Uma visita ao Musal

O Museu Aeroespacial do Rio de Janeiro luta contra a falta de recursos para preservar a história da aviação brasileira

João Barone Publicado em 01/09/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Espremido entre os morros do subúrbio de Marechal Hermes, no Rio de Janeiro, encontra-se o Museu Aeroespacial, mais conhecido como Musal. Situado no Campo dos Afonsos, berço da aviação militar brasileira, o Musal foi inaugurado em 1976 e conta com um impressionante e crescente acervo de aviões históricos, em sua maioria preservada para exposição estática. Alguns poucos em condições de vôo. Vários espaços temáticos, displays multimídia, um enorme acervo bibliográfico, filmes e fotos estão ao dispor dos visitantes nos 15 mil metros quadrados do museu. Abrigadas sob vários hangares, descansam dezenas de imponentes aeronaves históricas de variados modelos e períodos. Alguns dos mais famosos “war birds” da Segunda Guerra Mundial estão expostos no Musal, como dois P-47D Thunderbolt e um raríssimo P-40N Kittyhawk. Um desses P-47D foi restaurado e caracterizado com a matrícula B4, em homenagem ao tenente-aviador Luiz Lopes Dornelles, do 1º Grupo de Aviação de Caça, o “Senta a Pua!”. Dornelles morreu em combate no dia 26 de abril de 1945, em sua 89ª missão nos céus da Itália. O B4 está em condições de vôo, com as oito metralhadoras calibre .50 em suas asas. Já o Curtiss P-40N, uma das últimas versões desse famoso caça – é o único exemplar que restou dos 85 que o Brasil utilizou durante e depois da Segunda Guerra. Vários exemplares dos bombardeiros médios e leves do período estão expostos, como o North American B-25 Mitchel, célebre pelo primeiro ataque ao Japão depois de Pearl Harbor. Cerca de cem B-25 em várias versões foram usados pela FAB até o final dos anos 60. O Douglas A-26B Invader operou até 1975 como antiguerrilha e substituiu o B-26 Marauder, já no final da Segunda Guerra.

Das patrulhas anti-submarino da costa brasileira na Segunda Guerra, estão presentes o Lockheed PV-1 Ventura, com sua camuflagem branca, característica da campanha do Atlântico, e o PBY-5A, o famoso Catalina, embora o exemplar do Musal esteja modificado, na versão pós-guerra, pois foi utilizado até 1982.

Único no mundo

Considerado o mais raro exemplar do acervo do Musal, o Focke-Wulf FW-58B-2 Weihe, bombardeiro bimotor alemão que o Brasil usou de 1939 até 1949, é o único existente no mundo. Na época, esse avião era montado num galpão da Base Aérea do Galeão. Já o Cessna T-50 Bobcat, meticulosamente restaurado, é um bimotor de treinamento, também utilizado como transporte pela FAB entre 1943 e 1956.

Outros lendários exemplos de aviões da Segunda Guerra são o treinador North American T-6 Texan, um dos 427 empregados na formação dos pilotos brasileiros, entre 1942 e 1976, e que ficou famoso por ser usado na Esquadrilha da Fumaça, no pós-guerra. O valente “teco-teco” Piper L-4 Grasshoper está caracterizado como um dos dez utilizados nas mais de 2 mil horas de vôo cumpridas pela 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (ELO) na Itália. A ELO tinha a importante missão de indicar posições alemãs para a artilharia da FEB.

O diretor do Musal, Brigadeiro Márcio Bhering Cardoso, está há vários anos na difícil missão de manter o precioso acervo. “Deixar um avião em condições de ser exposto requer muito trabalho, mesmo que ele não volte a voar”, explicou. Recentemente, com o patrocínio de empresas, um hangar foi restaurado e servirá como oficina de restauro e manutenção aberto para visitação pública. Vale destacar que o Musal abriu um programa de doações.

Uma das jóias mais preciosas do museu ainda não está exposta aos visitantes. Aguardando verbas para seu restauro, encontra-se um raríssimo Boeing B-17G, único restante dos 12 que a FAB utilizou. Essa versão da B-17 tem uma peculiaridade: conhecida como “Fortaleza Voadora”, ela lançava toneladas de bombas sobre a Alemanha nazista. Mas a versão SB-17G foi usada no Brasil pelo Serviço Aéreo de Resgate, o SAR, em missões de salvamento e localização de embarcações perdidas. Graças a sua autonomia, podia voar por grandes extensões do litoral. No lugar das bombas, transportava um enorme bote de alumínio, que era lançado ao mar para salvar os náufragos... Vamos torcer para que essa raríssima B-17 chegue aos olhos do público num futuro próximo.

João Barone, baterista dos Paralamas do Sucesso, coleciona peças e carros militares da Segunda Guerra Mundial e estuda diversos temas referentes a esse e outros conflitos históricos.

 

Serviço

• O Museu Aeroespacial fica na Av. Marechal Fontenelle, 2000, Sulacap, Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Site: www.musal.aer.mil.br

• A Associação dos Amigos do Musal (www.amaero.com.br) recebe contribuições para ajudar o museu.