, a estrada deveria ser rente ao rio Madeira, o que dificultou tudo. O terreno desfavorável, cheio de desníveis, exigia pontes e aterros nos 366 quilômetros da ferrovia. E havia as chuvas – de outubro a março, provocavam erosões e destruíam os aterros já feitos.

VILA DE PECADORES

Porto Velho, hoje capital de Rondônia, estado que nem existia na época, nasceu em uma ponta da estrada, mas demorou para ter cara de cidade. Santo Antônio, a 7 quilômetros, era onde a vida corria. A vida louca, no caso. Jogatina, roubos, mortes, bebidas contrabandeadas e orgias compunham o cenário da vila de trabalhadores.

BABEL NA AMAZÔNIA

Gente do mundo todo, seduzida por dinheiro ou aventura, foi trabalhar na obra. Antilhanos, espanhóis, poloneses, franceses, gregos e indianos, entre outros, juntaram-se aos brasileiros e compuseram a massa de cerca de 30 mil homens. Segundo Manoel Rodrigues Ferreira, em A Ferrovia do Diabo, eles se comunicavam basicamente em castelhano.

“CASTIGO TERRÍVEL”

Foi assim que um jovem trabalhador espanhol descreveu em seu diário a relação do homem com os mosquitos na floresta. Os insetos infernizavam a vida dos trabalhadores, que sucumbiam a doenças tropicais. Em 1908, 95% da população de Porto Velho pegou malária, que, com outras moléstias, matou por volta de 6 mil trabalhadores.

CAMINHO DAS PEDRAS

Maior afluente da margem direita do Amazonas, o Madeira tem águas mansas por 1000 quilômetros na planície amazônica, até Porto Velho, a 60 metros do nível do mar. De lá até Guajará-Mirim, a 120 metros de altitude, a navegação é complicada rio acima: são 400 quilômetros e 20 cachoeiras. Bem lá a ferrovia foi construída.