Sargão II x Rusa I

Em 714 a.C., a rivalidade secular entre duas potências asiáticas chegou ao fim na batalha entre o imperador assírio Sargão II e o rei Rusa I, de Urartu

Douglas Portari Publicado em 01/08/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Um povo cercado de vizinhos hostis possui duas constantes em seu horizonte: tornar-se uma potência militar e fazer frente às ameaças ou submeter-se ao Estado mais forte e, na maioria dos casos, deixar de existir. Alcançar o primeiro fator, no entanto, nunca foi garantia de afastar o segundo. Citado até no Velho Testamento, foi o que aconteceu, em momentos distintos, tanto com o poderoso reino de Urartu quanto com o Império assírio nos séculos 8º e 7º antes de Cristo.

Com cerca de mil anos de existência, o Império assírio vivia seu apogeu. Sediado no norte da Mesopotâmia, com sua capital, Assur, à margem do rio Tigre (atual Iraque), vivia, porém, constantes crises de fronteiras. Crises causadas por babilônios e caldeus ao sul; por elamitas e medas a leste (povos do atual Irã); por arameus e israelitas a oeste (nos atuais Líbano, Síria e Israel); e pelos urártios ao norte.

O reino de Urartu, mesmo tendo sofrido ataques assírios anteriores, ainda era o inimigo mais perigoso. A capital urártia, Tuspar, à beira do Lago Van (Turquia), era protegida por uma cadeia de montanhas com dezenas de fortalezas. O reino abrangia ainda porções do Irã (lago Urmia), Armênia (lago Sevan) e até uma saída para o mar Mediterrâneo. Em 714 a.C., o então rei urártio Rusa I uniu pequenos Estados para desafiar o jugo assírio do imperador Sargão II. Seria o último confronto entre esses povos.

O VERDADEIRO REI

Quando Sargão II subiu ao poder, a Assíria contava com um território que se estendia do golfo Pérsico ao Mediterrâneo, compreendendo os atuais Iraque, Síria, Líbano, Israel, mais porções da Turquia. O grande responsável fora Tiglat Falasar III, cuja competência militar ladeava um forte senso administrativo. Seu reinado, de 746 a 727 a.C., foi todo feito de campanhas militares, mas também de progresso.

Seu filho Salmanasar V sucedeu-o brevemente. Com a morte deste, em 722 a.C., Sargão, já um respeitado general, assumiu o trono sem oposição. Não se sabe se foi um usurpador ou se era o filho mais novo de Tiglat Falasar. Mas o nome escolhido por ele para monarca, Sharru-kin, não apenas fazia referência ao ancestral acadiano dos assírios – significava “O Verdadeiro Rei”. Sargão II só fez alargar as divisas deixadas por seus antecessores e subjugar os povos dessa esfera.

Calcula-se que tivesse um exército de quase 200 mil homens, entre guardas de fronteiras e outros postos, incluindo 50 mil de pronto emprego. Ele era o próprio déspota esclarecido. Gostava de história, documentava seus feitos e os fatos do reino – motivo pelo qual são fartas as informações do período, encontradas em tabletes de argila escavados em Nínive. Implacável, mas pragmático, Sargão partiu contra Urartu para destruir uma ameaça antiga, mas também para tomar o controle de uma região estratégica.

O VIZINHO RICO

Descendentes dos hurritas, os urártios formaram na região do atual Curdistão um poderoso Estado. Inscrições encontradas do reinado de Ishpuini (828 a 806 a.C.) dão conta de um exército de 23 mil homens de infantaria, 10 mil cavaleiros e mais de 100 carros de combate. Até mea-dos do século 8º a.C, com a crise interna de seus vizinhos, Urartu era a potência da região. Rico em jazidas de cobre, ferro e ouro, com uma boa metalurgia e posição estratégica entre o planalto iraniano e a Turquia, podia comerciar à vontade.

Ainda possuía uma agricultura avançada e notabilizou-se pela criação de ótimas raças de cavalos. Fato destacado até por Sargão, que admitia a superioridade dos urártios no quesito. Além da capital, Tuspar, a cidadela de Muzazira, em uma colina próxima ao lago Urmia, no Irã, tinha importância especial por ser o local onde os nobres eram coroados. Toda essa riqueza era protegida por uma cadeia de fortalezas escavadas nas montanhas.

Em 735 a.C., Tiglat Falasar III atacou Urartu. A campanha não teve êxito, mas causou a morte de Sardur III, pai de Rusa I, que assumiu o trono. Durante anos, os conflitos de fronteira sucederam-se, com escaramuças de ambos os lados. Rusa, porém, enfrentava uma Assíria no auge e conseguiu a muito custo manter seu reino livre, inclusive de invasões cimérias ao norte. Finalmente, com uma coalizão de chefes iranianos e outras tribos, o rei de Urartu decidiu desafiar o poder assírio.

