Olimpíadas: jogos de guerra

Por mais de mil anos, os gregos disputaram competições esportivas como forma de se manter preparados para a guerra

01/08/2007 00h00 Publicado em 01/08/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Em 776 a.C., após deixar para trás seis adversários, o grego Corobeu venceu a única prova daquela que ficaria conhecida como a primeira edição dos Jogos Olímpicos. Diferentemente do que se imagina, não foi uma corrida de longa distância: o cidadão da cidade de Elis percorreu apenas os 192 metros de extensão do estádio de Olímpia, na península do Peloponeso. A idéia de que a maratona foi o primeiro esporte olímpico, portanto, não passa de um mito.

Segundo esse mito, em 490 a.C., durante o período de guerras entre gregos e persas, um corredor chamado Fidípides teria atravessado quase 100 quilômetros entre Atenas e Esparta para buscar ajuda. Outra versão conta que um homem chamado Eucles percorreu a distância entre Atenas e a cidade de Maratona para participar da batalha. Com a vitória dos gregos, ele retornou a Atenas para dar a notícia, um esforço de 40 quilômetros entre ida e volta que teria custado sua vida.

MARATONA BREGA

Nigel Spivey, professor de Artes Clássicas e Arqueologia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e autor de The Ancient Olympics (“As Olimpíadas antigas”, inédito em português), afirma que o equívoco pode ser esclarecido ao se analisar a formação social da Grécia antiga. “Isso que chamamos de corrida de longa distância nunca tinha sido considerado esporte, tendo em vista que o trabalho de levar mensagens entre as cidades era função de servos e escravos.” Não era, portanto, uma atividade chique.

ESPORTE É BRIGA

Na democracia grega, apenas homens livres eram considerados cidadãos. Entre seus direitos estavam as decisões políticas e a participação no Exército. Essa natureza bélica, enraizada na própria mitologia, também se relaciona com a atenção dada ao corpo. A prática constante de atividades físicas era a responsável por mantê-los preparados para as guerras – e acabou dando origem às Olimpíadas. As cidades-estados só alcançavam esse status se oferecessem para a população um local para a prática de esportes – o estádio. A partir do século 8 a.C., a Grécia estabeleceu um calendário de competições para motivar seus “atletas”.

A primazia de Olímpia sobre as demais cidades gregas na organização dos jogos está fundamentada na mitologia. Filho de Zeus, o herói Héracles (ou Hércules, como chamavam os romanos) teria inaugurado os Jogos Olímpicos como forma de comemorar o sucesso de um de seus 12 trabalhos: a limpeza dos estábulos de Audias, rei de Elis. Essa lenda foi representada em Olímpia pelo escultor Fídias, responsável pela construção do mais importante templo em homenagem a Zeus.

PELADOS E POETAS

A despeito das condições climáticas e mesmo de higiene, sabe-se que os atletas competiam nus. Historiadores antigos registram que essa tradição teria começado em 720 a.C., quando um sujeito chamado Orsipos, de Megara, venceu uma prova de corrida ao notar que sua performance seria melhor se ele abandonasse suas roupas pelo trajeto.

A própria palavra “ginástica” tem o termo “nudismo” em seu radical grego gymnos – o que explicaria a proibição de mulheres, fosse como atletas, fosse como espectadoras.

Também nessa época, os corredores eram obrigados a competir descalços. Até que atletas de regiões mais frias começaram a levar para Olímpia as proteções para os pés que estavam acostumados a usar em suas cidades. Eram sandálias com tiras e solado feitos de couro. No início, foram vistas como coisa de fresco. Os mais conservadores ficaram chocados. Mas a moda acabou pegando entre os gregos.

E se hoje você acha bizarras modalidades como o badminton (aquele jogo de dar raquetada na peteca), saiba que na Antiguidade eles disputavam até provas de poesia.

DO YOU SPEaK GREGO?

Por mais de 40 anos, a participação nos eventos foi restrita a atletas da região. Mas entre 732 a.C. e 696 a.C., a lista de vitoriosos já contava com cidadãos de Atenas e Esparta. E, a partir do século 6 a.C., os jogos passaram a receber inscrições de qualquer homem que falasse grego, fosse ele da Itália, do Egito ou da Ásia. “Participar de torneios como aqueles não era, de fato, apenas competir”, afirma Nigel Spivey. “Os atletas dirigiam-se para as Olimpíadas antigas com o interesse de ganhar e ser reconhecidos como os melhores”.

Ao longo dos anos, diversas cidades-estados passaram a realizar suas próprias disputas, que também carregavam um forte sentido religioso.

Como forma de homenagear a deusa Atena, os chamados Jogos Panatenáicos foram instituídos em Atenas em 566 a.C., mas acabaram ofuscados por outros torneios. Esse novo circuito de competições, conhecido como Jogos Sagrados, era sediado em Olímpia e Delfos – a cada quatro anos – e em Corinto e Nemea – a cada dois anos.

BONS DE BIGA

Embora a primeira Olimpíada tenha acolhido apenas uma disputa, novas categorias foram incluídas ao longo dos mais de mil anos do evento como forma de disputa política e militar. As corridas de biga, inicialmente com quatro cavalos, inauguraram um novo espaço de competições, o hipódromo, em 680 a.C., data da 25ª edição dos jogos. Diversos personagens históricos protagonizaram embates nessa modalidade. O político Alcibíades, amigo e fã de Sócrates, participou da corrida de 416 a.C. com nada menos que sete bigas. Segundo o historiador Tucídides, o marajá conquistou o primeiro, o segundo e o quarto lugares. Em 67 d.C., já sob o domínio romano, os gregos assistiram ao imperador Nero ser coroado vencedor mesmo sem ter cruzado a linha de chegada com sua biga puxada por dez cavalos.

