Marjane Satrapi: uma menina, dois mundos

Na série Persépolis, a quadrinista conta como foi crescer durante os anos mais difíceis da história recente do Irã, incluindo a Revolução Islâmica de 1979 e a guerra contra o Iraque

Mariana Lacerda Publicado em 01/10/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Teerã, a capital do Irã, estava deserta naquela tarde de 1984. A guerra contra o Iraque entrava no seu quarto ano e muitos iranianos haviam deixado a cidade, alvo regular de bombardeios. O casal Satrapi, entretanto, continuava lá. O motivo era a educação de sua filha única, Marjane, que estudava no liceu francês de Teerã. Na vizinhança ainda moravam os Baba-Levy, uma das poucas famílias de judeus que não tinham abandonado o Irã após a Revolução Islâmica de 1979. Neda, a filha deles, era uma menina taciturna que não gostava de brincar, mas adorava falar de amor. Naquela mesma tarde, uma bomba caiu sobre o lar dos Baba-Levy. Correndo para casa, aterrorizada com mais um bombardeio, Marjane deu de cara com os restos mortais de sua amiga.

A partir daí, aos 14 anos, algo aconteceu com Marjane Satrapi. Indignada, ela perdeu o medo de enfrentar os rígidos costumes islâmicos de seu país. Por causa disso, acabou tendo que se exilar na Áustria. Voltou para casa anos depois. Após entrar na faculdade, exilou-se pela segunda vez. Mudou-se para Paris, onde vive até hoje. Foi lá, depois de se formar em Artes Gráficas, que ela resolveu contar sua experiência em forma de história em quadrinhos. Nascia a série autobiográfica Persépolis – o título é uma referência à cidade, hoje em ruínas, que foi a capital do antigo Império Persa, cuja tradição foi herdada pelo Irã.

Sucesso editorial, com mais de 250 mil exemplares vendidos na França e 150 mil nos Estados Unidos, Persépolis teve seus direitos de publicação comprados em 17 países, incluindo o Brasil (dos quatro volumes, os três primeiros já foram lançados aqui – o quarto deve chegar em março do ano que vem). Em vez de rechear as tiras com suas opiniões atuais sobre o Irã, Marjane preferiu lembrar de como se sentia, na infância e adolescência, diante das mudanças pelas quais seu país passou. Isso transforma Persépolis num rico e bem particular relato histórico sobre o Irã – que hoje é presença constante no noticiário, por insistir em manter um programa nuclear e trocar ameaças com os Estados Unidos.

Marjane nasceu em 1969, na cidade de Rasht, mas passou sua infância em Teerã. Seu trisavô materno, o xá (palavra que, em persa, significa “rei”) Nasredine, fora o último imperador da dinastia Qadjar, que reinou no país até 1925. Por causa dessas origens, a educação da menina incluiu as histórias da resistência contra a invasão árabe, que tomou a Pérsia em 642 e lá estabeleceu a religião islâmica. Os pais de Marjane, por sua vez, eram bastante ligados ao pensamento de esquerda e à cultura ocidental.

Durante os anos 60, o Irã era comandado por Muhammad Reza Pahlevi, que se tornara xá em 1941. Ele implementou reformas que diminuíram o poder do Islã sobre a educação e a justiça, aproximando o país do Ocidente – o que encontrou forte resistência dos xiitas, o grupo muçulmano predominante no Irã. A educação de esquerda que a menina recebia dos pais, entretanto, não combinava com o governo de Reza Pahlevi: em matéria de política, não havia liberdade.

Os únicos partidos aceitos no Irã eram os subservientes ao xá. A oposição era perseguida – o que incluía, muitas vezes, prisões ilegais e tortura. Diante disso, os intelectuais de esquerda se aproximaram dos religiosos xiitas. Entre estes, Ruhollah Khomeini, clérigo e professor de Filosofia, era visto como líder em potencial de uma revolução contra Reza Pahlevi. Perseguido pelo governo, Khomeini estava no exílio desde 1963, de onde mandava mensagens contra o xá.

No fim dos anos 70, uma crise econômica aumentou a revolta da população contra Reza Pahlevi. Manifestações de religiosos xiitas se confundiam com protestos de esquerda. Incapaz de conter a oposição, em janeiro de 1979, Reza Pahlevi fugiu do Irã com sua família. Logo depois, Khomeini retornou ao país, onde foi recebido com festa. Aclamado como líder nacional, ele transformou o Irã numa república islâmica governada por sacerdotes xiitas, chamados de “aiatolás”. Os ideais de esquerda que haviam ajudado a realizar a revolução agora estavam sendo renegados – e seus defensores, como os membros da família de Marjane, passaram a ser perseguidos.

Uma das vítimas do governo dos aiatolás foi Anuch, tio de Marjane. Em 1946, ele tinha participado de uma tentativa de criar uma república comunista na província iraniana do Azerbaijão (que hoje é um país independente). Quando pequena, antes de dormir, a menina adorava escutá-lo contar suas aventuras. Depois de ser preso no governo de Reza Pahlevi, Anuch se exilou em Moscou. Após a Revolução Islâmica, ele retornou ao Irã, onde estranhou os rumos que o país estava tomando. “É inacreditável, a Revolução é de esquerda, mas querem que a república seja islâmica”, dizia Anuch a Marjane. Acusado de ser um espião russo, Anuch foi preso e executado.

