Sala de emergência

Esqueça desfibriladores, sirenes e corre-corre. Quando surgiram, há 100 anos, para atender ao crescente número de acidentes nas grandes cidades, os primeiros prontos-socorros eram muito diferentes

Sara Duarte Publicado em 01/06/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Arquivo Aventuras

O serviço de atendimento de emergência em São Paulo já foi considerado um caso de polícia. Em 1906, as únicas quatro ambulâncias da cidade ficavam estacionadas em frente à Casa Número 1, na região central, onde funcionava a primeira Delegacia de Polícia da capital. Vítimas de atropelamentos, brigas ou acidentes de qualquer espécie eram levadas para lá, onde um médico de plantão fazia a triagem: se o paciente fosse “de classe”, isto é, se tivesse dinheiro, era levado para o Hospital Umberto Primo (também conhecido como Matarazzo), nas cercanias da avenida Paulista, mas se fosse pobre ia direto para a Santa Casa de Misericórdia, no bairro de Santa Cecília. Naquela época, São Paulo, a segunda maior cidade brasileira, atrás apenas do Rio de Janeiro, então capital federal, ganhava ares de metrópole: de 65 mil habitantes em 1890, em 16 anos já passava dos 250 mil. Além de superpovoada, a cidade parecia um canteiro de obras: as construções coloniais de madeira estavam sendo derrubadas a toque de caixa, para a construção de edifícios modernos de tijolos e concreto.

Os bondes elétricos e os primeiros automóveis rasgavam as ruas da cidade, que não tinham sinalização nem fiscais de trânsito para regular seu fluxo. Não é de admirar que grande parte dos pacientes do serviço de pronto-socorro fossem vítimas de atropelamento. Outro tipo de atendimento bastante comum nos plantões da Santa Casa, que costumava cuidar de 20 emergências por dia, era o de pedreiros que despencavam dos andaimes e chegavam ao hospital com fraturas e suspeita de hemorragia interna. Operários de fábricas eram trazidos com dedos ou membros decepados e outras escoriações provocadas por acidentes com as máquinas. Ao receber a vítima ainda inconsciente, o cirurgião-chefe tinha de se apressar para verificar os sinais vitais e fazer os procedimentos de ausculta, inspeção, palpação e percussão. “Sem raio X ou exames laboratoriais, o médico podia contar apenas com seu olho clínico”, diz o neurologista Afonso Carlos Neves, doutorando em História da Ciência pela Universidade de São Paulo.

De fato, embora o raio X tivesse sido criado em 1895, na Alemanha, somente na década de 1910 esse aparelho seria incorporado ao dia-a-dia dos hospitais brasileiros. No início do século 20, um paciente que tivesse o pé esmagado pela roda de um carro ou de uma carroça era imediatamente submetido à amputação. “Naquela época não se tinha a noção de que o osso é um tecido vivo e se regenera”, explica Samuel Atlas, professor de Ortopedia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Quando ocorria apenas uma fratura, e não esmagamento de osso, o tratamento era menos radical, mas, ainda assim, arcaico. Em 1910, uma jovem noviça estava limpando uma janela, quando caiu de uma altura de 3 metros. Levada para a Santa Casa, foi diagnosticada com fratura de fêmur. Formou-se um conselho de freiras e madres superioras para decidir se um médico homem poderia atender (e tocar) a jovem religiosa. Dada a gravidade do quadro, elas consentiram. O doutor, então, engessou a moça do calcanhar até o tórax. Depois disso, ela foi levada para o pátio do hospital, para que o sol acelerasse o processo de secagem do gesso, que, normalmente, levava 48 horas. Em casos assim, o doente costumava ficar dois meses internado.

Numa ocorrência com pacientes com suspeita de hemorragia, a situação também não era confortável. Sem exames detalhados, só restava ao médico ir apalpando o doente até descobrir onde poderia estar a lesão. Em caso de ferimento por arma de fogo, a solução era abrir o sujeito e procurar a bala. À unha. Para isso, o paciente era anestesiado com éter ou clorofórmio e, desmaiado, não via o cirurgião invadir o seu corpo utilizando bisturis, facas e serras. Ao encontrar o foco da hemorragia, o médico a estancava com panos ou ataduras, pinçava a veia e fazia a sutura. O ferido então partia para a enfermaria masculina ou feminina, para ficar em observação. Se a perda de sangue não tivesse sido grande demais e se não surgisse nenhuma outra complicação, a probabilidade era de que ele fosse para casa em duas a três semanas.

