Thomas H. Miller: bravura no Vietnã

A incrível história do soldado americano que lutou no sudeste da Ásia e voltou cego - mas que, segundo ele, faria tudo de novo

Bernardo Weaver, de Washington Publicado em 01/09/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Thomas H. Miller era um universitário recém-formado, de 26 anos, quando foi lutar na Guerra do Vietnã, em novembro de 1967. Tinha pouco mais de um ano de casado e sua mulher esperava a segunda filha. Voltou um mês depois, a tempo de passar o Natal com a família. Mas voltou cego. Miller perdeu a visão depois de dar um passo errado, explodir uma mina e ser operado ainda em terras vietnamitas – o episódio também custou a vida de um sargento que estava com ele.

Ninguém sabe se o acidente foi resultado de uma armadilha vietcongue ou erro de cálculo dos fuzileiros americanos que plantaram os explosivos. Pior: Miller pode ter perdido a visão por falha médica durante uma cirurgia após a tragédia. Aos 64 anos, completamente cego e usando muletas, o veterano prefere acreditar na primeira hipótese e diz que faria tudo de novo, mesmo sabendo das conseqüências.

Até o fim da guerra, em 1975, ele defendeu a posição do governo americano de lutar. Diz que se sentia ofendido com os protestos a favor da paz no campus da universidade onde estudava e ainda hoje acredita que os Estados Unidos saíram vitoriosos do Vietnã, apesar das evidências.

Desde 1994, Miller trabalha como diretor-executivo da Associação dos Veteranos Cegos (BVA, da sigla em inglês Blinded Veterans Association) dos Estados Unidos, em Washington, D.C. A organização tem 10 mil membros, entre veteranos que ficaram cegos em combate ou que perderam a visão anos depois da guerra. Antes desta entrevista para Grandes Guerras, na sede da BVA, Miller defendeu no Congresso americano um projeto para aumentar a verba federal das associações dos veteranos, que, no ano fiscal de 2007, será de 80,6 bilhões de dólares.

Como foi que o senhor recebeu a notícia de que teria de lutar no Vietnã?

Nos três primeiros anos da guerra, eu estava na universidade e pude adiar a convocação. Uma semana depois de graduarme, fui chamado para o treinamento militar. Escolhi trabalhar com os fuzileiros navais, porque eles sempre me pareceram mais radicais e glamourosos. E têm os uniformes mais bonitos também! (risos)

O senhor queria ir para a guerra?

Acho que ninguém gosta de ir para a guerra. Minha mulher engravidou da nossa segunda filha (ao todo, eles tiveram três: duas meninas e um menino) pouco antes de eu viajar para o Vietnã, em novembro de 1967. Mas havia feito todo um treinamento de engenharia de guerra e estava ansioso para ser posto à prova. Meus sentimentos eram muito contraditórios naquela época.

Qual era sua função no Vietnã?

Fui para construir pontes. Eu era segundo-tenente, líder de pelotão em Danang, cidade na parte central do Vietnã. Mas só fiquei lá por um mês.

O que aconteceu?

Pisei numa mina e ela explodiu. O próprio Exército americano enterrava minas e a caixa com os pinos de segurança dessas minas no campo. Quando um outro grupo nosso chegava ao local para transformar o campo minado em base, procurava a caixa e depois desenterrava mina por mina. Todo o processo era planejado por técnicos e engenheiros americanos. Depois de construir uma ponte, fui para o campo seguinte retirar minas. A primeira missão era achar os pinos de segurança. Quando chegamos ao local onde a caixa estaria, uma mina, que não devia estar ali, explodiu, matando um sargento e me deixando muito ferido. Era comum os vietcongues ficarem à espreita quando enterrávamos as minas, para descobrir o lugar onde estava a caixa com os pinos de segurança. Eles plantavam várias bombas em volta da caixa. Não acredito que meu acidente tenha acontecido por erro de um engenheiro ou técnico dos fuzileiros navais americanos. Prefiro acreditar que perdi a visão porque um vietcongue plantou uma mina. (suspira) Com certeza, foram os vietcongues.

O senhor lembra-se do que aconteceu depois do acidente?

Foi tudo muito rápido. Levantei os braços e pensei num jeito de cair sem me machucar. Voei bem alto, uns dois metros mais ou menos. Fui resgatado por um helicóptero Chopper. Não estava totalmente consciente. Quando acordei no hospital, lembro-me de que minhas pernas pareciam queijos suíços. As duas estavam muito feridas (além da cegueira, Miller precisou operar as pernas e usa muletas). Só fui acordar dois ou três dias depois do acidente.

E para onde o senhor foi levado?

