Veja as fotos de Augusto Malta, o fotógrafo que retratou a Rio de Janeiro da Belle Époque

Contratado pela prefeitura, Augusto Malta registrou a impressionante transformação da cidade numa metrópole sob os moldes europeus

Bianca Nunes Publicado em 20/06/2012, às 16h56 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Augusto Malta
Augusto Malta - Arquivo Aventuras

Em 1900, o vendedor de tecidos Augusto César Malta de Campos recebeu uma proposta de um freguês: trocar sua bicicleta, que usava para levar amostras às casas das madames cariocas, por uma pequena máquina fotográfica. Embora parecesse maluca, a permuta mudou a vida do comerciante. Após três anos fotografando amigos, familiares e o cotidiano da cidade por conta própria, ele foi empregado como fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro. Durante 33 anos, registrou as principais obras que modernizaram a capital e fizeram dela a vitrine brasileira da Belle Époque.

Augusto Malta nasceu em 1864, em Alagoas, e se mudou para o Rio em 1888. Trabalhou como auxiliar de escrita, foi promovido a contador e mais tarde abriu seu próprio armazém, que faliu pouco tempo depois. Em 1903, quando conseguiu se estabilizar como vendedor de tecidos - mesmo com a câmera no lugar da bicicleta -, foi levado por um amigo para registrar as primeiras obras do novo prefeito, Francisco Pereira Passos. Empolgado com o resultado, Passos criou um cargo exclusivo para Malta: ele deveria documentar o antes e o depois das obras públicas, bem como sua execução e inauguração, além de festas organizadas pela prefeitura e demais eventos que acontecessem na cidade.

Foto: MIS-RJ

As construções e reformas - como as avenidas Central (hoje Rio Branco), Beira-Mar, Passos, o Passeio Público, o prédio atual da Fundação Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal - eram um grande projeto da prefeitura em conjunto com o governo federal para reurbanizar a capital e moldá-la como uma verdadeira metrópole europeia. "Malta registrou a transformação do espaço urbano do Rio. Era um período em que boa parte dos cortiços foi demolida, começaram a surgir as primeiras favelas, muita coisa mudou", afirma Regina da Luz Moreira, historiadora cuja dissertação de mestrado aborda o fotógrafo e a construção da memória da cidade. "Deve-se a Augusto Malta a mais importante documentação fotográfica do Rio de Janeiro das três primeiras décadas do século 20", diz Boris Kossoy no Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro. No verbete dedicado a ele, aliás, o autor sustenta que o piauiense aprendeu parte de seu ofício com ninguém menos que Marc Ferrez (1843-1928), um dos principais fotógrafos brasileiros de todos os tempos.

"Numa época em que a maioria dos fotógrafos trabalhava em estúdios ou fazia imagens um pouco artificiais do Rio, ele fotografava cenas sociais. Além das obras, havia o cotidiano da cidade, prostitutas, escritores, personalidades", afirma George Ermakoff, autor do livro Augusto Malta e o Rio de Janeiro - 1903-1936.

A praça XV de Novembro (antigo largo do Paço), no Centro do Rio, em 1906: mais de 600 prédios seriam destruidos para reformular toda a região desde o início (foto: Augusto Malta)

Malta atuou quase sempre sozinho, sem ajudantes. Além da função na prefeitura, ele fazia trabalhos particulares, editava cartões- postais e fazia registros sob encomenda de empresas como a Light. O fotógrafo assinava todos os negativos de vidro com tinta nanquim, de trás para a frente, e sempre colocava data, local e uma pequena legenda na imagem. Ele chegou a publicar um Álbum Geral do Brasil, com retratos inéditos de cidades brasileiras - ele clicou, além do Rio, municípios de Minas Gerais, Alagoas e São Paulo. O fotógrafo usava equipamentos ainda do fim do século 19, mas recorria a chapas de vidro de maior sensibilidade. "Isso fazia com que ele conseguisse colocar a câmera nas ruas, apesar de grande e com tripé, e captar aquele momento. A linguagem dele se beneficiou disso", diz o coordenador da área de fotografia do Instituto Moreira Salles, Sérgio Burgi. Embora não tenha trabalhado exatamente como repórter fotográfico, Malta era membro da Associação Brasileira de Imprensa e cedeu imagens para jornais e revistas. Segundo Ermakoff, ele tinha o apreço dos jornalistas. "Os repórteres faziam ponto em sua sala para saber da agenda do prefeito. Era ele quem os recepcionava."

Em 1936, Augusto Malta se aposentou e deixou o filho Aristóginton como substituto na prefeitura. Em casa, ele continuou a se dedicar à fotografia até poucos anos antes de falecer, em junho de 1957. Amalthea, filha do fotógrafo, conta que ele trabalhou até quase os 90 anos e morreu pobre, apesar de não ter deixado dívidas. Em depoimento gravado para o Museu da Imagem e do Som (MIS-RJ), ela descreve o pai como um homem muito ocupado, mas nem por isso desatento: "No fim do mês, queria saber as notas. E eu fazia esforço para não ser observada". Augusto Malta teve duas esposas e nove filhos - cinco do primeiro casamento e mais quatro do segundo. Seu legado compreende mais de 30 mil negativos - infelizmente, boa parte foi deteriorada pela ação do tempo ou má conservação. Seu acervo está espalhado em várias instituições, como o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (que mantém um portal em homenagem a ele na internet), a Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles.


Saiba mais


Site


ims.uol.com.br

Parte do acervo de Malta, além de sua biografia, estão disponíveis para consulta no site do Instituto Moreira Salles.

Livro

Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936, George Ermakoff, G. Ermakoff Casa Editorial, 2005

Com 300 imagens, o livro cruza as histórias de Malta e do Rio.