Walter Firmo, o fotógrafo que retratou a alma do Brasil

Walter Firmo captou como poucos as cores e as muitas faces deste país. Nas festas populares ou retratando negros, fugiu do exotismo e fez da sensibilidade sua marca

Gabriel Falcione Publicado em 20/06/2012, às 16h43 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

walter firmo
walter firmo - Arquivo Aventuras

Walter Firmo bate à porta do jornal Última Hora. Depois de desistir da carreira de cantor e geneticista, aos 20 anos ele afinal decide: vai, Firmo, ser fotógrafo na vida. Dão-lhe emprego e, na primeira saída, o jovem franzino registra o Carnaval de rua no bairro do Flamengo, no Rio. Seu olhar esquadrinha não os momentos apoteóticos da festa, mas antes o folião que espicha a perna na sarjeta para pitar um cigarrinho, o esforço da garota para desabotoar a fantasia, a ponta de um sorriso que escapa de um rosto cansado. Estamos em 1957. Ele ainda não sabia, mas boa parte do que fotografou naquele dia se transformaria nos elementos centrais de sua obra: a vibração intensa das cores, os negros, as festas populares.

Foto: Floriana Striker

Ao prestar atenção no "antes e depois" dos desfiles, seja na matinê de salão ou no sambódromo, Firmo aparece entre os profissionais pioneiros preocupados em mostrar o outro lado do glamour. Mas, no início, tudo é aventura. Um livro da biblioteca da escola sobre a química da revelação fotográfica é o que primeiro desperta o interesse deste carioca de Irajá para o ofício. O garoto também se deslumbra com as imagens de O Cruzeiro, primeira publicação nacional a dar destaque à fotografia.

O pai, fuzileiro naval, traz de surpresa da Alemanha uma Rolleiflex, máquina de ponta na época, bastante cobiçada. É com ela em mãos que Walter consegue emprego no Última Hora, só o primeiro em mais de uma dezena de veículos de imprensa. Apesar da carreira bem-sucedida em jornais, ele ganhou fama por causa do trabalho desenvolvido nas revistas. No início dos anos 60, a televisão engatinhava no Brasil e a primeira transmissão por satélite só aconteceria em 1965. É nas páginas coloridas das publicações semanais que o país se conhece - e se reconhece, nas trilhas abertas pela Cruzeiro. Manchete e Realidade, a última lançada em 1966 pela Editora Abril, estão na primeira fila das novas revistas que usam a fotografia não como mero suporte visual das reportagens, mas como uma linguagem narrativa própria. Firmo foi o primeiro fotógrafo contratado para a equipe de Realidade. Além de lapidar sua impressão sobre as cores, o fotojornalismo estimulou sua preocupação estética: assim como Jean Manzon, que montou a equipe de O Cruzeiro, ele não tinha pudor em alterar o cenário das fotos para deixá-las mais "alegóricas". Certa vez, levou flores e velas para aumentar a voltagem emocional do registro de um acidente ferroviário. De qualquer forma, é como fotojornalista que seu trabalho apura a abordagem de temas nacionais.

A pesquisadora de história da fotografia Ângela Magalhães explica que Firmo se notabiliza por retratar o povo brasileiro, principalmente os negros, com um olhar terno e singelo: "Ele é o fotógrafo das raízes nacionais, do folclore. Explora a riqueza do afro-brasileiro", diz. Para Lélia Coelho Frota, historiadora da arte, a grande contribuição dele à fotografia foi captar a essência do povo - negros, brancos, mulatos, índios - livre de exotismo. "Não é aquela fotografia colonizada, para europeu ver." O fotógrafo, mestre e amigo José Medeiros (1921-1990) definia com um gracejo essa visão pura, ingênua, por vezes feminina: "Você é uma Maria Firmina mesmo", pregava-lhe o chiste. Boris Kossoy, professor do Departamento de Fotografia da Escola de Comunicações e Artes (USP), resume: "O mérito dele foi mostrar a realidade brasileira para grandes públicos".

Foto: Walter Firmo

Firmo clicou figurões da música, da cultura popular e do futebol. Registrou muitas festas tradicionais além do carnaval. Mas, ao estabelecer a carreira livre de carteira assinada, sem uma publicação específica, preferiu focar a população negra, decidido a combater o preconceito e a discriminação. Único brasileiro citado no verbete Fotografia da Enciclopédia Britânica, nove vezes vencedor do Prêmio Nikon, Comendador da República, Firmo dedica-se a fotografar em preto-e-branco desde 1989. Usa máquinas Nikon e Leica, quase sempre sem flash. Ele não para. Agora está decidido a voltar à Amazônia e registrar como está a famíla de Prainha (PA) que acompanhou em 1973, nos períodos de seca e cheia do rio (à dir.), para a Realidade. No ano passado, um mal súbito frustrou a viagem. Perdeu o patrocinador, mas ainda assim quer completar a tarefa. "Comi frango à passarinho e tomei uma cervejinha. Foi muita gordura naquele dia", diz. Hoje controla a alimentação e saúde não lhe falta. Nem trabalho, entre aulas semanais, palestras, workshops.... Aos 72 anos, vale repetir.