Os pacientes que costumavam passar menos tempo internados eram os que apresentavam sintomas de distúrbios psiquiátricos, como agitação motora e ataques nervosos. Uma pessoa tida como histérica era colocada em uma tina com água quente e recebia jatos de água fria na cabeça. Se o diagnóstico fosse depressão ou apatia, o banho era frio e os jatos na testa, quentes. Se nada disso adiantasse, apelava-se para tratamentos mais radicais. De acordo com o psiquiatra Guido Palomba, da Academia Paulista de História, era comum os médicos darem sustos nos pacientes em crise ou ameaçar jogá-los em ninhos de cobras, se não cooperassem. “Mas sem dúvida o tratamento mais cruel era o que utilizava o Gyrator, uma máquina em que o doente era amarrado e suspenso até a altura do teto. Por meio de cordas e polias, os enfermeiros colocavam o aparelho para girar em alta velocidade até o paciente vomitar, perder a consciência ou começar a ter convulsões. Quando ele acordasse, mandavam-no para casa”, conta Palomba. Se nada disso adiantasse, a questão não era de pronto-socorro e sim de manicômio.

Comparados a seus similares dos Estados Unidos e da Europa, os serviços de atendimento médico de emergência brasileiros eram incipientes e atrasados (leia quadro na pág. 51). Em 1906, só havia faculdades de Medicina nas cidades do Rio de Janeiro e Salvador, e a Sociedade Médica e de Cirurgia de São Paulo contava com pouco mais de 50 membros.

A existência de hospitais como o Umberto Primo (fundado em 1904), o Beneficência Portuguesa (1876) e o Samaritano (1894) não aliviava a situação, porque tais instituições só atendiam aos seus associados. Os médicos com consultório próprio atendiam a famílias abastadas. “O restante da população tinha de contar com os serviços de farmacêuticos ou cirurgiões-barbeiros, profissionais sem diploma que tanto podiam fazer um corte de cabelo como arrancar um dente ou aplicar uma sangria”, diz a historiadora Laima Mesgravis, autora de A Santa Casa de Misericórida e professora da Universidade São Marcos, em São Paulo. “Por terem funções filantrópicas e assistenciais, as Santas Casas de Misericórdia, presentes nas maiores cidades do país, foram assumindo a função de atender aos casos de maior urgência”, afirma.

Caso houvesse suspeita de doenças como tuberculose, varíola, sarampo e febre amarela, o paciente era imediatamente encaminhado ao Hospital de Isolamento, hoje chamado Instituto de Infectologia Emílio Ribas. “Em 1908, as doenças infecto-contagiosas, a sífilis e as gripes eram as principais causas de morte em São Paulo”, afirma o historiador Luis Soares de Camargo, do Arquivo Histórico Municipal. O serviço de pronto-socorro só começou a mudar a partir dos anos 40, quando foi inaugurado o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com equipamentos modernos e um andar inteiramente destinado às emergências. A partir daí, em vez de procurar a Casa Número 1, onde funcionava a delegacia, os paulistanos passaram a se dirigir “às Clínicas”, como o HC é conhecido até hoje.

 

Doutor, eu não me engano

Aparelhos pareciam instrumentos de tortura

Superinjeção

A seringa de 28 cm de comprimento era usada para retirar líquidos do abdome e do toráx no tratamento de pacientes com febre, inflamações ou dores agudas. A agulha é 20 vezes mais grossa que as utilizadas atualmente.

Olho biônico

A invenção do microscópio é atribuída ao holandês Zacharias Janssen, um modesto fabricante de óculos que viveu no século 16. Mas foi apenas a partir do século 19, com as descobertas de Louis Pasteur, que se pôde fazer um profundo estudo das bactérias.

Sob pressão

Feitas de vidro e metal, essas ventosas eram usadas para sangrias, procedimento vastamente utilizado na medicina desde Hipócrates até o século 20. A sangria se destinava a eliminar as “impurezas” contidas no sangue, causadoras do “estado mórbido” que, acreditava-se, originava as doenças.

Escuta só

O primeiro estetoscópio de que se tem notícia foi inventado pelo médico inglês Horace Benge Dobell. Precursor dos check-ups, ele defendia a necessidade de exame periódico em indivíduos saudáveis. O aparelho mede 15,5 cm.

