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Da dedicatória à filha a ausência do coração: 5 curiosidades sobre os restos de Dom Pedro I

O monarca queria colocar no trono português a filha Dona Maria II e, para isso, se envolveu em uma guerra. Após a morte, indícios dessa trajetória permanecem

Vanessa Centamori Publicado em 30/08/2020, às 08h00

(Esq.) Retrato de Dom Pedro I; (dir.) crânio de Dom Pedro I
(Esq.) Retrato de Dom Pedro I; (dir.) crânio de Dom Pedro I - Wikimedia Commons/ Foto de Maurício Paiva

Dom Pedro I declarou a Independência do Brasil em 1822, mas se enfraqueceu e renunciou ao trono em 1831. Conhecido por ser mulherengo, trocava cartas eróticas com sua famosa amante, Domitila de Castro, enquanto era casado com a Imperatriz Leopoldina.

Mas, quando o monarca deixou seu reinado para trás, a austríaca já tinha falecido. D. Pedro havia se casado novamente, com a segunda imperatriz, Amélia de Leuchtenberg. Não só colecionador de afetos, mas também um sujeito bem impulsivo, deixou em seu lugar no Brasil seu filho, Dom Pedro II, que era apenas uma criança de cinco anos.

O garoto começou a governar ainda adolescente, aos 14 anos, com o Golpe da Maioridade, e era o queridinho da madrasta Amélia. Dom Pedro I saiu com a saudosa Dona Amélia para Portugal, sua querida terra, onde viveu dias de angústia e lutou na Guerra Civil Portuguesa.

Já com saúde frágil após a disputa, a causa da morte do soberano foi tuberculose, em 24 de setembro de 1834. Seus restos mortais jazem hoje em São Paulo, na Cripta Imperial, no Ipiranga. Confira abaixo 5 curiosidades sobre os seus remanescentes: 

Retrato de Dom Pedro I / Crédito: Wikimedia Commons 

 

1.Vestes fragmentadas

Em 2012, os restos de Dom Pedro I, assim como os de Leopoldina e de Dona Amélia, foram alvo de um estudo que envolveu uma parceria da arqueóloga brasileira Valdirene Ambiel com vários especialistas e instituições. Os resultados (que podem ser acessados aqui) aparecem na dissertação de mestrado da pesquisadora, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE/USP). 

Sobre o monarca, o estudo revelou que ele estava esqueletizado e suas vestes estavam fragmentadas. Os pedaços de tecidos tinham cores escuras, mas outros tinham coloração marrom com ornamentos de fios de ouro. Havia ainda alguns fragmentos de tonalidades de cores claras, porém esses últimos "adquiriram um tom mais escurecido", segundo a pesquisa. 

As botas de D. Pedro, muito provavelmente, estavam decompostas, o que foi evidenciado por sedimentos enegrecidos. Havia ainda a presença de comendas portuguesas. Entre essas, estava a Placa da Ordem Militar (portuguesa) da Torre e Espada. Medalhas, botões e outros artefatos do monarca foram entregues ao Museu da Cidade de São Paulo, que administra o Monumento à Independência.

Valdirene Ambiel preparando o esqueleto de D. Pedro I para encaminhar para exame de tomografia  / Crédito:  Valter Diogo Muniz

 

2.Colchão de terra 

Na pesquisa liderada por Valdirene Ambiel, foram retirados 20 quilos de substrato da urna de Dom Pedro I. Uma análise feita pelo pesquisador Fernando Augusto Saraiva, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGC-USP), revelou a presença de carbonato naquele material — substância presente no solo da cidade de Porto, em Portugal. 

Com isso, os pesquisadores viram que um colchão de terra da urna original de 1834 do monarca podia ter sido feito do solo dessa cidade, que era amada por D.Pedro. Segundo a pesquisa, o imperador também pediu um pouco de terra brasileira para que fosse colocada no travesseiro do caixão. 

Em entrevista à Aventuras na História, Ambiel conta que o colchão de terra pode ter sido uma "forma de homenagear" o monarca e "todo seu histórico com a cidade, após a guerra civil contra seu irmão D. Miguel". Acontece que Dom Pedro I lutou na Guerra Civil Portuguesa em defesa do direito de sua filha, D. Maria II, de assumir o trono português.

Valdirene com o crânio de D. Pedro I / Crédito: Foto de Maurício Paiva

 

3. Dedicatória à filha 

Curiosamente, o estudo conta ainda que o caixão ou placa de chumbo do soberano trazia a sigla D.O.M, que significa Deo Optimo Maximo (Deus Todo Poderoso). Além disso, há uma dedicatória à filha dele, D. Maria II, defendendo a mulher como rainha. 

De modo fascinante, o caixão do pai — que lhe foi fiel até a morte—, diz: "Rei de Portugal e Algarves, Primeiro Imperador do Brasil; Duque de Bragança. João VI, Líder Comandante-em-Chefe e Filho de Rei para Reivindicar o Direito da Liberdade do País e Especialmente o Direito de Reinar de Maria II".

O caixão de Dom Pedro I, portanto, faz alusão à disputa de Maria II no trono com o tio, Dom Miguel. Além disso, por fim, se lê, em algarismos romanos, a data do óbito e a idade que o imperador tinha quando morreu: 36 anos. 

4.Ligação com ditaduras

O translado dos restos mortais de Dom Pedro I, vindos de Portugal, até o Brasil, ocorreu em 1972, justamente no Sesquicentenário da Independência do Brasil. O acontecimento foi motivo de celebração nacionalista para dois governos militares. 

Na ocasião, tanto o Brasil como Portugal passavam por períodos anti-democráticos: por aqui, governava Emílio Garrastazu Médici; já no país ibérico, estava no poder o premier Marcello Caetano. 

Por outro lado, a pesquisa aponta que, mesmo com a valorização por parte das ditaduras, os restos do monarca estavam em um péssimo estado. Chegava até a "dar pena", segundo Ambiel. "O corpo do imperador estava totalmente desarticulado, e sem nenhuma posição anatômica mantida. Isso para mim representa a maior falta de respeito, não com a figura de um monarca, mas antes de tudo, falta de respeito com um ser humano", lamenta. 

5. Monarca sem coração 

Um fato não muito conhecido sobre os despojos do imperador é que em São Paulo, na Cripta Imperial, ele jaz sem seu coração. O órgão está separado e está lá em Portugal, na cidade do Porto. De modo mais específico, repousa dentro de um recipiente de vidro, na Igreja de Nossa Senhora da Lapa.

Foi uma das últimas vontades do monarca deixar, literalmente, seu coração para sempre em Porto. Isso porque ele nutria um amor muito grande por lá, local onde viveu de julho de 1832 a agosto de 1833.

Também foi na cidade que o soberano disputou a guerra contra seu irmão, Dom Miguel I. E o mais engraçado é que agora quem tem as chaves do coração de Dom Pedro I não é mais Leopoldina, Dona Amélia ou Domitila de Catro, mas sim os funcionários que abrem o órgão para fazer sua manutenção a cada década. 


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