Normandia, o local da invasão

Espiões e sabotadores ajudaram a desviar a atenção dos alemães e prepararam o terreno para o desembarque das forças aliadas na França

Flávia Ribeiro e Fábio Varsano Publicado em 01/02/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

O espanhol Juan Pujol García ganhou dos ingleses o codinome Garbo em homenagem a Greta Garbo, atriz que viveu, no cinema, a espiã da Primeira Guerra Mundial Mata Hari. Pujol, diziam os ingleses, era um baita ator. Tanto que enganou os alemães por anos e foi decisivo para o sucesso do Dia D. Agente duplo, trabalhava para os ingleses passando informações erradas à Alemanha. Durante os preparativos para o Dia D, o espião deu mais subsídios para que o exército de Hitler acreditasse que a invasão seria no departamento de Pas-de-Calais, e não em Calvados.

Garbo foi peça fundamental da Operação Fortitude, que visava justamente a confundir o inimigo com mensagens de rádio falsas e deslocamentos de exércitos que sequer existiam. No esquema de espionagem dos Aliados, havia ainda o sistema Ultra, desenvolvido pelo Serviço Secreto britânico, que permitiu a decodificação de mensagens militares alemãs e a descoberta de informações sigilosas inestimáveis.

Mas não precisava ser um espião experimentado para participar dos preparativos para a invasão. Pessoas comuns tiveram papel semelhante ao de Garbo em diversos momentos, especialmente na França ocupada. O historiador americano Stephen Ambrose conta o caso de um menino cego, de 9 anos, que forneceu aos Aliados as coordenadas exatas de bunkers alemães dotados de grandes canhões e construídos sobre um rochedo a oeste de Port-en-Bessin. O pai do garoto era o fazendeiro francês dono do terreno e mediu a distância de cada ponto das redondezas para cada fortificação, além da distância de uma para outra. Passou as informações ao menino, que, no início de 1944, pegou uma carona até a cidade de Bayeux e entrou em contato com André Heintz, membro da Resistência Francesa. Heintz, que tinha um radiotransmissor caseiro, enviou as coordenadas preciosas para a Inglaterra.

Resistência Francesa

Assim como o menino cego, outras pessoas acima de qualquer suspeita para os alemães repassaram dados fundamentais para os Aliados, geralmente por intermédio de membros da Resistência Francesa, que se desdobravam em serviços de espionagem e de sabotagem e estavam em comunicação direta com os ingleses. A organização colhia informações, por exemplo, diretamente de operários franceses obrigados a construir fortificações alemãs. E elas não eram poucas. O general Erwin Rommel mandou instalar minas, arames farpados e bunkers em cada pedaço de praia ocupado.

Além disso, a Resistência Francesa explodiu pontes, linhas ferroviárias e sistemas de telefonia e de telégrafo, como parte do Plan Vert (Plano Verde); resgatou pilotos aliados abatidos sobre a França; e, por estar atrás das linhas inimigas, foi capaz de uma série de ações para atrasar as tropas do Eixo, especialmente com táticas de guerrilha, como parte do Plan Tortue (Plano Tartaruga).

Na Inglaterra, a participação da população também foi intensa. O exemplo mais claro do engajamento dos cidadãos na guerra foi dado por uma campanha iniciada pela BBC. A rádio pediu que cada família que tivesse passado férias nas praias francesas antes de sua ocupação mandasse cartõe-postais com fotos dos locais visitados. Em alguns meses, mais de dez milhões de imagens foram armazenadas, formando, com as fotografias panorâmicas tiradas de aviões pelos militares, um grande e detalhado painel da topografia da costa ocupada.

Até estúdios cinematográficos entraram no esforço, construindo grandes galpões cenográficos para abrigar divisões armadas inexistentes. O 1º Grupo do Exército dos EUA chegou a ficar baseado em Dover, ameaçando Pas-de-Calais, comandado pelo já legendário general George Patton, o que dava credibilidade à farsa. Funcionou. Quando o Dia D chegou, os alemães não faziam a mais remota idéia de que os inimigos estavam prestes a desembarcar. E vinham em números impressionantes. Para tentar tomar um pedaço de 80 quilômetros de praias francesas, foram mobilizados cerca de 175 mil soldados americanos, britânicos, canadenses, franceses, noruegueses, poloneses e de outras nacionalidades, 50 mil veículos de diversos tipos, quase 11 mil aeronaves e 5 333 embarcações.

