Submarinos do século 21

As primeiras máquinas de guerra

Carlos Emílio Di Santis Junior Publicado em 01/01/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Durante sua caminhada pela história das guerras, o homem desenvolveu diversas tecnologias no campo de batalha para superar seu oponente. Um bom exemplo é o submarino, a primeira máquina de guerra “invisível” da história que revolucionou as formas de combate. Esse poder de invisibilidade é uma característica muito difícil de superar, mesmo com o grande crescimento tecnológico dos sistemas de detecção. Ao longo dos tempos, a melhoria dos níveis de desempenho dos submarinos é admirável. E a chave do futuro está na propulsão.

A capacidade de manter-se submerso durante a maior parte do tempo, assim como o nível de silêncio na operação nortearam as pesquisas de engenheiros navais e cientistas. Os estudos com a energia atômica levaram os especialistas a desenvolver a propulsão nuclear, que permitiu aos submarinos ficar muito mais tempo debaixo d’água e aumentar sua velocidade. Porém, o ruído dessas máquinas, quando se exigia um desempenho maior, comprometia sua segurança em combate.

Outra desvantagem dos modelos nucleares é a economia. Como os custos operacionais e de produção de uma embarcação como essa são elevados, poucas nações têm acesso a esse tipo de tecnologia. Assim, os estudos para aperfeiçoar sua capacidade continuaram em outras áreas, em busca de soluções mais eficazes e viáveis financeiramente.

Hoje, existe o conceito de propulsão auxiliar, conhecida como AIP (Air Independent Propulsion), que trouxe uma melhoria significativa no tempo de submersão dos submarinos convencionais. As versões modernas utilizam um motor elétrico para impulsioná-los. A questão é que a energia para esse motor é fornecida por baterias elétricas, recarregadas por um motor a diesel que, por sua vez, necessita de ar para a combustão. E como o ar tem de ser capturado da atmosfera, o submarino precisa subir à superfície de tempos em tempos – geralmente a cada dois ou quatro dias –, um problema grave para esse tipo de equipamento, pois o torna mais vulnerável.

Os radares e sistemas de detecção modernos conseguem perceber o snorkel (tubo para emissão de gases) a grande distância e, assim, atacar o submarino. O novo sistema AIP, no entanto, fez esse intervalo aumentar para 13 ou 14 dias. Na versão mais popular desse recurso (existem três tipos de AIP), a energia elétrica que alimenta o motor é produzida por uma reação química entre o oxigênio em estado líquido e o hidrogênio, para depois ser armazenada em células de combustível PEM (Polymer Electrolyte Membrane). Esse sistema, além de permitir um significativo aumento no tempo de submersão, possui uma outra grande vantagem: não produz o ruído nem o calor do sistema convencional.

Os dentes do predador

Outra mudança importante na evolução do submarino é a flexibilidade de seu emprego como arma de guerra. Nos primeiros equipamentos, a capacidade de combate era direcionada exclusivamente para a batalha naval. Os submarinos podiam lançar torpedos contra outras embarcações ou ainda soltar minas e cargas de profundidade. Essa limitação começou a mudar na Segunda Guerra, quando surgiram alguns modelos equipados com mísseis ou mesmo pequenos hidroaviões. Mas o grande salto no poder de combate aconteceu na metade da Guerra Fria, quando eles ganharam mísseis antinavio, guiados por radar, e mísseis balísticos, com ogivas nucleares. Um submarino nuclear, armado com mísseis balísticos intercontinentais, pode lançar suas armas mesmo submerso – e sem ter de penetrar em águas territoriais. Virtualmente, é impossível impedir um ataque dessa natureza. Assim, pode-se dizer que o submarino nuclear com mísseis balísticos, também conhecidos como SSBN, foi um marco na evolução desses equipamentos. Hoje, os países que dispõem dessa arma são Rússia, Estados Unidos, China, França e Inglaterra (veja alguns modelos nos quadros em destaque).

Mais recentemente, com o advento dos mísseis de cruzeiro, a capacidade de ataque a alvos terrestres ganhou mais flexibilidade, pois armamentos como o Tomahawk podem ser equipados com ogivas convencionais – o que permite ataques táticos com menos danos à população civil. Eles disparam contra alvos a 1,5 mil quilômetros de distância e, dependendo da versão, esse alcance pode chegar a 2,5 mil quilômetros. A melhoria da margem de erro também é notória: nas ultimas versões, é de apenas 10 metros.

O sucesso da dobradinha entre os mísseis de cruzeiro e o submarino é tão grande que os Estados Unidos e outros países estão se equipando com eles. Mas os americanos foram mais longe: converteram dois SSBN da classe Ohio (lançadores de mísseis nucleares) em plataformas que disparam Tomahawks – com capacidade de lançamento de 154 mísseis.

Com relação aos torpedos, armamento clássico do submarino, a maior novidade é o russo VA-111 Shkval. Ele faz uso de um fenômeno físico chamado supercavitação, em que uma bolha de ar é produzida em volta do torpedo, mantendo-o fora de contato com a água e diminuindo, assim, a resistência hidrodinâmica. Resultado: o Shkval atinge uma velocidade de incríveis 360 km/h – enquanto um modelo-padrão da Otan navega a 60 km/h.