O regime do aiatolá Khomeini impôs rígidos costumes islâmicos à população. Para a pequena Marjane, as mudanças foram muitas. Em 1980, ela passou a ser obrigada a colocar um véu na cabeça para ir à escola. O colégio em que estudava, que antes permitia que meninos e meninas assistissem às aulas juntos, teve de separá-los. Naquele mesmo ano, entretanto, uma transformação bem mais drástica aconteceu: o vizinho Iraque, governado por Saddam Hussein, resolveu invadir o Irã. Para reforçar as tropas iranianas, os aiatolás fizeram com que meninos de 13 a 15 anos, conhecidos como bassidjis, fossem convocados à frente de batalha. Um dos amigos de Marjane, Kia, acabou mutilado num dos combates – o reencontro de ambos, anos depois, descrito no quarto volume de Persépolis, é uma das mais emocionantes passagens da série. O conflito na fronteira logo tomou proporções enormes, com bombardeios constantes à capital. Num deles, a vizinha dos Satrapi morreu.

Depois da perda da amiga, Marjane parou de levar desaforos para casa. Um dia, na escola, ao ser obrigada a retirar as pulseiras que usava, ela bateu na cara da diretora. A menina mudou de colégio, mas continuou igualzinha. Quando uma professora afirmou que, desde a proclamação da República Islâmica, não existiam mais presos políticos no Irã, Marjane, diante de toda a classe, foi incisiva: “Meu tio foi preso pelo regime do xá, mas foi o regime islâmico que mandou executá-lo”.

Ela e os outros

Não havia mais clima para Marjane continuar no Irã. Seus pais decidiram enviá-la para a Áustria ainda em 1984. Nos anos de exílio, em Viena, ela sofreu com o preconceito contra seu país. “Na época, o Irã era o mal, e ser iraniana era um peso”, escreveu. No dia-a-dia, Marjane procurava se distanciar ao máximo de sua terra natal. Mas, certa vez, num café, ela ouviu alguns colegas fofocarem sobre ela e o Irã. Então esbravejou, dizendo que se orgulhava de ser iraniana. E percebeu que não podia mais ignorar, de longe, o sofrimento de seus familiares. Retornou em 1988, o último ano da guerra. Uma das primeiras coisas que ela notou ao chegar foram os novos nomes das ruas, sempre homenageando algum “mártir” – eram iranianos mortos em combate.

Na Teerã em ruínas, ela reencontrou os pais e tratou de recomeçar a vida. Mas, com 18 anos e vindo de um país europeu, Marjane teve que controlar seu estilo: enquanto o véu era obrigatório, coisas como jóias, batom e calça jeans eram proibidas (o cumprimento dessas regras era fiscalizado por patrulhas do governo). Outro problema era aceitar a submissão, imposta pelos aiatolás, das mulheres aos homens. Uma das mais divertidas amigas de Marjane, Chouka, parou de falar com ela depois de se casar. Seu marido não via com bons olhos o convívio com a “ocidentalizada” Marjane, que, a essa altura, fazia algo impensável para as iranianas: para não engravidar do namorado, tomava pílula (medicação que era adquirida no mercado negro).

Estudando na faculdade de Belas Artes, Marjane encontrou gente que pensava como ela. Pequenos encontros eram organizados nas casas dos estudantes para que, ali, eles pudessem desenhar modelos femininos sem o véu (leia quadro na página 58). Nesses ambientes, eles faziam festas, dançavam e bebiam álcool – três atividades proibidas no Irã. “Passei a ter consciência do contraste entre a representação fiel de meu país e a vida real que as pessoas tinham”, escreveu Marjane. Aos 24 anos, incapaz de se habituar de novo ao Irã, Marjane decidiu voltar à Europa. Antes de partir, em setembro de 1994, ela colocou flores na prisão de Evine. Lá uma vala comum provavelmente guarda o corpo do seu tio Anuch. Hoje, em Paris, ela trabalha a todo vapor para levar Persépolis ao cinema, num desenho animado que deve chegar às telas francesas na primeira metade de 2007.

 

Estilo islâmico

Nas aulas de Belas Artes em Teerã, até as modelos que posavam para as alunas tinham que usar véu

Quando tinha 10 anos, Marjane Satrapi viu o uso do véu se tornar obrigatório às meninas e mulheres de todo o Irã (o hábito é um dos mais fortes símbolos do islamismo). Na adolescência, tão logo entrou na Escola de Belas Artes de Teerã, Marjane teve aulas sobre como desenhar corpos femininos. O problema é que as modelos tinham que posar cobertas por um longo véu. “Nós tentamos, olhamos de todos os lados e ângulos, mas nenhuma parte de seu corpo era visível. Ao menos aprendemos a desenhar lençóis”, escreveu ela. Quando a diretoria da faculdade anunciou que as alunas teriam que usar calças mais largas e véus mais longos, Marjane contestou. Disse que as estudantes de arte passavam boa parte do tempo pintando e desenhando no ateliê, o que exigia roupas que dessem liberdade aos movimentos. Para a surpresa de todos, Marjane não foi expulsa da escola. Chamada pela direção, recebeu a missão de desenhar um uniforme adaptado às alunas de artes, desde que, claro, não fosse extravagante e nem se opusesse às normas do Islã. Após diversas tentativas, ela chegou a um modelo que tinha calças largas e véu curto. “Mesmo sutil, qualquer diferença já representava muito para nós”, escreveu. O episódio, ainda que temporariamente, reconciliou Marjane com sua vida no Irã. “Pela primeira vez depois de tanto tempo, eu estava contente comigo mesma.”

Saiba mais

Livros

Persépolis (volumes 1, 2 e 3), Marjane Satrapi, Companhia das Letras, 2004, 2005 e 2006

R$ 25 (cada volume)