Quando acordei ainda estava em Danang, num galpão com centenas de camas. Eu sofri uma craneotomia, que terminou por remover células nervosas do meu cérebro. Tempos depois, numa briga, minha mulher falou que achava que eles tinham removido todas as células do meu cérebro – e pediu o divórcio após 18 anos de casamento. Mas a verdade é que fiquei apenas cego, não tive nenhum outro dano cerebral. No dia 13 de dezembro de 1967, fui de maca de Danang até as Ilhas Gwan, depois passei por Japão, Alasca, San Francisco e Saint Louis. Desejei que o avião caísse. Ainda bem que não aconteceu... Em Saint Louis, fui de helicóptero para um hospital perto da minha casa, o Hospital de Veteranos de Detroit. Naquela época, o soldado ficava no hospital mais perto de casa. Passei quatro meses e meio nesse hospital, entrando e saindo apenas para visitar minha família. Depois fui liberado. Acho que, se tivesse recebido um tratamento melhor, hoje poderia enxergar.

O senhor acha que foi descaso médico?

Não. Mas acho que, se fosse hoje, esse acidente não teria me deixado cego. O socorro seria mais rápido e eficiente.

Como foi o reencontro com a família?

Muito emocionante e difícil. Minha família nunca tinha lidado com ninguém cego. Minha mulher me deu um apoio fenomenal. Quando nossa segunda filha nasceu, ela dizia que, se eu podia trocar fraldas antes, eu poderia trocar fraldas cego também. Dessa eu não pude escapar! E olha que naquele tempo as fraldas eram de pano e eu tinha que pôr alfinetes!

Alguém reagiu mal?

Nada muito marcante. Mas lembrei agora que uma estudante brasileira veio fazer intercâmbio e ficou na minha casa muito tempo antes da guerra, em 1958. Ela era linda, nascida e criada no Rio de Janeiro. Eu era mais novo, tinha uns dois anos a menos que ela, e só ficava admirando-a. Minha família manteve contato com essa moça por algum tempo, mas depois as cartas foram rareando. Quando informamos a ela que eu tinha me ferido na Guerra do Vietnã, ela não retornou mais nenhuma carta.

Como o senhor lidava com os protestos da esquerda, dos hippies e universitários contra a guerra?

Eu me sentia muito ofendido. No início dos anos 70, ia para a universidade e ouvia protestos do lado de fora da sala de aula. As pessoas queimavam a bandeira americana e seus cartões de convocação no meio do campus. Aquele não era um lugar confortável para um veterano patriota como eu. Eu não entendia tanta revolta. Mais pessoas morrem nas estradas americanas todo ano do que todas as baixas da Guerra do Vietnã. Nem por isso você vê gente queimando carteiras de habilitação!

O senhor demorou para superar o trauma do acidente?

Durante os quatro primeiros meses, no hospital, eu ficava fazendo uma lista mental das coisas que nunca mais poderia fazer. Existem coisas diferentes que o cego pode fazer. Aprendi braile, a me mover de maneira segura. Eu datilografo e faço minha própria comida. Claro que foi um acidente horrível. Mas você pode viver com isso e levar uma vida produtiva. Abri um negócio com meu cunhado, falimos e, então, decidi fazer mestrado em Serviço Social. A partir daí, passei a trabalhar e aceitar melhor minha situação.

Quando o senhor entrou para a Associação de Veteranos Cegos?

Entrei em 1968. Logo, começaria a trabalhar com veteranos também. De 1973 a 1979, fui assistente social em um hospital de veteranos do Michigan. Eu fazia terapia mental com os incapacitados cerebrais ou loucos. Passei de consumidor para provedor! (risos) Em 1979, fui para o Texas, ser chefe da Clínica de Reabilitação de Veteranos Cegos de Waco. Sete anos depois, virei diretor da Associação de Veteranos Cegos em Washington, D.C. Em 1994, fui promovido para diretor-executivo e continuo aqui até hoje.

Como é o seu trabalho na Associação de Veteranos Cegos de Washington?

Basicamente, é lobby político. Toco a sede nacional com um orçamento de pouco mais de 1,6 milhão de dólares. Temos 10 mil membros, e muitos deles fazem contribuições também. Mas, claro, esta é apenas uma das associações de veteranos do país. Existem muitas outras, com orçamentos maiores. O governo americano gasta mais de 80 bilhões de dólares com veteranos. Inclusive, hoje dei meu testemunho no Congresso americano, no subcomitê de guerra. Pedi um aumento no orçamento geral para os veteranos. Há veteranos que não têm cobertura total de saúde. E os números continuam aumentando, já que a Guerra do Iraque faz novos veteranos todos os meses.

O que o senhor sentiu quando descobriu que os Estados Unidos perderam a Guerra do Vietnã?

Eu não diria que nós perdemos a Guerra do Vietnã. Acho que os Estados Unidos ganharam. Apenas desistimos de lutar por mais tempo. O mesmo acontece no Iraque. Se os soldados americanos saírem de lá, o país vai virar um caos. Acho que os iraquianos ainda não têm condições de governar sem a presença militar americana. É melhor que lutemos essa guerra lá do que em solo americano. Os terroristas não podem ter acesso a armas de destruição em massa ou a armas nucleares.

Se o senhor pudesse voltar no tempo, teria feito alguma coisa diferente?

Não, não teria. Eu teria ido para o Vietnã, mesmo sabendo das conseqüências que isso traria à minha vida. Foi uma guerra necessária, assim como a guerra no Iraque é necessária.

 

Para saber mais

www.bva.org - Site da Associação de Veteranos Cegos