Mais sangria

No início do século 20, o sarjador era uma alternativa “moderna” ao uso de sanguessugas. Fios de navalha apareciam e sumiam quando era acionada a alavanca.

Desmaie com os anjos

O primeiro aparelho de anestesia utilizava éter e foi inventado pelo dentista William Morton, em 1846. Este modelo, criado em 1858, usava clorofórmio e outros anestésicos. Tem 20 cm.

 

Plantão médico

Serviço de atendimento de emergência nasceu nos campos de batalha

A origem do serviço de pronto-socorro remonta às guerras napoleônicas do século 18. As primeiras ambulâncias foram projetadas em 1792 pelo barão francês Dominique Jean Larrey, médico de Napoleão Bonaparte. Eram padiolas ou carroças que serviam para retirar os soldados feridos do campo de batalha, sem aumentar seus ferimentos. O serviço também se desenvolveu muito na Rússia, durante a Guerra da Criméia, em 1860, com a atuação do cirurgião Nikolay Ivanovich Pirogov, pai da medicina de emergência no país. “As guerras têm todos os inconvenientes do mundo, mas ajudaram a humanidade a criar o serviço de pronto-socorro”, descreve o médico Dário Birolini, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Mas ainda levaria duas décadas para que as técnicas de salvamento utilizadas nos campos de batalha chegassem às grandes cidades. Paris inaugurou seu primeiro “serviço de ambulâncias urbanas”, que era executado pela Prefeitura de Polícia, em 1888. No carro-ambulância seguiam um médico anestesista, um enfermeiro e material necessário para os primeiros socorros. Detalhe: por toda a cidade havia clínicas e hospitais aptos a receber os doentes. O modelo francês serviria de inspiração para o brasileiro, com a diferença de que aqui faltavam hospitais. A cidade de Porto Alegre foi a primeira a ter um serviço de ambulância com tração animal, em 1898. Parece difícil acreditar, mas o Rio de Janeiro, então a capital do país e com uma população de 850 mil habitantes, só foi ter uma lei que obrigava o poder público a oferecer serviço médico de urgência em 1904. Naquele ano, a Associação dos Empregados do Commercio adquiriu por conta própria um automóvel-ambulância para socorrer vítimas de acidentes de trabalho. Nesse campo, até a vizinha Argentina estava muito à frente do Brasil, pois contava com ambulâncias de plantão. Assim que ocorria um acidente, era só telefonar para o serviço de emergência que um médico se dirigia para o local. Era o mesmo sistema utilizado em Nova York, nos Estados Unidos, onde o Emergency Medical Service do Bellevue Hospital começou a usar telégrafo já em 1870.

Pequena história dos hospitais

Na Antiguidade o tratamento de doentes era assunto sagrado feito nos templos. Hoje, os hospitais são centros de pesquisa científica
Moacyr Scliar

