Póvora: artilharia pesada

A pólvora, uma invenção da época, deu munição suficiente para os franceses massacrarem os ingleses em duas batalhas - em Formigny e Castillon. Assim praticamente expulsaram os invasores

Mauricio Gibrin Publicado em 01/11/2005, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Formigny, 1450. Na França, 3 mil arqueiros ingleses estavam preparados para reeditar, agora num vilarejo da Normandia, as glórias de Crécy e Agincourt. Mesmo com a fraca liderança do rei Henrique VI (filho único de Henrique V), a Inglaterra acreditava ser capaz de dominar as forças francesas, que se reorganizaram durante os cinco anos da Trégua de Tours, estabelecida em 1444. Acampado perto do vilarejo de Formigny, situado a menos de 10 km do canal da Mancha, o exército anglo-saxão se posicionou em formação defensiva, protegido pelo terreno com elevações e por estacas. A estratégia deu certo: as duas primeiras ondas de ataque do exército francês, composto por 3 mil cavaleiros e homens de infantaria, foram repelidas com facilidade. Mas um lance virou os rumos da batalha. Por ordem do comandante francês, o conde de Clermont, dois canhões leves passaram a disparar contra as linhas de arqueiros, provocando o caos no inimigo. Ainda assim, Thomas Kyriell, o líder das tropas inglesas, reagiu com um ataque que tomou dos franceses as duas armas. Só que o movimento deixou seu exército vulnerável a uma segunda ofensiva, lançada pelos 1,2 mil cavaleiros de Arthur de Richemont, um aliado bretão dos franceses.

“Mais do que causar baixas, o papel fundamental da artilharia em Formigny foi permitir que Richemont, guiado pelo barulho dos disparos, localizasse os aliados”, diz o historiador Hugh Soar, autor do livro The Crooked Stick: a History of the Longbow (sem tradução). Atacados simultaneamente pelo sul e pelo oeste, os ingleses não tinham soldados suficientes para resistir ao combate homem a homem. A tática de empregar grandes quantidades de arqueiros falhou, evidenciando a importância do uso dos canhões, mesmo que apenas dois, no resultado final. Dos 3,8 mil soldados ingleses, 2,3 mil morreram e cerca de 900 foram capturados – entre eles, o comandante Kyriell. Os 4,2 mil franceses envolvidos no combate sofreram apenas 200 baixas. O massacre em Formigny deixou Londres sem um exército capaz de fazer frente aos franceses. Depois disso, as cidades da Normandia caíram uma a uma, deixando aos ingleses apenas a Aquitânia, a sudoeste, e a cidade fortificada de Calais, ao norte.

Castillon, a batalha final

Em 1453, controlada em parte pelos franceses, a Aquitânia perdera boa parte da autonomia que tinha no período em que era um domínio exclusivamente inglês. E, com a Guerra dos Cem Anos, a longa presença inglesa na região dividia os cidadãos. Não havia ainda um sentimento nacionalista entre a população, algo que só se consolidaria na Europa anos depois. O que predominava era a fidelidade a determinado monarca e não a um país. E na Aquitânia muitos habitantes se viam como súditos britânicos e não como franceses. Por isso, a região recebeu de braços abertos a expedição de 3 mil ingleses chefiada por John Talbot, um general de mais de 70 anos. Com o apoio das forças locais, ele elevou seu contingente a quase 9 mil soldados.

Enquanto isso, os franceses contavam com três exércitos na região e os serviços de Jean Bureau, um dos primeiros especialistas no uso de artilharia em combate. Bureau conseguiu a façanha de reunir 300 armas de fogo e preparou uma armadilha, ameaçando com um dos exércitos a Fortaleza de Castillon, a cerca de 50 km de Bordéus, no sul da França. Ali, Talbot encontrou inicialmente um grupo de mil arqueiros franceses, que ofereceu pouca resistência aos ingleses e recuou rapidamente para o leste, onde estava o corpo principal do exército francês. Perseguindo os soldados em retirada, os ingleses se depararam com o acampamento de 6 mil franceses e partiram para o ataque.

