Rommel: os erros e acertos

Nos últimos anos, especialistas têm apontado erros nas ações de Rommel. Afinal, em que ele realmente foi brilhante e quando foi que errou?

Tiago Cordeiro Publicado em 01/11/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Nem todos os militares e pesquisadores consideram Rommel um dos maiores marechais da Segunda Guerra. Enquanto estava na ativa, ele era idolatrado por seus comandados, mas incomodava os superiores por dois motivos. Em primeiro lugar, Rommel era desobediente. Além disso, falava bem e gostava de tirar fotos de seus soldados e de si mesmo. Desde que ficou amigo do ministro da propaganda Joseph Goebbels, em 1938, ele era presença constante nos noticiários de guerra alemães, e sua rápida promoção era creditada ao bom relacionamento com Hitler. Nas últimas décadas, um grupo de historiadores começou a debruçar-se sobre as críticas que Rommel recebia de seus superiores. O alemão Wolf Heckman, por exemplo, disse que ele é um dos comandantes mais superestimados da história de qualquer exército, em qualquer época. Afinal, qual foi o legado de Erwin Rommel? A melhor forma de responder à pergunta é colocar na balança seus maiores erros e acertos.

Os Erros

A maior crítica que se faz ao marechal é que ele era um tático, mas não um bom estrategista. Cercado pelos soldados e pela poeira das batalhas, Rommel nunca se destacou como alguém que tinha uma visão de longo alcance e de longo prazo – uma limitação que nem sempre era evidente porque ele contava com o apoio de grandes homens, como os generais Fritz Bayerlein e Siegfried Westphal, cujos papéis nas operações no deserto acabaram eclipsados pelo sucesso do marechal (o mesmo havia acontecido durante a invasão à França, quando a atuação decisiva do general Hermann Hoth ganhou menos divulgação do que a de Rommel). A incapacidade de pensar a longo prazo, dizem os críticos, estava aliada à irresponsabilidade.

Onde seus defensores vêem arrojo e coragem, os detratores enxergam irresponsabilidade. A própria ação no norte da África, iniciada à revelia dos superiores, é vista por muitos como um desperdício de tempo, dinheiro e vidas. “Existe a lenda de que ele teria conquistado todo o território até o canal de Suez, se Hitler e os italianos tivessem lhe dado mais condições. Acontece que estas condições nunca existiram, nem mesmo antes de os avanços de Rommel começarem. Ele foi genial, mas forçou uma situação insustentável”, diz o historiador americano Dennis Showalter. Na defesa da Normandia, continuam seus críticos, surgiu outra característica do marechal: a grande teimosia na defesa de seus argumentos. Teimosia que dividiu a opinião do Führer e ajudou a fazer com que os alemães não tivessem uma estratégia de defesa clara.

Os Acertos

Mesmo os críticos reconhecem no marechal alguns acertos e inovações na estratégia. Para começo de conversa, o próprio hábito de circular pelo campo de batalha, que limitava a visão estratégica, dava-lhe grandes vantagens táticas. Seja dirigindo, seja pilotando um pequeno avião, Rommel era capaz de testar e monitorar o resultado de novas técnicas, como o uso de canhões de 88 milímetros como armas antitanques. Outra de suas habilidades, usada desde a Primeira Guerra, mas fundamental na África, era a capacidade de iludir o inimigo com manobras falsas. Quando em desvantagem, o marechal levantava tendas em locais ermos e fazia seus carros levantarem bastante poeira, para dar aos ingleses a impressão de que seu poder de fogo era muito maior.

Era comum que Rommel olhasse para determinada área do acampamento e pedisse que todos se retirassem dali, porque ele sentia que aquela área era acessível ao inimigo. Seu famoso sexto sentido era, em grande parte, resultado de um bom serviço de espionagem, capaz de interceptar a comunicação de rádio adversária. Funcionou na prevenção de Battleaxe e Brevity, duas ações britânicas de tentativa de retomar Tobruk. Sabendo como os adversários se movimentariam na manhã seguinte, o comandante se reposicionava à noite, discretamente.

