Verdades de Vera Barreto Leite

Nem só do glamour parisiense viveu nossa primeira grande modelo internacional. Aos 71 anos, Vera Barreto Leite recorda os tempos do desbunde e conta como foi torturada pela ditadura

Lira Neto Publicado em 01/02/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Ela era a número 1, a queridinha de Coco Chanel. Magra, inteligente, dona de um senso de humor corrosivo, tinha Paris inteirinha a seus pés. Milionários babavam por ela. Mulheres invejavam-lhe a beleza esguia, o porte altivo. Todos, sem exceção, ficavam hipnotizados por seu charme. Nos anos 50, Vera Barreto Leite, com o nome artístico de Vera Valdès, foi a primeira modelo brasileira a fazer sucesso no exterior. Desfilou para estilistas como Dior e Cardin. Era amiga do psicanalista Jacques Lacan, do poeta Vinicius de Moraes, do cineasta Louis Malle. Com o diretor, participou do clássico da Nouvelle Vague 30 Anos Esta Noite, de 1962.

Filha da atriz Mari a Barreto Leite, mudou-se para a França aos 16 anos, em 1953, quando a mãe trabalhava na embaixada brasileira. Bebeu café e absinto com os existencialistas, namorou meia cidade, assistiu de sua janela ao rebuliço estudantil que resultaria no Maio de 68. Entre idas e vindas ao Brasil, conheceu o pessoal do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), ficou amiga de Cacilda Becker e casou pela primeira vez, com o ator Luiz Linhares, com quem teve uma filha, Paula. Voltou a morar no país na época mais difícil da ditadura. Casou de novo, com o fotógrafo Pedro de Moraes – filho de Vinicius –, que lhe deu a segunda filha, Mariana. Viveu o auge do desbunde, da esquerda festiva, da Ipanema movida a sexo, drogas e rock’n’roll. Trabalhou em TV e cinema. Quando a barra pesou, foi presa e torturada. Saiu da cadeia para o exílio.

Aos 71 anos, Vera mora em um apartamento alugado, no centro de São Paulo. Não guarda em casa quase nenhuma foto do tempo das passarelas. Parte perdeu na ditadura. Outras, jogou fora – não gosta de viver de lembranças. Continua ativa e, hoje, trabalha no Teatro Oficina, com o diretor José Celso Martinez Corrêa, seu guru. “O Zé Celso é a maior prova de que ainda é possível viver da ousadia”, diz.

História – Como começou sua história de modelo internacional?

Vera Barreto Leite – Eu era uma mocinha magricela e estudava no Rio, em uma escola protestante. Filhos de pais separados, como eu, não podiam freqüentar escolas católicas. Tinham medo de que nós contagiássemos as crianças de “boa família”. No meu caso, isso até fazia algum sentido (risos). Levei pau na escola dois anos seguidos. Meu pai decidiu que eu devia viajar, para aprender línguas, conhecer outras culturas. Fui para Portugal. De cara, fui expulsa do colégio de lá.

 

Por qual motivo?

Minha mãe havia dito que, quando completasse 14 anos, poderia finalmente usar batom. Pintei a boca de vermelho, pus um vestido novo, com um discreto decote, e fui para a escola. Subi a escadaria do colégio, exibida, quase desfilando. Minhas amiguinhas lusitanas ficaram boquiabertas. “Estás louca, ó rapariga?”, perguntavam. A diretora não gostou da cena, disse que eu era uma indecente. Respondi que a indecência só existia na cabeça dela. Fui expulsa. Mas foi ali, pela primeira vez, que olhei para mim mesma desfilando e disse: “Huuum, esse negócio é interessante...”

 

A carreira começou logo depois?

Fui à França, onde mamãe trabalhava. Estava em Bordeaux, em um jantar sofisticadíssimo, quando um homem virou-se para mim, me olhando de cima abaixo, e falou: “Êtes-vous manequin?” Perguntei à mamãe o que significava “manicán” (risos). Minha mãe me mostrou uma revista de moda e explicou: “É isso aí”. Uau! Fiquei extasiada. Quando mamãe foi transferida para Paris, apareceu minha primeira chance.

Foi quando você desfilou para a estilista Elsa Schiaparelli?