Saiba mais


LIVRO


Walter Firmo/ Brasil - Imagens da Terra e do Povo, org. Emanoel Araújo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007

A publicação comemora os 50 anos de carreira e 70 de vida do fotógrafo.


Post-Scriptum

Esperança, ação e verbo


A fotografia na visão desse carioca com mais de meio século de carreira


Não sou um historiador da fotografia. Minha praia é trabalhar o desenho da luz que sobrevoa nossas cabeças. Mas não posso deixar de lembrar meus ídolos. Ernest Haas, David Drew Zingg e Gordon Parks, na cor. José Medeiros, Félix Nadar, Brassai (Gyula Halàz), Eugene Atget, Jacques Henry Lartigue, Robert Doisneau, André Kertész e Henri Cartier-Bresson, no preto-e-branco. Os três primeiros, farfalhantes e zoadeiros, posto que a cor, além de ser uma ilusão, é também uma ruidosa banda de música que nos diverte e seduz. Os outros oito, poetas, humanistas, nos conduzem a sentir a vida entre as gradações do cinza e a onipresença dúbia do preto e do branco.

E, se a história fotográfica embalou-se nos braços franceses de Joseph Niépce e Louis Daguerre, pioneiros do século 19, toda fotogenia espraiou-se a outros templos de adoração do olhar, criando uma escola americana também soberana, porém embrenhada numa expectativa mais jornalística, cravada na substância da informação. Interessei-me pelo ensinamento europeu por sentir na pele a emoção humanista, do estar junto ao outro, e assim manifestar visualmente todo seu respeito, enfocando-o como o centro das atenções.

Quando comecei como repórter-fotográfico do vespertino Última Hora, aos 17 anos, o que me chamou a atenção foi essa vida desbravada do nunca estar em lugar algum, mas sempre criar em todos os lugares, identificando-me com os indivíduos independentemente de sua classe social, pranteando nas visões fotográficas tudo o que aprendi nos almanaques da vida cidadã. Queria ser o José Medeiros, da revista O Cruzeiro, aquele que sumia pelos sertões e florestas brasileiros documentando a vida interiorana e silvestre. Foi José, com seu carinho e carisma, que me instruiu a distância nesta grande universidade da vida, quando muitas vezes temos de ser psicólogo, padre e parteiro.

O fotojornalismo é implacável, baseado nas cenas explícitas, sem maquiagem. Fui muito criticado pelos colegas porque "recriava" a cena como no cinema, embora sem deixar de ser fiel a uma realidade, sem alterar acontecimentos. Na verdade, tinha uma maneira própria de interpretar outras verdades que poderiam ser apreciadas no novo fotojornalismo.

E assim se foi. Veio o Jornal do Brasil com suas mudanças editoriais, como a publicação de fotos na primeira página. Depois me transferi para São Paulo para integrar a equipe da revista Realidade, publicação mensal voltada para um texto apurado e uma fotografia ensaística. Foi quando a cor entrou em minha vida. Passei a ser reconhecido como um fotógrafo exclusivamente colorista, mas, na verdade, sou múltiplo. Trabalhei em muitas outras publicações e na Fundação Nacional de Artes. Hoje sou aposentado do Ministério da Cultura, mas nunca paro, fotografando meus projetos pessoais, expondo, escrevendo artigos, dando aula, enfim, sempre em busca de uma boa novidade.

Não me perguntem qual foi a melhor foto que fiz. Não sei. Quem sabe será aquela que farei amanhã? Vale a pena, é um prazer fazer, sempre. A fotografia será a testemunha ocular revelando momentos, decifrando sensações, ensinando-nos em mudos sinais a reeducar valores muitas vezes submersos. Por isso, trabalho também a causa negra no país, glorifico a raça para combater o preconceito.

Em mais de 50 anos de carreira, vi muita coisa mudar. Quem vive a era digital não viu a fotografia analógica no seu esplendor. Tínhamos tudo a fazer. Desde os banhos químicos culminando com o suor da noite no laboratório, destilando sonhos e vendo aquela imagem surgir molhada no revelador, depois de muitas horas. Era puro prazer. Muita gente pergunta qual a diferença da analógica para fotografia digital, como se houvesse uma era da água, outra do vinho. A diferença é que trabalhávamos melhor a questão da qualidade, não da quantidade. Hoje, com a digital, vivemos sem tempo e fotografando o tempo todo o nada... e o tudo também. Muita quantidade! Mas é verdade que a tecnologia democratizou a fotografia. Muitos amadores mostram na internet um fino olhar para as coisas mais simples. Usar flash, porém, é uma prova de insensatez, um desperdício, já que a luz está à disposição de todos.
O fato é que é um deleite capturar o mundo através de uma lente. Seja qual for o equipamento, como já ensinava Cartier-Bresson, o que conta é a forma de olhar, a alma atrás do obturador.