Outro motivo para o sucesso de Rommel é que ele, apesar de nunca admiti-lo claramente, confiava muito na qualidade de sua equipe. Foi seu grupo de suporte que criou um esquema de transportar combustível de navios italianos, usando pequenos botes – a partir de 1942, quando os bombardeios contra alemães aumentaram no Mediterrâneo, submarinos foram incorporados à operação. Em terra, os homens do marechal organizavam comboios pequenos para chegar ao local necessário com velocidade e segurança.

Por fim, nos primeiros meses de ação, Rommel também soube se aproveitar de outra arma poderosa: as limitações do inimigo. Enquanto ele seguiu e levou ao limite a tradição germânica de correr riscos e improvisar durante as batalhas, os britânicos ainda pareciam muito apegados aos conceitos de guerra pré-1938. “Acho que meu adversário, general Ritchie, como muitos outros generais da velha escola, não imaginara perfeitamente as conseqüências advindas da conduta de operações inteiramente motorizadas, bem como as da luta no terreno limpo do deserto”, escreveu o próprio Rommel, logo depois da batalha de Gazala. Acontece que os ingleses, e depois os americanos, aprenderam rápido com os alemães. No comando da 2ª Corporação do Exército dos Estados Unidos, o general George Patton foi capaz de vencer o Afrikakorps não só porque tinha grande superioridade de armamentos, mas porque já sabia prever as ações dos inimigos alemães. Ao final de 1943, as inovações introduzidas por Rommel já eram aplicadas por qualquer destacamento que estivesse lutando no deserto.

 

Feras germânicas

De acordo com o major-general alemão F.W. von Mellethin, que conviveu com os maiores comandantes do exército de Hitler, Rommel equiparava-se a quatro grandes militares:

Coronel Heinz Guderian

Mestre no uso da Blietzkrieg, Guderian criou uma nova forma de comandar. Instalado em uma base móvel, ele enviava mensagens curtas e precisas. Guderian esteve à frente da invasão da Polônia e da ocupação da França, onde liderou pessoalmente a travessia sobre o rio Meuse.

Marechal-de-campo

Erich von Manstein Foi um dos responsáveis pela Sichelschnitt, a modificação nos planos de invasão da França que transformou uma ação militar que imitava a executada durante a Primeira Guerra em uma tática de guerra inovadora. Liderou os alemães nas batalhas vitoriosas de Kerch, Sevastopol e Kharkov.

Marechal-de-campo

Walther Model Sua grande especialidade, colocada em prática no front do leste, era a defesa. Muitos pesquisadores acreditam que ele é um dos mais eficientes táticos de defesa da história militar. O “bombeiro de Hitler”, como era chamado, tinha uma capacidade extraordinária de improvisar durante uma batalha.

General Hermann Balck

Considerado o melhor comandante de campo dos alemães, liderou o regimento na arrancada em Sedan, na França, e levou a 11ª Divisão Panzer à vitória sobre o Chir River, na Rússia, naquela que é considerada uma das melhores batalhas de divisões de toda a história militar.

 

Para saber mais

LIVROS

• Patton and Rommel: Men of War in the 20th Century, Dennis Showalter, Berkley Trade, 2005

Compara as trajetórias de dois táticos ousados, Rommel e o americano George S. Patton.

• German Generals of World War II: As I Saw Them, F.W. von Mellenthin, University of Oklahoma Press, 1977

O major-general faz sua lista de cinco homens mais importantes para o Exército alemão e explica o porquê.

• Rommel, Desmond Young, Biblioteca do Exército, 1975.

Escrita por um oficial inglês que lutou contra o alemão no norte da África, conta com o depoimento da viúva de Rommel, Lucie, e com documentos preservados pela família.

• Os Generais de Hitler, Correlli Barnett (org.), Jorge Zahar, 1989

Coletânea de artigos que descrevem as estratégias dos 25 maiores comandantes do Führer.