Ritual fúnebre: Os gêmeos da Era do Gelo

Descoberta arqueológica de dois bebêsna Áustria revela a complexidade dos rituais fúnebres que já existiam há 27 mil anos

Arthur Felipe Artero Publicado em 01/12/2005, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Os corpos sem vida dos dois bebês foram colocados cuidadosamente sob a omoplata (osso atrás do ombro) de um mamute. Envolvidos em pele de animal e recobertos com ocre, uma terra fina vermelha, estariam a salvo de carniceiros. Era importante protegê-los – por isso, ao redor do arranjo, havia presas de mamute e contas de marfim. Palavras devem ter sido ditas na ocasião. Mas ninguém sabe quais ou por quê. Também pouco se sabe sobre quem eram essas pessoas ou como viviam. Tudo o que é possível é vislumbrarmos o que foi essa solenidade fúnebre pré-histórica – e isso graças a artefatos recém-desenterrados num sítio arqueológico da Áustria.

A descoberta, feita em setembro, foi liderada por Christine Neugebauer-Maresch, da Academia Austríaca de Ciências. “É a primeira vez que encontramos um enterro duplo de indivíduos recém-nascidos”, diz a pesquisadora. A essa altura, nem mesmo a idade exata do ocorrido é conhecida – nenhuma datação precisa do material foi realizada até agora. Achados anteriores feitos no mesmo sítio, em Krems, no norte de Áustria, dão algumas pistas. “Sabemos por escavações anteriores que a idade de outras peças encontradas na mesma camada da escavação é de 27 mil anos. Mas ainda escolheremos partes especiais da omoplata, um pedaço de marfim e um pedaço de carvão nessa sepultura para analisar a data.”

A época é o chamado Paleolítico Superior, em plena Era do Gelo, numa fase crucial da história humana: foi mais ou menos uns 30 mil anos atrás que os neandertais, antigos habitantes hominídeos da Europa, foram sobrepujados pelo Homo sapiens, o homem moderno. Ninguém sabe ao certo como as populações neandertais desapareceram e foram substituídas pelos homens da África. A idéia predominante é a de que os africanos simplesmente os tenham atacado e subjugado, até levá-los à extinção. Mas há quem diga que nunca houve de fato um fim completo deles – e sim uma miscigenação entre as duas espécies de hominídeos.

Qualquer que seja o caso, entender as diferenças culturais – como os rituais fúnebres – entre as duas espécies em competição pode ajudar a elucidar a questão. O problema é que as informações são escassas. No caso do funeral dos bebês da Áustria, exemplares de humanos modernos, há a possibilidade de que tenha sido mais sofisticado pelo fato de eles serem provavelmente gêmeos. Ao medir os dois fêmures, foi constatado que as crianças tinham exatamente 71 centímetros. É um bom indício, mas a certeza só virá se for possível analisar o DNA. “Talvez elas tenham tido um enterro especialmente amoroso porque gêmeos eram absolutamente incomuns”, diz Christine.

De todo jeito, achados como esse, com forte conotação cultural e espiritual, demonstram que há mais a saber sobre esses humanos primitivos do que seu uso já conhecido de instrumentos de pedra lascada – que, aliás, deu nome ao período Paleolítico (do grego paleo = antiga e lithos = pedra).

 

Uma longa glaciação

Frio e calor se revezamhá 2 milhões de anos

Nos últimos 2 milhões de anos, não se sabe ao certo por quê, a Terra passa por momentos de resfriamento constantes – os períodos gelados costumam durar 100 mil anos, com intervalos aquecidos de 10 mil anos. Nesta fase, a Era do Gelo, surgiram os hominídeos do gênero Homo.

1,9 milhão a.C.

Mudanças climáticas iniciam o Pleistoceno, ou a fase conhecida como Era do Gelo

1,7 milhão a.c.

Surge o Homo erectus, que logo se espalha para o Leste Europeu e a Ásia

200 mil a.C.

A Europa é dominada por uma nova espécie de hominídeo adaptado ao frio, o Homo neanderthalensis, enquanto na África surgem os primeiros Homo sapiens

100 mil a.C.

Os primeiros humanos modernos chegam ao Oriente Médio, mas parecem ter entrado em conflito com os neandertais e desaparecem da região

60 mil a.C.

Uma nova expansão para fora da África leva os humanos modernos até a Austrália, provavelmente de barco

40 mil a.C.

O Homo sapiens chega à Europa. Há uma explosão tecnológica e artística (pinturas rupestres, armas complexas etc.). Os neandertais somem 10 mil anos depois

13 mil a.C.

Evidências arqueológicas indicam a chegada do homem à América, vindo da Ásia

10 mil a.C.

Com o aumento global de temperaturas e o derretimento de gelo nos círculos Ártico e Antártico, termina a Era do Gelo

 

Abominável homem da neve

Ötzi, o humano do gelo,é da Idade do Bronze

O mais famoso homem do gelo não pertence à chamada Era do Gelo, que terminou cerca de 12 mil anos atrás. Ainda assim, Ötzi, como ficou conhecido, é uma das descobertas mais interessantes da Pré-história humana – período anterior à invenção da escrita. A múmia foi encontrada em 1991 por um casal alemão perto de Hauslabjoch, na região alpina de Ötzal. De início eles pensaram que fosse apenas mais um alpinista desafortunado cujo corpo fora preservado pelo gelo. Mas, após a retirada do cadáver, ficou constatado que era um homem que morreu há 5 300 anos. A descoberta iniciou uma série de estudos para delinear a história pregressa de Ötzi. Pelos artefatos encontrados com ele, como um arco e um machado de cobre, sabe-se que morreu em combate. Mas se ele era de fato um guerreiro ainda é um fato controverso. O que se sabe é que Ötzi surpreende. Petr Hlavacek, professor de tecnologia de calçados na Universidade Tomas Bata, da República Tcheca, recriou os sapatos de Ötzi e descobriu que havia mais tecnologia neles do que se imaginava. Ao passear com eles por aí, constatou que, além de oferecer proteção adequada contra o frio, “os calçados são muito confortáveis”, segundo afirmou a publicações estrangeiras.