Conjunto de cinco categorias, o pentatlo era disputado em provas de corrida, salto, luta, arremesso de disco e arremesso de dardo. Respectivamente, corridas e lutas abriam e encerravam o conjunto de provas – com algumas regras próprias, ambas categorias também eram disputadas fora do pentatlo. Na corrida, a distância mais curta envolvia um trajeto de cerca de 200 metros, equivalente ao comprimento dos estádios. Na mais longa, os atletas disputavam a liderança em 24 voltas pelo perímetro do local – ou 5 mil metros.

PANCADARIA

Embates corporais também fizeram parte do calendário olímpico da Antiguidade. Uma das modalidades, conhecida hoje como luta greco-romana, já fazia parte do treinamento físico dos jovens da Grécia desde o século 10 a.C. Os primeiros vestígios da inclusão dessa luta numa Olimpíada datam de 400 anos depois: foram encontrados em fragmentos de uma placa de bronze.

Para vencer a luta, não havia contagem de tempo. As categorias eram divididas por idade. Era preciso jogar o oponente ao chão pelo menos três vezes – sem quebrar os dedos do adversário.

O boxe também foi disputado. Um busto representando um lutador de 330 a.C. dá conta da violência da modalidade – há inúmeras cicatrizes na imagem de bronze. Não havia luvas, rounds ou regras claras para aliviar o sofrimento dos competidores. O orador João Crisóstomo registrou em dois discursos que um tal Melancomas, morador de Cária (localizada na costa da Ásia Menor), teria sido o maior pugilista do primeiro século da era cristã.

VALE TUDO

A luta mais cruel da competição, porém, foi introduzida no calendário cerca de 100 anos depois da primeira Olimpíada. Para que se tenha idéia, os combatentes do chamado pancrácio eram punidos pelos juízes só em caso de mordidas ou quando um deles arrancasse o olho do adversário. O vencedor acabava venerado pela platéia mesmo quando provocava a morte do oponente.

Os jogos da Antiguidade eram mesmo violentos. A morte de atletas chegou a ser registrada.Mas por mais sangue que tenha sido derramado, os atletas jamais abriram mão de alguma ambição pela vitória. Nem mesmo durante as guerras, ou quando a Grécia esteve sob domínio dos macedônios e dos romanos, as competições esportivas deixaram de ser realizadas. Os jogos, contudo, entraram em declínio na segunda metade do século 4.

FECHAM-SE AS CORTINAS

No século 4, o cristianismo foi anunciado como religião oficial do Império Romano. Isso acabou fazendo com que todos os centros esportivos e religiosos que abrigavam festas pagãs fossem fechados. Era o fim dos Jogos Olímpicos da Antiguidade. O evento só viriam a ganhar uma versão moderna cerca de 1500 anos mais tarde.

 

Renascimento olímpico

Só os aristocratas estiveram na primeira edição moderna dos jogos

Durante todo o século 19, depois de se tornar independente do domínio turco em 1829, a Grécia foi invadida por expedições arqueológicas de várias partes do mundo – eram os Indiana Jones da época. Em 1881, um barão francês viu a chance de transformar seu sonho em realidade – e entrar para a história.

Educado na Inglaterra, Pierre de Coubertin, pedagogo e historiador, não conseguia aplicar nas escolas da França o que tinha aprendido na terra da rainha – lá, os exercícios físicos eram uma forma de punir os alunos bagunceiros. Por isso, foi buscar inspiração nos ginásios da Grécia antiga – que estavam voltando à tona graças aos arqueólogos – para emplacar sua idéia de “mente sã em corpo são”. A diferença é que Coubertin defendia a prática esportiva como meio de formar cavalheiros, e não guerreiros. Em 1894, num congresso de atletas amadores em Paris, ele propôs a retomada do ideal olímpico, no qual de quatro em quatro anos atletas de vários países disputariam os jogos. O barão não era esportista, mas tinha uma lábia digna dos oradores gregos antigos. A idéia colou. Estava inaugurado o Comitê Olímpico Internacional, que marcou para 1896, em Atenas, a primeira edição dos Jogos Olímpicos modernos. Treze países participaram, levando 245 atletas, todos homens. O Brasil não foi – nossa estréia só aconteceria em 1920 em Antuérpia, na Bélgica. A entrega de medalhas de ouro, prata e bronze começou na Olimpíada de 1904 em Saint Louis, nos Estados Unidos. Essa é considerada uma das mais mal organizadas da história. As disputas duraram quase cinco meses, e ficaram marcadas por um episódio grotesco. O corredor norte-americano Fred Lorz chegou em primeiro lugar na maratona, mas logo foi desclassificado. Depois de correr os primeiros 10 quilômetros, ele pegou carona em um carro que o levou até perto do estádio. De lá voltou à corrida como se nada tivesse acontecido.

Cara-de-pau. O maior trauma olímpico, no entanto, aconteceu em 1972. Terroristas palestinos invadiram a Vila Olímpica de Munique, na Alemanha, e fizeram a delegação israelense como refém. O desfecho do episódio foi um banho de sangue, mostrado no filme Munique, de Steven Spielberg. Os Jogos só não foram cancelados em respeito ao espírito olímpico – que naqueles dias completavam 27 séculos desde seu nascimento.

 

Para saber mais

Livros

The Ancient Olympics, Nigel Spivey, Oxford University Press, 14,95 dólares