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76 dias perdido no mar: As aventuras de Steve Callahan

Apesar da fome e da sede crônicas, o velejador conseguiu desfrutar das maravilhas do seu novo e difícil mundo

Thomas Pappon, da BBC Publicado em 01/08/2021, às 09h00

Fotografia de Steve Callahan durante palestra
Fotografia de Steve Callahan durante palestra - North Yarmouth Academy/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Em janeiro de 1982, o americano Steve Callahan deixou as Ilhas Canárias, no Atlântico, sozinho em um veleiro, rumo ao Caribe. Tudo ia bem, até sentir “um forte estrondo na lateral do barco (provavelmente uma colisão com uma baleia)”, contou ele ao programa Witness History, da BBC. “De repente, começou a entrar muita água.”

Tateando e nadando pela cabine, em plena escuridão, ele encontrou um kit de emergência e um saco de dormir. “Subi ao convés, inflei o bote salva-vidas, coloquei-o no mar e entrei nele.” Suas chances estavam em ser avistado por um navio ou conseguir chegar ao Caribe ou à América do Sul, lugares a mais de 3,2 mil quilômetros de distância. E os suprimentos de comida e água no kit de emergência durariam apenas alguns dias.

“No início, o principal desafio foi me manter aquecido, sobretudo à noite. Depois tem a sede. Você consegue viver até dez dias sem água, se tiver sorte. Chovia muito pouco. Eu dependia dos purificadores solares de água, que estavam no kit de emergência. Levou um bom tempo para aprender a usá-los, e produzir cerca de meio litro de água por dia.”

Para sua alimentação, ele teve ajuda da ecologia que começou a se desenvolver em torno do bote. “Algas e cracas começaram a se prender nele, atraíam peixes menores, que, por sua vez, atraíam peixes maiores. Por sorte eu tinha conseguido recuperar do barco uma espingarda de arpão, praticamente um brinquedo. Foi só no 14º dia que eu consegui pegar um. Mas mesmo com os peixes, eu não estava ingerindo nutrientes suficientes. Perdi um terço do meu peso”, relatou o velejador.

Apesar da fome e sede crônicas, Callahan conseguiu desfrutar das maravilhas de seu novo mundo. “À noite, com os reflexos na água, você tem a sensação de estar flutuando no céu. E tem a bioluminescência do mar. São como bilhões de pirilampos. Um golfinho passa e você vê o contorno dele percorrendo essa longa trilha de luzes... É a coisa mais linda”. As semanas foram passando e ele chegou a ver alguns navios a distância. Mas não foi visto por nenhum deles. No 43º dia, veio um desastre.

“Um dourado-do-mar quebrou a haste do arpão, e, com a ponta, abriu um buraco do tamanho de uma boca. A água começou a entrar. Eu estava com as mãos cheias de feridas. Passei dez dias fazendo remendos no buraco. Subitamente, me lembrei de um garfo de escoteiro que tinha guardado na minha bolsa. Com ele, consegui, finalmente, prender o remendo.” Mais semanas se passaram, quando apareceram pássaros indicando a presença de terra.

No 76º dia no oceano, ele pôde ver uma pequena ilha, Maria Galante, do arquipélago de Guadalupe, cercada por perigosos recifes. Mais uma vez, o ecossistema em torno de seu bote lhe trouxe a salvação. Os peixes atraíam “um monte de pássaros”, que chamaram a atenção de pescadores. Callahan foi resgatado. De volta aos Estados Unidos, escreveu um livro, que se tornou um best-seller. Ele diz que pensa na sua viagem todo dia. “Sou bastante grato pela experiência... mas foi um inferno!”


Thomas Pappon é jornalista da BBC News Brasil. Este texto foi adaptado do podcast ‘Que História!’, disponível no site bbc.com/brasil


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