Peter Meyer, o lixeiro de luxo

Como o engenheiro de barragens resolveu largar tudo para colecionar selos, fotografias e correspondências de guerra

Cláudia Zucare Boscoli Publicado em 01/03/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Coleções sempre começam por hobby e, às vezes, terminam em comércio. No caso de Peter Meyer, um ex-engenheiro de barragens que abandonou a profissão para cuidar do negócio da família, aconteceu o contrário. “Tudo começou com meu avô, que colecionava cartas, selos, postais e envelopes de sua época, coisas do dia-a-dia mesmo. Em 1948, meu pai resolveu transformar aquilo em negócio. E eu optei por dar continuidade para não ter a tristeza de fechar a loja”, conta.

No ramo há 25 anos, Meyer pegou tanto gosto pela nova profissão que passou a fazer as próprias coleções e, hoje, participa de exposições e concursos internacionais, além de ser editor do Catálogo de Selos do Brasil, livro que compila o valor de todos os selos já emitidos pelo país. “Brinco que sou um lixeiro de luxo, porque selo e envelope nada mais são do que lixo, como bilhetes de metrô ou avião. Você paga para usar o serviço, mas depois joga fora o papel”, diz Meyer. Ele ressalta que, por meio desses itens, é possível resgatar a história de um determinado país ou período. “A filatelia é um mundo de história e geografia”, diz o colecionador. Ele cita como exemplo cartas enviadas do Kuwait durante a ocupação iraquiana, entre 1990 e 1991. Nesse período, os kuwaitianos tiveram de colar selo com o rosto de Saddam Hussein nos envelopes. “Uma nação dominada não tem selo”, diz Meyer.

Entre suas raridades, há um exemplar do primeiro selo emitido no mundo, em 6 de maio de 1840, na Grã-Bretanha, batizado de Penny Black. “Em um só dia, foram vendidas 40 mil unidades em Londres, o que mostra como as pessoas queriam se comunicar.” Também há o segundo deles, brasileiro, lançado em 1º de agosto de 1843, conhecido como Olho-de-Boi. “Costumam pichar Dom Pedro II, mas ele trouxe grandes avanços para o País”, diz Meyer. “Fomos o segundo país do mundo a ter um selo e um sistema de correio unificando o território, e isso não é pouca coisa.”

Curiosidades de guerra

Uma de suas principais coleções são as correspondências de guerra. Nela há exemplares em branco dos impressos que os prisioneiros dos campos de concentração da Segunda Guerra tinham permissão de usar, com instruções em inglês, alemão e japonês. Também há um formulário, preenchido a mão e remetido dos Estados Unidos ao Japão, no qual se verifica que a expressão “prisioneiro de guerra” foi substituída, a caneta, por “interno de guerra”. “Dizem que não havia campos de concentração nos Estados Unidos, mas se ele não estava preso, o que fazia lá? E por que a preocupação em rasurar a palavra ‘prisioneiro’? Porque era um descendente de japoneses e, como tal, considerado suspeito após o ataque a Pearl Harbor.”

Da Guerra de Secessão americana consta uma carta “paga no destino” enviada diretamente do front. “Não tem selo no meio de uma batalha. Ou se oferece isenção postal ou a cobrança é feita na entrega. E tudo isso vem rubricado”, diz Meyer. Há também cartas impedidas de serem entregues ou devolvidas, como uma postada da Inglaterra para as Ilhas Falklands (ou Malvinas) durante o confronto de 1982 – o destinatário, um soldado inglês, nunca foi encontrado. Também fotos enviadas junto com as correspondências, como a dos integralistas brasileiros flagrados em típica saudação fascista. E até postais humorísticos, como o do soldado que se despede da esposa antes da partida.

Via balão

Entre 1870 e 1871, durante a guerra franco-prussiana, cartas e exemplares de jornal franceses (como o diário reproduzido na imagem 2, no alto da página à esquerda) eram transportados de balão, completamente à mercê do vento, para fora do cerrado, cerco que o exército da Prússia exercia contra Paris. Tal forma de comunicação precária, batizada de Balloon Monté, era a única maneira possível na época para enviar notícias da capital francesa para o resto do mundo.

Foi assim, via balão sem destino, e depois pegando uma carona de navio, que chegou ao Brasil uma carta francesa da época, outra relíquia sob a posse de Peter Meyer. “É incrível pensar nisso quando hoje temos o e-mail, não?”, questiona o colecionador.