Uma amiga tinha uma prima que trabalhava com Schiaparelli. Insisti tanto que mamãe me levou lá. Fui fazer um teste e, no camarim, me senti uma coisinha mixuruca na frente daqueles mulherões. Na hora de me trocar, fiquei vermelha de vergonha, sem querer tirar a combinação. As outras sentiram meu incômodo e caíram na gargalhada. Pularam em cima de mim e me deixaram completamente pelada. Depois me vestiram, me puseram um chapéu, um salto altíssimo. Quando Schiaparelli me viu, soltou também uma gargalhada: “A menina parece que está andando sobre ovos”. Mas gostou de mim, pois me arranjou trabalho. Já no comecinho, fui desfilar para as princesinhas da Inglaterra, com uma coleção idealizada especialmente para elas. Depois fui trabalhar com Christian Dior e Chanel.

É verdade que você se tornou a modelo preferida de Coco Chanel?

Nós ficamos muito próximas. Ela me ensinou muita coisa. Mas eu era tão menina que ela às vezes me punha de castigo. Eu fazia mil estripulias, colocava rabo de papel nas manequins, nas clientes. Era uma moleca.

Hoje as tops internacionais ganham fortunas. Na sua época era assim?

Muitas colegas eram ricas, mas não porque faturassem fortunas. Quase sempre era porque arranjavam amantes e maridos cheios da grana.

E você ganhou um bom dinheiro?

Vivia bem. Tinha um bom apartamento, viajava à vontade. Ganhava dinheiro o bastante para não pensar nele. Mas também gastava muito. Nunca me preocupei em juntar grana. E detestava a burocracia internacional, passaporte, vistos. Muitas vezes, vivi e trabalhei como clandestina. Era mesmo uma louca (risos).

E quanto aos homens, era muito cortejada?

Um ricaço se apaixonou por mim. Nem lembro o nome dele. Era um americano que prometeu me presentear com uma jóia por dia. Curiosa, fui jantar com ele. Pedi para ir ao banheiro e, quando passei pelo quarto, vi um pijama vermelho, horroroso, sobre a cama. “Ah, com esse pijama aí, não vou encarar”, pensei. O cara era gentil. Tinha medo de magoá-lo, coitado. Quis me livrar dele, só não sabia o que dizer. Minha mãe me deu uma idéia genial: “Diga para o sujeito que sua mãe é comunista”. Deu certo. O homem ficou horrorizado. Sumiu.

Você morou em Paris numa época muito rica culturalmente: o existencialismo, a Nouvelle Vague...

A gente vivia ali, no Quartier Latin, junto com escritores, intelectuais, cineastas, atores, atrizes. Passávamos as noites nos bares e ficávamos até 5 da manhã, quando o metrô começava a funcionar. Eu pegava as roupas da Schiaparelli emprestadas e assim, com aqueles modelos extravagantes, ia para os bares e cafés. Numa dessas, conheci o Ruy Guerra, que chegara de Moçambique para estudar cinema na França. Foi meu primeiro namorado. Com ele, deixei de ser a menininha virgem e inocente.

 

Como surgiu o convite para fazer o filme 30 Anos Esta Noite, de Louis Malle?

Eu estava num café e alguém falou sobre um dos filmes dele, Les Amants. Comentei: “Ah, é um filme chatíssimo”. A amiga do lado me cutucou. Um sujeito que estava do outro lado da mesa me perguntou por que eu achava isso. Só depois soube que o cara ali, na minha frente, era o próprio Louis Malle. Acabamos ficando muito amigos.

 

Só amigos?

Amigos, amantes, aquelas coisas. Ninguém era de ninguém.

 

Até o momento em que você resolveu casar...

Pois é. Meu pai me presenteou com uma passagem de férias ao Brasil. Vim e, aqui, logo me enturmei com o pessoal de teatro. Fiquei amiga de Cacilda Becker e conheci o ator Luiz Linhares. Me apaixonei por ele, casei, tive uma filha, Paula. Mas foi um casamento curto. A separação foi dolorosa e o Linhares deu um jeito de ficar com Paulinha, contra minha vontade. Voltei à Europa sozinha e continuei a trabalhar na Chanel. Um belo dia estive no Brasil e não hesitei: levei a menina comigo, sem que o pai soubesse. Em Paris, Paulinha começou a apresentar um déficit de aprendizagem. Fiquei sem saber o que fazer e pedi conselhos a um amigo psicanalista. Era o Jacques Lacan. Ele sugeriu que, para a cabeça de minha filha, o melhor era voltarmos ao Brasil. Decidi retornar de vez.

