Novelas que abalaram o país

Política e polêmicas em dez tramas da Globo

Leandro Narloch Publicado em 01/10/2005, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

As repetitivas e adocicadas novelas têm uma importância e tanto no Brasil. “Em nenhum lugar do mundo a ficção da TV tem tanto espaço no horário nobre e impacto público”, diz Anamaria Fadul, pesquisadora de telenovelas da USP. Veja como tramas com toques de sátira política e polêmica, nos últimos 50 anos, mudaram nosso jeito de ver o mundo.

1970

Irmãos Coragem

No auge da repressão da ditadura militar, o garimpeiro Jerônimo Coragem (Antônio Fagundes) entra na política para lutar contra um latifundiário que, apoiado pela polícia corrupta, dita a lei da cidade de Coroados. Na eleição legislativa de 1970, milhares de pessoas escreveram o nome de Jerônimo na cédula eleitoral. Exibida na época da Copa do México, a novela mostrou ainda a corrupção no futebol.

1974

O Espigão

A trama girava em torno da construção de um hotel de 50 andares no Rio de Janeiro, que destruiria a Mata Atlântica e uma mansão. Foi uma das primeiras novelas a falar do crescimento desordenado das metrópoles, popularizando palavras como “ecologia” e “ecossistema” – por isso, sofreu resistência por parte de anunciantes ligados à construção civil e à especulação imobiliária.

1975

Escalada

A trajetória do caixeiro-viajante Antonio Dias (Tarcísio Meira) mostra momentos históricos do País, como a criação de Brasília. Ao falar da crise entre Dias e sua mulher (Suzana Vieira), a trama fez polêmica sobre o divórcio. Dois anos depois, a Lei do Divórcio foi aprovada.

1978

Dancin’ Days

Com nome inspirado numa boate do Rio de Janeiro, a novela tratou com naturalidade a liberação sexual que marcaria a década de 80. No mundo das discotecas, a ex-presidiária Julia Matos (Sonia Braga), em liberdade condicional, tenta retomar o contato com a filha após 11 anos. Além das discotecas e das roupas de lurex, a novela fez virar moda o vôo de asa-delta, antes restrito ao Rio de Janeiro.

1985

Roque Santeiro

Após ter 30 capítulos censurados em 1975, por ter sido inspirada numa peça de esquerda de Dias Gomes, a saga de Roque virou sucesso. Em Asa Branca, gente como Sinhozinho Malta sobrevive por causa do mito em torno de um falso herói. A cidade era uma paródia do Brasil e seu hábito de misturar misticismo, religião e política.

1988

Vale Tudo

Ao som de “Brasil, mostra a tua cara” na abertura, a novela escancarou a falta de ética e o pouco valor da honestidade por aqui. Já no primeiro capítulo, Maria de Fátima (Glória Pires) vende a casa da mãe (Regina Duarte) e a deixa na miséria. A trama também mostrou, pela primeira vez, o preconceito contra o homossexualismo feminino. E fez o Brasil parar para descobrir quem era o assassino de Odete Roitman.

1989

Que Rei Sou Eu?

No fictício reino de Avilan, em 1786, os políticos da corte lutam para que o filho bastardo do rei não tome o poder. No ano da primeira eleição presidencial do Brasil depois de 30 anos de ditadura,o enredo mostra episódios que misturam ficção com a crise política brasileira, como corrupção, inflação, congelamento de preços, moedas que mudam de nome e outros planos econômicos furados.

1991

O Dono do Mundo

No auge do governo Collor, Felipe Barreto (Antonio Fagundes) aposta com seu secretário que conseguirá desvirginar a noiva de um dos seus funcionários (Malu Mader) antes da noite de núpcias dela. No quarto capítulo, ele vence a aposta, mas a falta de ética é demais para o público. A audiência cai 13 pontos e a novela passa por uma transformação para continuar.

1996

O Rei do Gado

Logo após a morte de 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás (PA), o MST virou tema da novela das 8. Luana (Patrícia Pillar) vive o dilema de participar do movimento e estar apaixonada por um fazendeiro. A novela recebeu desagravos oficiais do Senado Federal por criticar a falta de ação dos senadores.

2003

Mulheres Apaixonadas

Auge do realismo nas novelas, a trama reuniu diversos problemas que atingem a classe média: alcoolismo, violência contra a mulher, ciúme, violência urbana e câncer de mama. Pela primeira vez, um casal de lésbicas não foi rejeitado pelo público. Enquanto o Congresso montava o Estatuto do Idoso, a novela mostrava a discriminação sofrida por um casal de velhinhos.