Outra novidade bastante interessante é a capacidade de os submarinos derrubarem uma aeronave, mesmo que submerso. Isso foi possível graças ao desenvolvimento do míssil Triton, guiado por fibra óptica, que é lançado em dupla pelo próprio lança-torpedos do submarino. Após o disparo, o Triton é guiado por um operador dentro do submarino, por meio de um sensor de TV infravermelho.

A seguir, um panorama dos maiores fabricantes de submarinos do mundo.

Alemanha

É um tradicional fabricante de submarinos convencionais. O modelo U-209, fabricado a partir do final de 1967, foi um dos maiores sucessos de exportação desse tipo de equipamento – 60 submarinos foram vendidos para 14 países, incluindo o Brasil. Seu sucessor, o U-214, é o mais moderno submarino convencional do mundo. Está entre os três modelos mais silenciosos da história, além de ser equipado com o mais eficiente método de propulsão AIP disponível, o sistema de células de combustível PEM. Esse sistema permite que ele permaneça submerso por três semanas, o que representa um avanço notável: sem ele, o U-214 poderia ficar apenas 72 horas debaixo d’água.

Rússia

O submarino convencional da classe Amur é uma versão da Lada, porém com características modulares que permitem sua modernização no futuro. Ele está preparado para o uso do sistema AIP de propulsão com células de combustível Kristall 27-E, que permite uma autonomia de submersão de 45 dias. Seu armamento é composto pelo poderoso torpedo VA-111 Shkval de alta velocidade e pelo míssil de cruzeiro de lançamento vertical Klub S, com versões anti-submarina (armada com um torpedo cujo alcance é de 50 quilômetros) e anti-superfície (para atacar navios ou alvos em terra com um alcance estendido para 300 quilômetros).

Além do Amur, a Rússia está construindo um submarino SSBN, para substituir seus caros modelos Typhoon. A nova embarcação será chamada de classe Borei, e a primeira versão, o Yury Dolgoruky, deve entrar em operação em 2007. O Borei terá 170 metros de comprimento. Será armado com 12 mísseis nucleares SLBM Bulava, o mais moderno do mundo, o que o tornará praticamente à prova de sistemas antimísseis.

França

A França desenvolveu o submarino convencional Scorpène, equipado com um sistema AIP conhecido como Mesma. Esse sistema produz energia elétrica para o motor por meio da combustão de etanol e oxigênio sob pressão. A vantagem é a maior potência obtida – cerca de 200 KW. Hoje, o Scorpène pode ser considerado o mais moderno submarino em serviço. A França também desenvolveu um novo submarino SSBN, o Le Triomphant, capaz de permanecer 60 dias submerso e atingir uma velocidade de 50 km/h. Ele transporta 16 mísseis balísticos intercontinentais M-45 e, no futuro, será armado com o M-51, de última geração.

Estados Unidos

Os americanos têm investido exclusivamente em submarinos com propulsão nuclear. A novidade é a incorporação dos submarinos da classe Virginia, os primeiros projetados após a Guerra Fria. Eles foram concebidos para substituir a classe Los Angeles, cuja frota está envelhecendo, e para complementar os novos modelos da classe Sea Wolf, que se mostraram excessivamente caros. O Virginia utiliza um reator nuclear General Electric S-9G, capaz de produzir 40 mil HP de potência e levar este moderno submarino a uma velocidade de 50 km/h, submerso. O Virginia, assim como o Sea Wolf, é capaz de realizar missões de reconhecimento eletrônico. Seus sensores podem interceptar e até interferir em sinais de comunicação.

Outra característica curiosa é seu poder de fogo. O Virginia tem 12 tubos verticais de lançamento de mísseis Tomahawk à frente da vela, além de mais quatro tubos de torpedos preparados também para lançar mísseis Tomahawk. Os 16 mísseis podem ser lançados simultaneamente, provocando uma “chuva” em território inimigo. O nível de ruído é bastante reduzido – é um dos submarinos nucleares mais silenciosos do mundo.

U-214 (Alemanha) - Ficha Técnica

Comprimento: 66 m

Largura: 6,3 m

Velocidade máx.: 47 km/h (submerso)

Profundidade: 400 m

Tripulação: 30

Armamento: 8 lançadores de torpedos de 533 mm (16 torpedos); 4 dos tubos de torpedo são lançadores de mísseis antinavio Sub Harpoon ou SM-39 Exocet; mísseis Triton antiaéreos

Propulsão: 1 motor MTU 16V 396

Amur 1650 (Rússia) - Ficha Técnica

Comprimento: 66,8 m

Largura: 7,1 m

Velocidade máx.: 44 km/h (submerso)

Profundidade: 300 m

Tripulação: 34

Armamento: 6 tubos para torpedos de 533 mm SHKVAL, mísseis de cruzeiro Klub-s e SS-N 16 stallion

Propulsão: Diesel elétrica com AIP

Scorpène (frança) - Ficha Técnica

Comprimento: 63,5 m

Largura: 5,4 m

Velocidade máx.: 45 km/h (submerso)

Profundidade: 350 m

Tripulação: 32

Armamento: 6 tubos para torpedos de 533 mm, mísseis antinavio SM-39 Exocet

Propulsão: Diesel elétrica com AIP

 

Para saber mais

LIVRO

Submarines: War Beneath the Waves, Robert Hutchinson, New Lines, 2006

O jornalista conta a história da evolução dos submarinos.