major Elza Cansanção: exército da salvação

major Elza Cansanção: exército da salvação

Flávia Ribeiro Publicado em 01/01/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Com 38 medalhas no peito, a major Elza Cansanção Medeiros não é exatamente o tipo de enfermeira que costumamos encontrar nos corredores dos hospitais. Chefe da preservação do acervo da memória da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no Palácio Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, ela também é pilota de ultraleve, escultora premiada por seus bustos de personalidades militares e ex-atriz de teatro. Aos 85 anos, orgulha-se, acima de tudo, por ter sido a primeira enfermeira voluntária da FEB e uma das cinco primeiras a desembarcar, em agosto de 1944, no teatro de operações da Itália. A Segunda Guerra Mundial já havia perdido parte de seu ímpeto, mas ela viu de perto as feridas abertas pelo conflito. Cortou relações com a família para chegar lá, “rachou a coluna” ao cair no buraco de uma explosão de granada, viu o racismo das norte-americanas com relação às enfermeiras mulatas brasileiras e também foi vítima do preconceito quando chegou por aqui. “Achavam que éramos prostitutas, que tínhamos ido à Itália para ganhar a vida”, conta ela, em entrevista exclusiva a Grandes Guerras. Elza fez parte de um grupo de 73 enfermeiras brasileiras que foram à Itália. A paixão pelo passado vivido em hospitais de lona e em meio a explosões e alarmes a levou a escrever livros como Nas barbas do Tedesco (Biblioteca do Exército, 1955), E foi assim que a cobra fumou (Imago, 1987), e Eu estava lá (Ágora da Ilha, 2001). A seguir, ela também fala sobre sua experiência na frente de batalha.

Como sua família reagiu quando a senhora contou que iria para a guerra?

Meu pai cortou relações. Ele não gostava de Hitler, mas era germanófilo. Era médico e fez pós-graduação na Alemanha, por isso tinha amigos importantes por lá. Até nossa governanta era alemã. Mas eu queria ir, não podia admitir que os alemães matassem minha gente e eu não estivesse lá para ajudar. Fiz o curso de enfermagem com a finalidade de ir para a guerra e fui a primeira voluntária inscrita. Mamãe também queria ir. Só não foi porque havia passado da idade, tinha mais de 35 anos, e porque não era enfermeira. Mas a vontade era grande. Também houve muito preconceito. No dia que chegamos de volta, no desfile, ouvi gente gritar: “Agora dá para entender como vencemos. Olha os canhões que foram para lá”. Isso é um desrespeito.

Por que isso acontece?

Foi incutido na cabeça do povo que a FEB era só bucha de canhão. Mas o que eu vi foi muito diferente. O brasileiro é uma raça sui generis, tem um poder de adaptação fora de série. Você via aqueles caboclos analfabetos, que mal falavam português, se entendendo com os americanos e italianos. Mas o preconceito vem de longe. Quando voltamos ao Brasil, perdemos o posto. A mulher do Dutra, Santinha, dizia que éramos prostitutas, que tínhamos ido fazer a vida na Europa. Fomos todos desmobilizados, Getúlio Vargas tinha medo de que a FEB o depusesse, já que tínhamos vencido o totalitarismo e o governo dele era uma ditadura. Só mais tarde recuperamos o posto de militares da reserva e, em 1976, fui promovida a major, por causa de meu acidente de campanha.

Que acidente de campanha?

No dia 23 de dezembro de 1944, o Lutero Vargas [filho de Getúlio, médico na guerra] foi me pegar no hospital para uma festa de Natal. Estacionou o carro e eu atravessei a estrada para encontrá-lo. Quando estava no meio do caminho, soou o alarme de ataque aéreo e corri para me abrigar embaixo de um jipe. Era noite, não vi a cratera de uma antiga explosão de granada e caí. Conseguiram me tirar lá e fui levada de padiola para o raio X. O Lutero era ortopedista e disse que não era nada demais. Acreditei e até fui à festa. Quando voltei, mal agüentava andar. E tive de continuar trabalhando assim mesmo, até não agüentar andar. Rachei a coluna e uma das pernas.

A senhora foi uma das cinco primeiras enfermeiras brasileiras a chegar à guerra. Como era trabalhar em equipe com as enfermeiras norte-americanas?

Tínhamos um bom relacionamento, mas havia racismo. Entre as norte-americanas, só havia brancas, enquanto muitas de nossas enfermeiras eram mulatas e não eram aceitas. Depois de muito custo e esforço, aceitaram pelo menos uma, que se chamava Nair. Ela era enfermeira profissional, e muito boa no que fazia. Foi a única que conseguimos que aceitassem.

Eram 73 enfermeiras: 67 da FEB e seis da FAB. Alguma morreu na guerra?

Não houve nenhuma perda durante o conflito, mas ao menos uma morreu em conseqüência da guerra. Chamava-se Graziela Afonso de Carvalho e teve muitos problemas de saúde depois de um tombo na Itália. O hospital em que trabalhávamos em Pisa ficou submerso depois que os alemães represaram o rio Arno e, mais tarde, abriram as comportas. Em meia hora, o hospital estava perdido. Na confusão para evacuá-lo, a Graziela escorregou na ponte e bateu a cabeça, machucando a coluna. Nosso comandante disse que não era nada e a mandou para uma viagem de 26 horas para trabalhar em um hospital de infecto-contagiosos em Nápoles. Lá ela pegou caxumba e a coluna piorou. Foi mandada para o Brasil, onde recebeu um tratamento ordinário. Sofreu muito, por muitos anos, até morrer.