 

É verdade que deixou por lá um Rotschild derretido por você?

O homem era casado. Ele me deu um apartamento de presente, como lembrança pelo romance. Era um imóvel bonito, que hoje estaria valendo uma baba. Mamãe ficou um tempo por lá. Transformou aquilo numa espécie de comunidade alternativa. Pôs umas 300 pessoas lá dentro. Imagine a loucura, estávamos em pleno maio de 68, em Paris. Quem andava muito ali, nessa época, era Vinicius de Moraes.

 

Foi quando você conheceu o filho de Vinicius, Pedro, seu segundo marido?

Vinicius era grande amigo de minha família. Pedrinho era moleque, seis anos mais novo do que eu. Mas se achava o tal. Ficava com ódio quando eu passava a mão na cabeça dele. “Pô, Vera, eu não sou mais nenhuma criança”, reclamava. Quando avisei que vinha embora, o Vinicius estranhou: “Verinha, a coisa tá feia por lá, a ditadura, o AI-5...” Expliquei que era o melhor para minha filha. O Vinícius brincou: “Então vá para lá e case com meu filho”. Eu ri. Mas não deu outra. Casei. Ficamos sete anos juntos. Com ele, tive minha segunda filha, Mariana.

 

E como foi a volta para o Brasil, em plena ditadura, depois de viver o clima libertário da Paris dos anos 50 e 60?

Não foi fácil. Fui em cana, sob a acusação de portar um papelote de cocaína. Depois, foram na minha casa e reviraram tudo. Sabiam que tinha amigos e parentes de esquerda, alguns envolvidos com a luta armada. Fiquei um mês trancafiada.

O que você sofreu na prisão?

Tudo.

Inclusive tortura?

Sim.

 

De que tipo?

As clássicas. Choque elétrico, pancada, tudo o que você imaginar. Queriam que eu desse nomes. Não abri o bico. Mas aquilo mexeu muito comigo. Certo dia, ouvi dois caras conversando do lado de fora da cela: “A mulher aí tá pirando”. Pirei mesmo. Passei um ano lelé. Fiquei paranóica, com medo de tudo. Foi o Rubem Braga quem conseguiu me tirar da cadeia.

 

O que aconteceu depois da prisão?

Fui para o exílio. Voltei a Paris. Desbundei total. Tomei ácido. Enfiei o pé na jaca. Para enfrentar aquela loucura em que havia se transformado o país, só ficando doida também.

 

Você voltou após a anistia. Como fez para reconstituir sua vida?

Antes de voltar, sonhei que metralhava os caras que haviam me feito sofrer. Meu analista disse: “Pronto. Acabou o trauma. Foi um sonho libertador. Você pode voltar ao Brasil”. Aqui, para ganhar dinheiro, virei muambeira de grife. Há um mercado paralelo no mundo da alta moda. Existem pessoas que dão milhares de dólares para furar a fila e adquirir, em primeira mão, a novidade que o estilista famoso lançou na Europa. Eu tinha amigos lá e conhecia um monte de grã-finos aqui. Durante um bom tempo, me sustentei assim. Pegava dinheiro emprestado, ia a Paris, comprava quatro modelos exclusivos, voltava, montava um bazar e levava a vida.

 

Hoje você consegue rir disso tudo...

É. Mas tem momentos que me travam. Teve muita dor. A morte daquela moça, a Sônia, namorada do Stuart Angel, filho da Zuzu Angel. Foi muito duro aquilo tudo... (longa pausa). Mas tem muita coisa boa também. É disso que gosto de lembrar.

 

Qual a melhor lembrança que guarda dessa história toda?

A coragem daquela geração. Saber que, apesar de tudo, vivemos plenamente a nossa ousadia.

 

Saiba mais

Livro

Ela É Carioca – Uma Enciclopédia de Ipanema, Ruy Castro, Companhia das Letras, 2000

Em forma de verbetes dedicados a pessoas e lugares que são ícones do famoso bairro, tem um texto dedicado a Vera.