Até hoje a região do norte do Irã é considerada quase impenetrável para exércitos. Além da barreira natural das montanhas Zagros, ao sul, a região leste do lago Urmia (atual cidade de Tabriz) era um terreno cheio de riachos que favorecia os defensores. Lá, Rusa preparou sua emboscada, bloqueou passagens pelas montanhas, deixando apenas um desfiladeiro livre, onde Sargão não teria tempo de pôr seus homens em posição de batalha.

ATRAVÉS DAS MONTANHAS

Enquanto isso, o Exército assírio avançava destruindo cidadelas e fortes. Sargão, porém, perdoava seus vassalos rebelados de forma a garantir sua longa linha de comunicações em território hostil (ele iria cobrir mais de 500 quilômetros nessa campanha). Rusa estava à metade dessa distância de sua capital. Caso perdesse, poderia se retirar para o conjunto de fortalezas nas montanhas e iniciar um combate de atrito por meses. Talvez por orgulho, ele não tomaria tal decisão.

O plano de Rusa foi descoberto pela companhia de batedores assírios e Sargão fez o inesperado. Cruzou uma das montanhas pelo topo, cerca de um dia de marcha forçada, talvez até noturna. Seus sapadores trabalharam ferozmente para criar caminhos para o contingente e os carros de combate. O resultado foi chegar ao campo de batalha por outro ponto. Os homens de Sargão estavam exaustos, mas o rei deu o exemplo, dando ordem de ataque e partindo com sua guarda pessoal de cavalaria contra um dos flancos de Rusa.

A história, nunca é demais lembrar, é escrita pelos vencedores. Segundo os registros assírios, o rei de Urartu, ao ver seu exército ser dizimado pela fúria de cavaleiros e carros de combate, teria recuado para seu campo montado em uma égua – homem algum fazia isso à época. Só se montavam garanhões. Rusa, posteriormente, cometeria suicídio. Sargão seguiu destruindo centenas de vilas até devastar a capital Tuspar, no lago Van.

Muzazira, ao sul, também foi saqueada. Só aí, o rei assírio retornou, triunfante, para sua capital, Assur. Urartu era passado, só mais um Estado vassalo. As fronteiras do Império assírio, contudo, continuariam sendo ameaçadas por outros e novos inimigos, até a derrocada final, um século depois, quando uma coalizão de babilônios, medas e citas tomou a então capital Nínive, em 612 a.C.

SARGÃO II (?-705 a.C)

Quem foi: rei assírio de 722 a 705 a.C.

Contingente: cerca de 50 mil homens

Baixas: número desconhecido

Após: seria morto anos depois em uma campanha no leste da atual Turquia. Seu filho Senaqueribe tornou-se o soberano.

RUSA I (?-713 a.C.)

Quem foi: rei urártio de 735 a 713 a.C.

Contingente: pouco mais de 50 mil homens

Baixas: seu exército deixou de existir

Após: com seu Estado em ruínas, cometeria suicídio. Seu filho Argishti II assumiu Urartu como um reino vassalo dos assírios.

 

A base de um exército moderno

Assírios criaram métodos ainda em uso

A utilização maciça de bigas e arcos, compostos pelos povos orientais, acontecia pelo menos desde a metade do segundo milênio antes de Cristo, como visto na Batalha de Kadesh, entre egípcios e hititas (Grandes Guerras nº 15). Mas foram os assírios, poucos séculos depois, que elevaram o uso de carros de combate a seu ápice, além de trazerem uma série de inovações militares. Suas bigas possuíam rodas raiadas, eram mais resistentes e leves e carregavam até quatro homens – o auriga (cocheiro), um arqueiro e dois lanceiros, que também protegiam o grupo com escudos.

Os carros significavam não apenas velocidade na batalha, mas facilidade para cobertura de amplas distâncias. Logo, campanhas mais longas trouxeram demandas logísticas. Segundo o historiador inglês John Keegan, o povo assírio criou soluções que passaram a ser utilizadas por impérios posteriores – algumas delas tendo sobrevivido até os dias atuais, como postos de suprimentos, linhas de abastecimento, uso de sapadores e engenheiros (para construção de pontes e até de barcaças para transporte fluvial), além de companhias de reconhecimento.

Toda essa metodologia colaborou para o sucesso do Império assírio, além, é claro, do fortalecimento de uma das principais peças do carro de combate, o cavalo. A criação de novas linhagens de eqüinos – maiores e mais fortes – possibilitou essa revolução. E logo outra viria a reboque de forma natural: a cavalaria. O Exército assírio possuía a sua, mas, ironicamente, seria batido no fim do século 7º a.C. por babilônios, medas e citas, estes últimos, famosos povos montados vindos da Ásia Central.

 

Para saber mais

LIVROS

Great Captains of Antiquity, Richard A. Gabriel, Greenwood Press, 2000

Perfis de seis comandantes da Antiguidade, entre eles, Sargão II.

O Oriente Próximo Asiático, Paul Garelli, V. Nikiprowetzky, Edusp, 1982

Origens e história dos povos que floresceram no Oriente Médio.