Saiba mais sobre José de Medeiros, fotógrafo que revoluciou a técnica no Brasil

Com uma Rolleiflex, José Medeiros registrou, sem interferir, da naturalidade glamourosa no Rio de Janeiro, capital federal, à simplicidade das tribos indígenas da Amazônia. Seu trabalho ajudou a construir o fotojornalismo brasileiro

Bianca Nunes Publicado em 20/06/2012, às 15h11 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Juscelino Kubitschek
Juscelino Kubitschek - Arquivo Aventuras

O Brasil de 1940 era um país quase sem estradas e sem televisão. A comunicação era escassa - uma ligação telefônica de Salvador para o Rio de Janeiro, por exemplo, tinha espera de dez a 12 horas. Numa terra que parecia isolada em ilhas, unidas apenas pelas ondas do rádio, as lentes de uma Rolleiflex conseguiram trazer imagens dos índios do Xingu para a high society fluminense e intercambiar registros da boa vida de uma elite emergente com terreiros de candomblé. Foi na revista O Cruzeiro que o fotojornalismo começou a mostrar esse Brasil "de rua" - e foi sob o olhar do fotógrafo José Medeiros que muitos temas ganharam espaço pela primeira vez numa publicação nacional.

Ele entrou para a equipe de O Cruzeiro em 1946 e praticamente revolucionou a maneira de fotografar. Ao contrário de muitos ali, suas imagens nunca eram posadas e mostravam uma realidade crua e espontânea. O cotidiano carioca, não apenas o dos bem-nascidos, era sua matéria prima preferencial. O fotojornalismo verdadeiro do piauiense vingou não só na revista, que em 1954 chegou a ter tiragem de 720 mil exemplares, mas também na imprensa brasileira das décadas seguintes, até os dias de hoje. "Suas fotos são carregadas desse espírito de brasilidade; transmitem um certo lirismo ou até um certo imaginário idílico do Brasil transmutado na própria realidade", diz Leonel Kaz, autor de Olho da Rua - O Brasil nas fotos de José Medeiros".

Juscelino Kubitschek em visita ao Amazonas, 1956 (foto: José Medeiros)

As primeiras lições de fotografia, José de Araújo Medeiros teve com o pai, "um maníaco por foto", nas palavras de Zenaide, sua filha. Ele nasceu em Teresina, em 1921, e, aos 18 anos, mudou-se para o Rio. Logo que chegou, foi trabalhar nos correios. A paixão herdada pelo poder de capturar imagens, no entanto, foi mais forte e em pouco tempo ele teve seus primeiros trabalhos publicados nas revistas Tabu e Rio. O convite para ingressar em O Cruzeiro partiu do colega francês Jean Manzon. Lá, José Medeiros fez fama em 15 anos de ofício. "Ele tinha a temática e a estética de Cartier Bresson", afirma a pesquisadora e autora de Imagens da Fotografia, Simonetta Persichetti. Bresson uniu o caráter documental de retratos que captam o inusitado com a preocupação estética da composição de planos.

Na revista, Medeiros fotografava com uma Rolleiflex, mas também inovou ao ser um dos precursores da câmera 35mm, de formato pequeno. Segundo Simonetta, o uso desse tipo de máquina trouxe mais mobilidade ao repórter fotográfico. "Ele quase que desaparece, é uma câmera mais fácil de ser ‘camuflada’ e permite sair da foto posada."

A mando da publicação, José Medeiros viajou para os Estados Unidos, a Europa e a África, sem citar os variados destinos nacionais. Chegou a ter imagens reproduzidas pela famosa revista Time. Seu trabalho mais conhecido, Candomblé foi transformado em livro em 1957, pela Edições O Cruzeiro - trata-se do primeiro registro na mídia brasileira desse tipo de ritual.

Zenaide conta que não existia rotina no modo de trabalhar do pai. "Não havia essa palavra no seu vocabulário. E ele era muito criativo." Ela aprendeu a fotografar "roubando" câmeras em casa, mas acabou se tornando psiquiatra. Medeiros era um homem irreverente, alegre e boêmio. É assim que o amigo, cunhado e colega de profissão Flávio Damm, hoje com 81 anos, lembra dele. "José cantava nas ‘boites’ do Rio, sapateava muito bem e era bom de copo. Generoso com as minorias, era desligado para dinheiro. Adorava couve-flor. Almoçava em minha casa todos os sábados e bebia o meu gim inglês com perfeição. Orlando Villas-Boas o flagrou, em uma aldeia Xavante, ensinando um grupo de índios a cantar, em inglês, Nature Boy." A música foi hit em 1948, na voz de Nat King Cole.

A posse de Getúlio Vargas, Rio, 1951 (foto: José Medeiros)

Da revista para o cinema

O fotógrafo deixou a redação de O Cruzeiro em 1962 e, ao lado de Flávio e de Yedo Mendonça, criou a agência Image, uma das primeiras no Brasil. "Em um ano de atividade compramos uma casa de quatro andares, uma ex-sinagoga, e chegamos a ter 28 funcionários, um departamento de arte, carpintaria e um estúdio", diz o cunhado. Medeiros abandonou a Image após três anos para trabalhar com cinema, meio em que também alcançou satisfação e sucesso. Assinou a direção de fotografia de dezenas de filmes - entre eles Xica da Silva (1976) e Memórias do Cárcere (1984). Com A Rainha Diaba (1974), levou o prêmio de Melhor Fotografia do Festival de Brasília (1975) - e se consagrou como "o poeta da luz". O apelido veio da facilidade com que usava a luminosidade natural, em detrimento de muitos quilos de aparatos técnicos. Em 1980, foi mais longe e dirigiu o longa-metragem Parceiros da Aventura.
Em Cuba, deu aulas na Escuela de Cine y TV, fundada por Fidel Castro e Gabriel Garcia Márquez. Ganhou prêmios e recebeu homenagens. Até que, em 1990, seguiu para Áquila, na Itália, participar de um evento. "Ele foi contrariando minha opinião", diz Flávio Damm, saudoso. "Tinha tido dois princípios de enfarto em Havana, bebia e comia sem cuidados, mesmo sabendo que era diabético. Viajou daqui numa segunda-feira e morreu lá na quinta-feira."


Saiba mais


LIVROS

Cinefotorama - José Medeiros, coord. Rodrigo Lacerda e outros, Instituto Moreira Salles, 2009

Um poema de Zuca Sardan introduz a coletânea de 48 imagens com foco na Era Vargas.

Olho da Rua - O Brasil nas fotos de José Medeiros, Leonel Kaz, Aprazível Edições, 2005/2006

Com introdução de Arnaldo Jabor, a obra discute as características do trabalho de Medeiros e seu contexto histórico.