A doença é uma antiga parceira do ser humano, e tão antiga como a doença é a necessidade de cuidar do doente. Normalmente isso se fazia, e ainda se faz, em casa – mas como proceder quando a enfermidade é grave demais e exige cuidados extras? A resposta, na Antiguidade, estava ligada à concepção de doença que se tinha então: tratava-se de algo provocado por maus espíritos e curável pela intervenção de divindades. Não é de admirar, portanto, que o primeiro local para atendimento de doentes graves tenham sido os templos religiosos. Os templos gregos destinados a Asclépio, deus da medicina, admitiam enfermos que ali passavam a noite e recebiam a cura ou a orientação através de um sonho, prática adotada em Roma, onde havia um templo dedicado a Esculapius (nome latino de Asclépio) numa ilha do rio Tibre. Mas o hospital como instituição pode ter nascido no antigo Ceilão, atual Sri Lanka. O rei Pandukabhaya (século 4 a.C.) mandou construir no país prédios especificamente para receber doentes. Na Índia, o rei Ashoka criou 18 dessas instituições por volta de 230 a.C. Só por volta de 100 a.C. é que os romanos criaram locais parecidos, os valetudinaria, especializados em tratar das feridas de gladiadores, soldados e escravos doentes. A ascensão do cristianismo no Império Romano daria um novo rumo a esse tipo de assistência. O primeiro Concílio de Nicéia, em 325, recomendou a construção de um hospital junto a cada templo cristão. A finalidade não era só cuidar de doentes, mas também hospedar pobres e peregrinos: o termo “hospital”, aliás, vem do latim hospes, ou hóspede. Em 331, o imperador Constantino, recém-convertido à nova religião, aboliu todos os hospitais considerados pagãos. Cuidar dos doentes era agora um dever moral, entregue às ordens religiosas, sobretudo os beneditinos, que criaram cerca de 2 mil hospitais. Os mosteiros tinham um infirmitorium para o cuidado dos doentes, jardins onde eram cultivadas plantas medicinais e dispensários de medicamentos. Surgiram também hospitais até hoje famosos, como o Hôtel Dieu, de Paris, fundado em 660. Boa parte dos hospitais eram destinados a doentes de lepra, enfermidade então endêmica na Europa.A partir do século 11 as Cruzadas aceleraram o surgimento de hospitais. Doenças epidêmicas dizimavam as tropas cristãs, mais que os muçulmanos. Em 1099 a ordem dos Hospitalários estabeleceu em Jerusalém um hospital que podia cuidar de cerca de 2 mil pessoas. Já os árabes tinham hospitais em Bagdá, Damasco e Córdoba, então sob domínio muçulmano, onde atendiam qualquer paciente, independentemente de origem ou religião. No fim da Idade Média as autoridades começaram a criar hospitais para a população geral. Na América, o primeiro hospital foi erguido em 1524 na Cidade do México, pelo conquistador espanhol Hernan Cortés. O prédio existe até hoje. No Brasil a assistência hospitalar estava a cargo das Santas Casas de Misericórdia, surgidas nos primórdios da colonização. Até o século 19 era muito pouco o que os hospitais podiam fazer pelos pacientes. Operava-se bastante – o advento das armas de fogo gerou uma enorme quantidade de feridos de guerra –, mas o tratamento clínico era precário. Além disso, as condições de higiene eram subumanas. Gravuras da época mostram ratos passeando sobre as camas dos pacientes. Um ditado brasileiro da era colonial evidencia que as pessoas não esperavam grande coisa da hospitalização, comparando-a inclusive (e desvantajosamente) com a prisão: “Mal por mal, antes na cadeia que no hospital”, dizia-se. De fato, infecções liquidavam doentes de forma sistemática. Duas figuras destacaram-se então. A primeira foi a inglesa Florence Nightingale. Treinada em enfermagem, ela cuidou das tropas de seu país durante a Guerra da Criméia e conseguiu diminuir drasticamente a mortalidade com medidas simples, como a ventilação das enfermarias. O também inglês Joseph Lister, baseando-se nos trabalhos do francês Louis Pasteur, fundador da microbiologia, imaginou que a infecção operatória podia ser causada por germes. Passou a pulverizar instrumentos, incisões cirúrgicas e ataduras com ácido carbólico, um desinfetante, e recomendou que os cirurgiões lavassem as mãos e usassem luvas. Essas medidas reduziram de imediato a mortalidade hospitalar. O hospital moderno é antes de mais nada um centro de ciência e de tecnologia. Trata-se, na maior parte das vezes, de um hospital geral, com emergência, unidade de tratamento intensivo, serviços de diagnóstico e de tratamento. Os hospitais especializados incluem os dedicados ao trauma, ao atendimento pediátrico, à assistência psiquiátrica e assim por diante. Podem ser públicos, privados ou filantrópicos. Alguns são centros de excelência famosos e evidenciam o enorme progresso que se registrou nessa área, desde a época em que as pessoas dependiam de um sonho no templo de Asclépio para ter alguma esperança de cura.

Saiba mais

Livros

Revista Médica de São Paulo, Biblioteca da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, 1906 - Relatórios médicos com 100 anos de idade dão uma perfeita noção de como evoluiu a prática de primeiros socorros no Brasil e no mundo.

Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – Testemunhos de sua História, Berta Ricardo Mazzieiri, Fundo Editorial BYK, 2001 - Relato mostra os primeiros passos da medicina no Brasil e inclui a história do maior hospital da América Latina, o Hospital das Clínicas.

Hospitais de São Paulo – A Arte de Cuidar, AC&M Editora, 2005 - Completo relato sobre a evolução do atendimento médico e sobre como os hospitais seguiram o ritmo de crescimento da cidade.