Qual foi o momento mais difícil?

Foi justamente a enchente no Evacuation Hospital de Pisa. Lembro que eu estava bordando quando soube que os alemães haviam aberto as comportas da represa. Ouvi os gritos e saí com a água já no joelho. Todo mundo foi retirado, mas foi duro ver tudo debaixo d’água e em tão pouco tempo.

E a morte de seu noivo?

Aconteceu em 2 de maio de 1945. A guerra acabou na Europa no dia 8 de maio, mas no dia 2 cessaram as hostilidades. Bob [o primeiro-tenente de infantaria americano Robert Thompson] estava na fronteira da Iugoslávia quando anunciaram o fim do conflito. Ele me telefonou e ficamos de nos encontrar em Florença, mas ele não apareceu. Fiquei esperando, e nada. Aí começou a chegar gente do mesmo batalhão, até que um me contou o que havia acontecido. Ainda havia escaramuças de fronteiras, e muita gente não sabia que a guerra tinha acabado. Jogaram uma granada no jipe dele. Bob e o motorista morreram na hora. Aquele 2 de maio tinha sido o dia mais feliz para mim, com os rádios gritando: “La guerra é finita!”. Quatro dias depois, veio a notícia da morte de Bob. A guerra tem essas nuances. Você vê uma obra de arte, um objeto lindo, vai pegar e – bum! – ele explode. Aí descobre que era um chamariz de mina. Do mesmo jeito, um dia feliz pode trazer uma grande tristeza.

Havia muito namoro entre enfermeiras e soldados ou oficiais?

Você não tem idéia do que é o isolamento da guerra num país estranho. Todo mundo vira família. Esse negócio com o Bob foi uma brincadeira de um padre americano que não se conformava por eu não ter um namorado. Um dia brinquei com ele: “Então, me arranje um!”. Pouco depois, durante uma folga, vi o padre me esperando ao lado de um rapaz louro da pestana branca, de dois metros de altura. Começamos a conversar, saímos para passear e quando vi estávamos namorando mesmo. Ele me pediu em casamento, mas eu disse que só me casaria no Brasil, depois da guerra. Bob aceitou, e disse que viria para cá comigo. Mas aconteceu o que aconteceu.

Havia muito assédio?

Um médico tinha a mania de chamar as enfermeiras até sua barraca, como que para passar uma informação, e quando a gente entrava ele estava de cueca. Eu já sabia, então nunca entrei. Mas ele era exceção.

Como era a relação com os doentes?

Eles eram como irmãos, passávamos noites ao lado deles. Tive uma colega que até se casou com um deles, que teve um membro mutilado. Nós também fazíamos muita brincadeira com os feridos. As americanas tratavam todos bem, mas não tinham esse carinho, essa alegria, que melhora a vida do doente. As brasileiras eram muito queridas. Até os alemães pediam para ficar em nossas enfermarias.

Era difícil cuidar dos alemães?

Feridos e doentes não têm patente nem nacionalidade. Alemão, italiano, brasileiro, americano, tratávamos todos do mesmo jeito. Teve um menino de Pernambuco que chegou mudo. Mas não tinha problemas de surdez, nem das cordas vocais. Ele estava em choque depois de ter sido lançado por mais de 200 metros por uma granada. Eu falava sempre com ele, pedindo para que voltasse a falar. Ele voltou. E há poucos anos, numa palestra em Porto Alegre, um cidadão gordinho, de cabelo branco, botou dois envelopes na minha frente. Eram duas cartas que escrevi para ele logo depois da guerra e que ele guardou por todos esses anos.

A senhora tratou de muitos soldados em choque?

Muitos. E alguns continuam até hoje. Todo veterano de guerra é neurótico. Se disser que não é, está em pior estado. Eu mesma não era de chorar antes de ir à guerra. Depois, passei a chorar por tudo. Em Pistóia, morávamos em cima de um paiol de pólvora sem saber disso.

Vocês tinham medo de ataques aos hospitais? Chegaram a pegar em armas?

Não, os hospitais eram respeitados e protegidos pela Cruz Vermelha. Serviço de saúde não pode pegar em armas, nunca.

A senhora lembra de alguma história engraçada?

Certa vez, um nordestino foi servir de isca, para descobrir onde estavam os alemães. Todo mundo voltou do combate e nada de ele chegar. Até que, mais tarde, o soldado apareceu com um alemão levando um fuzil a sua frente. Todo mundo ficou doido, os superiores começaram a gritar que tinha um alemão armado, e o nordestino acalmou todo mundo: “Ele não está armado, não. Eu o desarmei. Esse aí é o meu fuzil, que mandei ele carregar porque eu estava cansado”. Para completar, contou que quase matou o alemão. “Quando eu ia enfiar a peixeira nele, vi que o cabra é do meu time.” Ninguém entendeu nada, então ele apontou a Cruz de Ferro no peito do alemão e concluiu: “Vocês não estão vendo que ele é Vasco?”

A senhora se arrepende de algo?

De nada. E se acontecer outra guerra, posso garantir: estou pronta.