Visconde de Mauá: Em defesa da iniciativa privada

Forçado a abrir falência, o visconde de Mauá escreve um libelo contra a burocracia

Sergio Amaral Silva Publicado em 01/05/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Irineu Evangelista de Sousa, o visconde de Mauá (1813-1889), tinha 9 anos quando começou a trabalhar no comércio. Com 22, já era sócio do patrão. Aos 30, construiu sua primeira indústria. Quando completou 40 anos, tinha se tornado o primeiro grande industrial do Brasil, dono de um conglomerado de 17 empresas, com atuação em seis países. Entre seus negócios estavam a primeira estrada de ferro do Brasil, uma companhia de iluminação a gás, uma empresa de navegação e fazendas em vários estados, do Pará ao Rio Grande do Sul, além de bancos no Uruguai, na Argentina e na Inglaterra – em Londres, Mauá era mais respeitado que no Rio de Janeiro.

O progresso espantoso do visconde não dependeu do governo imperial, que nunca encarou bem seu estilo agressivo e demonstrou satisfação com a grave crise financeira que ele enfrentou a partir da década de 1850. Depois de 25 anos lutando contra um cenário externo turbulento e contra as regras comerciais impostas pelas autoridades brasileiras, ele resolveu liquidar seus negócios de forma amigável. A tentativa de solucionar a questão esbarrou em uma exigência puramente burocrática: para fechar as empresas com a concordância dos credores, era preciso que todos eles se declarassem de acordo pessoalmente, e não por carta. Como muitos deles estavam no exterior, isso não foi possível e, em 1878, a falência foi decretada. Amargurado e recolhido à fazenda Atalaia, em Sapopemba, Mauá escreveu, em 15 dias, uma Exposição do Visconde de Mauá aos Credores de Mauá & Cia. e ao Público. O texto tinha o objetivo de explicar aos prejudicados que a causa da falência foi a excessiva interferência do Estado brasileiro em negócios que deveriam ser particulares.

Com clareza e objetividade, Mauá resume no livro seus 56 anos de atividade comercial. No decorrer do relato, coloca em xeque a distinção entre público e privado, e com isso antecipou um debate que ainda hoje não está esgotado. O texto ganhou várias reedições com o título de Autobiografia e transformou-se em clássico. Para o economista Celso Furtado, esse é um dos 15 livros obrigatórios para entender melhor o Brasil.