Bureau preparara bem sua defesa. Sabia que os ingleses não teriam outra opção senão atacar pelo sul, já que o terreno protegia seus flancos pelo norte e pelo oeste. Decidiu, então, colocar seus 300 canhões lado a lado, formando uma bateria jamais vista em solo europeu. Os ingleses, inexperientes em confrontos contra a artilharia, não sabiam o risco que estavam correndo. Quando os canhões dispararam, foi uma carnificina.

Dezenas de ingleses que sobreviveram tentavam resistir. Nesse momento entrou em cena a cavalaria pesada francesa, que aguardava escondida ao norte do campo de batalha. Seu ataque, somado ao apoio estratégico dos arqueiros franceses, reorganizados, esmagou a resistência do inimigo e encerrou a batalha. O velho John Talbot caiu com um golpe de machado e cerca de 3,5 mil ingleses e aliados foram mortos ou capturados. Era a primeira vez na história européia que a artilharia havia decidido uma guerra. Os franceses perderam aproximadamente 300 homens e privaram a Inglaterra de um exército que pudesse manter a região sob seu controle e conquistaram, depois de Castillon, todas as cidades da Aquitânia. Assim acabou a participação da Inglaterra na Guerra dos Cem Anos: sem soldados para mandar para a França e dividida por uma guerra civil em seu próprio solo. Para os franceses, Castillon é até hoje motivo de celebração – a batalha é encenada anualmente no vilarejo de Castillon-la-Bataille desde a década de 1980.

Destruição, peste e disputas

O grande beneficiado pela Guerra dos Cem Anos foi o rei da França. Carlos VII agora tinha condições de unificar o território francês sob a bandeira da flor-de-lis, o símbolo da nobreza real. Na prática, porém, o principal legado foi a destruição que 100 anos de guerra deixou na região. Pouco a pouco, os grandes ducados perdiam poder e prestígio para o poder central, e regiões importantes seriam anexadas pela coroa nos anos seguintes – a Picardia em 1477, a Provença em 1481, a Bretanha em 1491. Contudo, a nova expansão teve seu custo em sangue. O sucessor de Carlos VII, Luís XI, voltou-se contra seus ex-aliados na Borgonha e conquistou a região 25 anos depois da Batalha de Castillon. A tentativa francesa de controlar as terras até o rio Reno ocasionou conflitos com a Áustria e a Espanha e está na raiz da disputa pela Alsácia e Lorena com os alemães – motivos de conflito na Guerra Franco-Prussiana do século 19 e também na Primeira e na Segunda Guerra Mundial, no século 20.

Mesmo que a França tenha saído vencedora do conflito, o preço que a população camponesa pagou pela guerra e pela peste foi altíssimo. O bispo Thomas Basin, conselheiro do rei Carlos VII, deixou o seguinte relato manuscrito: “Basta andar pelo reino para perceber seu aspecto sórdido e arrasado: campos sem cultivo, ervas daninhas, espinhos e arbustos; raros agricultores, magros e pálidos, cobertos por trapos; inúmeras ruínas, inúmeras casas vazias de habitantes”.

Já os ingleses perderam qualquer chance de dominar o trono francês. A cidade fortificada de Calais, ao norte, ficaria em suas mãos por mais 100 anos, mas era escondida demais para servir de base para invasões ao continente. “O isolamento de Calais explica por que os franceses não a quiseram de volta na época”, diz o historiador inglês John Farman, autor do livro The Very Bloody History of Britain (sem tradução). A cidade foi mantida a muito custo pelos ingleses até que, em 1553, a rainha da Inglaterra, Mary Tudor, casou-se com o rei Felipe da Espanha, unindo os países num novo conflito contra os franceses. Não foi um bom negócio: a França venceu a guerra outra vez e recuperou Calais em 1558.

 

Saiba mais

LIVROS

A Guerra dos Cem Anos, Francisco Teixeira, ed. Ática, 1996

The Crooked Stick: a History of the Longbow, Hugh David Hewitt, ed. Westholme, 2004