Já os Aliados tinham uma boa idéia do que esperar. Sabiam de cada obstáculo topográfico, cada bunker, cada canhão. Mas, no fim, nenhum dos dois lados estava preparado para a carnificina que aconteceu. Ou para os meses de ataques e contra-ataques que ainda viriam pela frente.

 

Pistas falsas para os alemães

Hitler mandou tropas para a distante noruega

A Operação Fortitude concentrou esforços para fazer os alemães acreditarem que o desembarque seria no departamento de Pas-de-Calais. Para confundir ainda mais o inimigo, também apontou a Noruega como um segundo alvo, em mais uma série de transmissões de rádio falsas – todas com códigos mais fáceis de serem quebrados. Além disso, espiões alemães que passaram para o lado da Inglaterra, no que constituía o chamado Sistema Double Cross, mandavam mensagens para o serviço secreto nazista descrevendo uma falsa movimentação de tropas aliadas na Escócia. Com isso, fizeram com que Hitler e seus generais colocassem 13 divisões do Exército, 90 mil homens da Marinha e 60 mil da Luftwaffe na Noruega – longe do verdadeiro ponto de desembarque.

A muralha atlântica

Barreira montada por Rommel parecia inexpugnável

“Rommel defendeu a França como um colosso”, afirma o historiador Stephen Ambrose. Represou rios para inundar áreas estratégicas, expulsou franceses de suas residências, botou casas e edifícios abaixo, derrubou florestas inteiras para ter madeira suficiente para seus obstáculos costeiros. Depositou minas nos canais e nas praias, milhões delas. Ainda assim, não foi suficiente. “Eles usaram uma quantidade impressionante de minas, mas precisavam de muito mais, tamanho era o contingente em que desembarcou”, diz o historiador Márcio Scalercio, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e da Universidade Cândido Mendes.

Além das minas, arames farpados foram usados em profusão. Havia ainda grandes trincheiras de concreto e rampas minadas, paralelamente a outros obstáculos. Por todas as praias, casamatas com canhões e ninhos de metralhadoras estavam prontos para acertar cada soldado aliado que ousasse desembarcar. Era a chamada Muralha Atlântica de Hitler.

O problema não estava nas armas, mas nos homens. Grande parte das melhores tropas alemãs estava enfrentando os russos na Frente Oriental, restando para defender a França muitas Divisões Ost (Oriente) ­– formadas por estrangeiros, a maioria deles prisioneiros de guerra, obrigados a lutar com os nazistas. Um oficial americano chegou a deter quatro coreanos no meio de uma divisão do Eixo na praia de Utah.Essas tropas eram constituídas por poloneses, russos, croatas, húngaros, romenos, lituanos, ucranianos e homens vindos das mais diversas repúblicas da União Soviética, além de franceses, italianos, indianos, soldados da África do Norte e de países muçulmanos. Muitos deles dispostos a se entregar aos Aliados na primeira oportunidade.

Entre as divisões alemãs, algumas formadas por soldados muito jovens, ou velhos demais, o que enfraquecia a defesa e reduzia as possibilidades de contra-ataque. Mas havia também grupamentos poderosos, como a divisão de infantaria que guardava a praia de Omaha. Além disso, três unidades Panzer, de blindados, com soldados de elite, espalhavam-se pelas praias francesas. Embora fossem poucas, impressionavam e eram difíceis de ser batidas. A 21ª Divisão Panzer acampou em Caen, dificultando o trabalho dos ingleses, que deveriam tomar o porto. As outras duas ficaram numa posição da qual poderiam chegar em algumas horas tanto a Calais quanto a Calvados. Já o céu era quase todo dos Aliados. A maior parte da Luftwaffe estava na própria Alemanha, para defendê-la de possíveis ataques. Com isso, as divisões terrestres precisavam se locomover principalmente à noite, sob pena de serem destruídas pelos bombardeios aéreos aliados.