Oficiais e soldados da FEB: duas realidades contrastantes

A FEB deu origem a dois tipos de veteranos. Enquanto o soldado comum foi enviado de volta para casa, alguns oficiais teriam destacada atuação política

Márcio Sampaio de Castro Publicado em 01/09/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Ao desembarcar no Rio de Janeiro, no início de agosto de 1945, a FEB trouxe os embriões de dois tipos de veteranos. Os que seguiriam no Exército como oficiais, beneficiando-se de suas experiências e participando de articulações dentro e fora dos quartéis, e aqueles que simplesmente seriam rapidamente enviados de volta para casa.

Preocupados com os desdobramentos políticos da presença no País de uma tropa que havia combatido e ajudado a derrubar duas ditaduras em território europeu, os ministros militares de Getúlio Vargas ordenaram a imediata desmobilização da divisão. Aos veteranos, após os três dias de desfiles da vitória, o governo prontificou-se a pagar o soldo correspondente aos 239 dias de engajamento na Itália e a passagem de volta para casa.

A maioria dos veteranos ficou entregue à própria sorte. A partir de 1946, as pensões foram permitidas apenas àqueles que pudessem comprovar incapacidade física decorrente da guerra, o que não era nada fácil. Somente no início dos anos 80, o governo reconheceria o direito a uma pensão para todos os expedicionários, mas muitos dos pracinhas não viveram o suficiente para usufruir desse benefício.

No outro extremo, uma oficialidade média composta por figuras como o então tenente-coronel Humberto de Alencar Castelo Branco, membro do Estado - Maior da FEB na Itália, ou o capitão Golbery do Couto e Silva, integrante do Serviço de Inteligência do Exército na divisão expedicionária, iriam se tornar exemplos dos que alavancariam suas carreiras depois da guerra. Eles traziam a convicção de que somente as Forças Armadas poderiam colocar o Brasil no caminho do progresso material. A convivência com os norte-americanos fizera também boa parte deles entusiastas dos valores anticomunistas.

Nos turbulentos anos que se seguiram ao suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, muitos desses oficiais veteranos da FEB circulariam por instituições e órgãos influentes, como o Clube Militar e a Escola Superior de Guerra. No final de 1963, quando a suposta ameaça comunista, representada pela figura do então presidente João Goulart, se fazia insustentável aos olhos do governo dos Estados Unidos, o coronel Vernon Walters, um antigo oficial de ligação entre o 5º Exército norte-americano e a FEB, seria nomeado adido militar no Brasil. De outubro daquele ano até 31 de março de 1964, Walters retomaria o contato com antigas amizades seladas na Itália. Coincidência ou não, o general Cordeiro de Farias, comandante da artilharia expedicionária durante a guerra, Castelo Branco e Golbery, todos amigos do adido militar, formariam a linha de frente do movimento que derrubaria Goulart e estabeleceria uma ditadura que duraria 21 anos. Castelo Branco iria se tornar o primeiro presidente do novo regime, enquanto Golbery fundaria o Serviço Nacional de Informações (SNI).

 

Os números da participação brasileira

• 25 334 brasileiros compuseram a FEB. Desses, 15 mil fizeram parte da linha de frente e os demais auxiliaram na retaguarda.

• 465 mortos é o número oficial computado entre soldados, oficiais e aviadores brasileiros na Itália. Mais de 2 mil foram feridos e muitos morreriam depois de voltarem para o Brasil.

• 2 generais alemães estavam entre os prisioneiros feitos pelos pracinhas ao final dos combates. Foram capturados também 892 oficiais e 19 689 soldados do Eixo

• 239 dias foi o tempo do engajamento em combate da divisão brasileira na Itália.

• 445 missões ofensivas foram realizadas pelo 1º Grupo de Caça da FAB, totalizando 2 546 saídas individuais de aviões em combate e 6 144 horas de vôo

 

Para saber mais

A Nossa Segunda Guerra – Os Brasileiros em Combate, 1942-1945, Ricardo Bonalume Neto, Expressão e Cultura, 224 páginas - Relato abrangente sobre a campanha da FEB na Itália.

Irmãos de Armas – Um Pelotão da FEB na II Guerra Mundial, José Gonçalves e César Campiani Maximiano, Códex, 2005, 304 páginas - Reconstituição autobiográfica dos principais momentos vividos pelo então primeiro-tenente José Gonçalves.

Senta a Pua!, Rui Moreira Lima, Editora Itatiaia, 1989, 465 páginas - Relato de um ex-piloto da FAB que participou dos combates na Itália.