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Violações e marchas da morte: Genocídio Armênio completa 106 anos sem o devido reconhecimento

Neste dia, em 1915, o Império Otomano ordenou a execução de mais 250 intelectuais e líderes armênios, contabilizando mais tarde a morte de mais de 1,4 milhão de pessoas

Isabela Barreiros e Victória Gearini Publicado em 31/07/2020, às 11h30 - Atualizado em 24/04/2021, às 00h00

Sobreviventes do Genocídio Armênio
Sobreviventes do Genocídio Armênio - Getty Images

O dia 24 de abril de 1915 é conhecido como o início do Genocídio Armênio. Contudo, existem dados que comprovam que houve três ondas do massacre, sendo que as duas primeiras antecederam esta data, conforme revelou o historiador Heitor Loureiro, em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História. 

De acordo com dados coletados pelo Patriarcado Armênio, durantes os anos do Holocausto Armênio, mais de 1,4 milhão de pessoas foram brutalmente assassinadas pelo governo otomano. 

Entre 1895 a 1922, diferentes povos que viviam em regiões da Turquia enfrentaram perseguições e assassinatos em massa. Contudo, durante — e até mesmo após — a Primeira Guerra Mundial, o nível de ataques contra armênios aumentou de forma exacerbada.

Após a tomada do poder dos radicais Jovens Turcos, em 1908, o Império Otomano passou a ser administrado pelos nacionalistas. Segundo  Heitor Loureiro, à frente do governo estava Mehmed Talaat Pasha, que no fatídico dia 24 de abril de 1915, ordenou a prisão e a execução de 250 intelectuais e líderes armênios.

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, os autores da obra "Um história real do Genocídio Armênio: Os diários do meu avô", Roberto Abdallah e Marcelo Arakelian, disseram que para o povo armênio, tal data sinaliza o que mais tarde ficaria conhecido como o Genocídio Armênio, responsável pela morte de mais de 1,4 milhão de pessoas.

Contudo, ainda hoje, há resistência do governo turco em assumir o brutal massacre cometido no passado, conforme os especialistas revelaram. Vale ressaltar, que o episódio também mobiliza outros países. 

Com o aniversário do acontecimento, por exemplo, a AFP noticiou que a imprensa americana já indica que Joe Biden, presidente dos EUA, deverá reconhecer o acontecimento histórico como genocídio. Assim ele seria o primeiro presidente norte-americano a tratar a morte de milhões de armênios como genocídio.

Pensando na importância histórica desta data, o site Aventuras na História selecionou 5 fatos sobre o Holocausto Armênio.

Confira abaixo.

1. Os números alarmantes

De acordo com dados do Patriarcado Armênio, o extermínio sistemático propagado pelo então Império Otomano, que englobava, além da Turquia e Armênia, partes do Líbano, Síria, Iraque e Palestina, durante os anos de 1915 e 1917, provocou a morte de 1,4 milhão dos 2,1 milhões de armênios. Em um cálculo similar, é afirmado que dois em cada três armênios foram assassinados no genocídio nunca reconhecido pela Turquia.

Restos mortais das vítimas / Crédito: Wikimedia Commons

 

O número assusta e é indicativo dos horrores praticados contra este povo. Práticas sistemáticas como incêndio de vilas, afogamento de pessoas e mortes causadas deliberadamente por médicos otomanos eram estratégias utilizadas pelo governo para exterminar os armênios.


2. Deportação forçada

A Lei de Deportação Temporária, proposta pelo paxá Mehmed Talaat, seria a luz verde para o grande extermínio que estava por vir. O genocídio já vinha sendo gestado desde o ano anterior, em 1914, mas foi a partir desse decreto que se percebeu realmente o que estava sendo colocado em prática.

As ordens de deportação eram anunciadas publicamente, e as famílias tinham apenas dois dias para organizar seus pertences. No interior mais remoto, a situação era ainda pior, como não havia muitas testemunhas.

Mulheres eram estupradas, crianças, crucificadas e milhares de pessoas eram enforcadas ou decapitadas por soldados do Exército, policiais e membros da SO. Além disso, outras vítimas eram forçadas a andar pelo imenso deserto sírio.

"Trazer essas histórias para os dias de hoje é importante para que não se repita e seja lembrado e, principalmente, é uma forma de conexão entre a comunidade armênia. Uma maneira de passar a informação para frente, através de estudos, conhecimento e pesquisas", declarou Roberto Abdallah.


3. As marchas da morte

Depois de deportados, os armênios poderiam ser levados à cidade síria de Deir ez-Zor. O caminho, no entanto, já era marcado pelo horror: em meio ao deserto, pessoas andavam sem suprimentos nem água, caminhada que custou a vida de inúmeras pessoas.

Em agosto de 1915, o jornal New York Times reproduziu um relatório que afirmava que "as estradas e o Eufrates estão cheios de cadáveres de exilados, e os que sobrevivem estão condenados à morte certa. É um plano exterminar todo o povo armênio”.

Vítimas do Genocídio Armênio / Crédito: Wikimedia Commons

 

Se sobrevivessem a quase impossível jornada, continuavam com a vida em risco. Na cidade, acredita-se que o governo otomano tenha, deliberadamente, impedido essas pessoas de ficarem em instalações e de obterem alimento e água. Isto é, o básico para sobreviver.


4. Os campos de extermínio

Além disso, para quem conseguisse permanecer vivo em tais condições sub-humanas, o governo criou uma rede de campos de extermínio localizada na região que hoje marca as fronteiras da Turquia com Iraque e Síria.

Acredita-se que tenham sido 25 campos de extermínio administrados pelo funcionário público Şükrü Kaya, um dos principais aliados de Mehmed Talaat. Alguns desses eram utilizados apenas como local de passagem, mas outros funcionavam como instalações para o encarceramento do povo, que morria por doenças, fome e execução.

Contudo, segundo o historiador Heitor Loureiro, não houve campos de extermínio nos moldes dos campos para judeus durante a Segunda Guerra Mundial. O especialista reforça, que o modo operandi dos turcos basicamente era o extermínio pelas deportações. 

"Consistia, basicamente, em reunir as pessoas e colocá-las para marchar em colunas para algum lugar ou para nenhum lugar. O objetivo disso era a morte dessas pessoas. Mas as que conseguiam sobreviver chegavam até o norte da Síria, enfim, se consolidavam no Oriente Médio", explicou o historiador. 


5. Violência não assumida

Até hoje, o governo turco não assumiu publicamente o que houve, em 1915, isto é, um genocídio planejado e conduzido oficialmente. Argumenta-se que o êxodo e consequente extermínio de centenas de milhares de armênios seriam apenas um efeito colateral dos conflitos internos e da participação na Primeira Guerra Mundial.

"A cicatriz ainda está aberta, por motivos que os turcos negam o genocídio, invertem os polos e se fazem de vítimas. Eles investem pesado em uma rede internacional de apoio político, para fortalecer essa falácia e mentira", desabafou Marcelo Arakelian.

Em outubro de 2019, a Câmara dos Deputados estadunidense aprovou por 405 a 11 uma resolução que reconhece a matança em massa dos armênios pelos turcos otomanos como um genocídio. 


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