Veja o trabalho de Vicenzo Pastore, fotógrafo imigrante que registrou a São Paulo de 1920

Vincenzo Pastore retratava as famílias ricas de São Paulo. Nas horas vagas, registrava nas ruas o cotidiano das pessoas comuns. Assim, mostrou como era a vida, de fato, na metrópole que nascia há 100 anos

Tiago Cordeiro Publicado em 20/06/2012, às 15h47 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

foto engraxates
foto engraxates - Arquivo Aventuras

Quando morreu, em 1918, o italiano Vincenzo Pastore era um dos fotógrafos mais conhecidos de São Paulo. Tinha um estúdio disputado e era famoso pelas imagens publicadas nas revistas ilustradas mais lidas da região. Mas seu legado era pouco marcante. A exemplo de dezenas de profissionais que viviam de registrar a vida da alta sociedade paulistana, como Michelle Rizzo e Max Rosenfeld, seus registros não iam muito além das fotografias de batizados ou casamentos. Isso até 1997, quando veio a público um lote de 137 imagens. Elas mostravam um lado marginal da cidade: engraxates, mendigos, vendedores ambulantes. "De repente, Vincenzo estava vivo de novo. Sua obra tinha uma importância incomum e inimaginável", diz o pesquisador Ricardo Mendes, coordenador do site Fotoplus. "Não existe registro parecido da rotina nas ruas de São Paulo no início do século 20. É quase um milagre que tantas fotografias tenham sido preservadas."

Foto: Vicenzo Pastore

Pouco se sabe sobre a biografia de Pastore. Ele nasceu na cidade italiana de Casamassima, em 1865. Em 1894, fez parte da leva de 750 mil imigrantes do país que chegou ao Brasil naquela década. Veio com a esposa, dez filhos, duas tias, duas sobrinhas e a sogra. Instalou-se no Centro de São Paulo e abriu um estúdio fotográfico na rua da Assembleia, número 12. O serviço que ele oferecia era muito comum à época: retratos de família. "As pessoas com boas condições financeiras iam aos estúdios para registrar seus momentos mais marcantes", diz Carlos Alberto Cerqueira Lemos, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Vincenzo foi bem sucedido ao inventar um formato de revelação em forma de losango (por ele chamado de "retrato mimoso") que atraiu clientela, em parte formada por outros italianos que queriam enviar imagens para a família que ficara na Europa. Mais da metade dos moradores de São Paulo nesse período era de imigrantes. Apresentadas para a casa real italiana, as fotos de conterrâneos e figuras exóticas, como índios vestidos a caráter, levaram o rei Humberto I a lhe conceder a comenda de cavalheiro.

O ofício incluía capturar grandes paisagens das capitais (como fazia Aurélio Becherini, contratado da prefeitura paulistana), o que rendeu a Pastore alguns prêmios em concursos no Rio, e trabalhar sob encomenda para as muitas revistas que surgiam naquele momento. Vincenzo se especializou em registrar a alta sociedade para as páginas das publicações Vida Moderna e A Cigarra.

Mas o que o diferencia e lhe garantiu um lugar na posteridade era o que ele fazia nas horas vagas. Com uma câmera portátil (de aproximadamente 5 quilos) em mãos e dois ajudantes, o italiano saía pelas ruas para flagrar as pessoas comuns em situações do cotidiano. Assim, suas lentes registraram as faces autênticas de uma cidade em ebulição, que caminhava para deixar de ser a São Paulo de Piratininga para se tornar a Pauliceia Desvairada elogiada pelos escritores modernistas da década de 1920. "São Paulo tinha bondes elétricos desde 1900, indústrias em ascensão e obras arquitetônicas importantes, como o viaduto do chá", afirma o pesquisador Ricardo Mendes. "Ao mesmo tempo, ainda era marcada pela grande quantidade de cortiços, por uma população de ex-escravos perambulando pelo Centro e pelo grande número de caipiras simples, recém-chegados do interior."

Quando veio para São Paulo, Pastore encontrou um município com 65 mil habitantes - o Rio de Janeiro, capital do país, tinha 520 mil. A cidade que ele fotografou há 100 anos já alcançara 300 mil moradores. Crescia a passos largos, empurrada pela riqueza gerada nas lavouras de café a partir do fim do século 19. Mas quem poderia imaginar que hoje, 456 anos após a fundação, seriam 11 milhões?

A dedicação de Pastore nos intervalos de trabalho indica que ele era uma pessoa inquieta. Mudou seus estúdios de endereço diversas vezes (o mais famoso era na rua Direita, uma das mais movimentada à época. Abaixo, à direita, vê-se o painel de retratos exposto na entrada, enquanto desfila a procissão). Na última visita à terra natal, criou o estúdio Ai Due Mondi na cidade de Bari. Mas o momento era péssimo: ele chegou em 1914, pouco antes do início da Primeira Guerra. Logo voltaria para São Paulo, onde viria a morrer aos 53 anos, vítima de um grave erro médico. Ele seria submetido a uma cirurgia de hérnia, mas não resistiu à anestesia com clorofórmio.

O estúdio da família foi deixado aos cuidados de um genro, que não levou adiante a obra do fotógrafo. "Coube a minha mãe receber os retratos que meu avô se divertia em tirar perambulando pelas ruas de São Paulo", diz o pianista Flávio Varani, filho de Maria Lygia, caçula de Pastore. Varani preservou as cópias (os negativos de vidro se perderam) em uma caixa de charutos de 30 por 40 cm e as repassou ao Instituto Moreira Salles (IMS), onde está o acervo hoje. Assim, uma cidade desconhecida ganhou luz. "Pastore sentiu que estava diante de um espetáculo inédito, muito novo, e que estava em vias de desaparecer. Ele pega São Paulo exatamente na hora em que ela vai dobrar a esquina e se tornar moderna, mas ainda tem todas as marcas do lugarejo selvagem", afirma Samuel Titan Jr., coordenador executivo cultural do IMS. "Criada nas décadas de 1900 e 1910, sua obra é, para o município, uma espécie de epílogo do século 19 e, ao mesmo tempo, prefácio do século 20."


Saiba mais


LIVROS


Na Rua: Vincenzo Pastore, Rodrigo Lacerda (org.) e outros, IMS, 2009

Seleção de 43 imagens com ensaio de apresentação de Antonio Arnoni Prado.

Aurélio Becherini, José de Souza Martins, Rubens Fernandes Junior, Angela C. Garcia, Cosac Naify, 2009

Uma seleção de imagens do fotógrafo italiano contemporâneo de Vincenzo Pastore que registrou as mudanças na paisagem urbana de São Paulo.