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A impressionante história da mulher que inspirou a criação de Anna Millman, de Novo Mundo

A história da personagem fictícia foi baseada na saga real da grande Maria Graham, que registrou o que encontrou no Brasil

Redação Publicado em 27/09/2020, às 09h00

Maria Graham (à esqu.) e Isabelle Drummond como Anna Millman (à dir.)
Maria Graham (à esqu.) e Isabelle Drummond como Anna Millman (à dir.) - Wikimedia Commons - Divulgação/Globo

Após exibição na rede Globo, a novela de época Novo Mundo misturou fato e ficção ao reproduzir o período que marcou a vinda da família real para o Brasil. Entre os personagens, se destaca o trabalho da atriz Isabelle Drummond, que viveu a carismática Anna Millman.

Embora não tenha existido na vida real com esse nome, a saga de Millman é inspirada na trajetória de uma pessoa em carne e osso, a escritora e ilustradora britânica Maria Graham.

"Apesar de a Anna ser inspirada numa pessoa que existiu, uma inglesa chamada Maria Graham, que era escritora e desenhava, além de ser professora das filhas da Leopoldina, a personagem tem uma licença poética total, porque estamos a tratar de um universo lúdico dentro de uma situação que era real e que existia. Para mim, é muito importante falar da formação do Brasil, descobrir mais quem somos e aprender com poesia", afirmou Drummond em 2017 numa entrevista ao site Platina Line.

Na vida real, o trabalho de Graham, quando voltou ao Brasil, era educar a princesa Maria da Glória, filha de Dom Pedro I e Maria Leopoldina, muito diferente da novela, onde Anna ajuda a imperatriz a desvendar o idioma complicado. A história foi registrada na obra "Diário de uma viagem ao Brasil e de uma estada nesse país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823", que ela mesmo escreveu, relatando suas experiências no país tropical, bem diferente da Inglaterra de onde veio.

O país amado

Graham veio ao Brasil em três oportunidades, sendo a primeira no caminho de ida para o Chile, em 1821. Ela era casada com capitão Thomas Cochrane. Ela, inclusive, chegou ao país acompanhada do marido — os dois se conheceram no Chile, depois de Maria ter ficado viúva de seu primeiro esposo, que pegou uma febre severa.

Pintura de Maria Graham / Crédito: Wikimedia Commons

 

Sua segunda estadia no país ocorreu em 1823, pouco depois do Brasil ter declarado a sua independência de Portugal. Nessa oportunidade, a inglesa foi introduzida a ninguém menos que Dom Pedro I, que ficou impressionado com a inteligência e desenvoltura da mulher.

Percepções diversas

Por ser escritora, acabou descrevendo em um livro suas percepções acerca da terra distante. Não poupou elogios quanto à beleza do país. “A extrema beleza desta terra é tal que é impossível deixar de falar e pensar nela para sempre; não há curva que não apresente algum panorama tão belo quanto novo", disse em trecho presente em sua obra Diário de uma viagem ao Brasil.

No entanto, Maria revelou ter se sentido extremamente incomodada com a escravidão. "Vi hoje o Valongo. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente", registrou.

"A escritora, pelo menos inicialmente, tencionou escrever o seu Diário de uma viagem ao Brasil (1956) especificamente para o público britânico, como ela mesma afirma em uma determinada passagem de seu diário. Em uma das diversas festas da corte à qual compareceu, a viajante comenta as belezas e a elegância das mulheres presentes apenas brevemente, pois segundo ela, isto não interessaria a seus amigos ingleses, para quem ela estava escrevendo o diário", diz Isadora Eckardt no artigo Maria Graham, um olhar curioso sobre o Brasil, disponível para download.

"Um livro escrito para europeus, com explicações para europeus, com
assuntos de interesse dos europeus: o Novo Mundo e todas as suas peculiaridades.
O que em parte explica a gama tão variada de assuntos que encontramos no relato
de Graham: festas da corte, escravidão, política, comidas, etc. Muito do que ela viu
e aprendeu sobre o Brasil, e que poderia ser considerado 'exótico' e 'pitoresco'
pelo seu público leitor, foi incluído em seu diário", explica Eckardt. 

Terceira passagem e despedida do Brasil

Em 1823, a britânica embarcou de volta a sua terra natal, e entregou suas primeiras impressões acerca do país. Seu trabalho, no entanto, estava longe de acabar. Depois de ter reunido material suficiente para fazer três publicações, voltou ao Brasil em 1824.

Foi nesse período que educou Maria da Glória, que teve seu destino definido de repente, em 1826. Isso porque era o ano em que João VI, rei de Portugal, morreu, e pela ordem hierárquica quem deveria assumir era seu filho, o imperador do Brasil, Pedro I.

O imperador, no entanto, abriu mão do trono europeu, portanto, a próxima pessoa na linha de sucessão era, justamente, Maria.

Maria Graham / Crédito: Wikimedia Commons

 

Esse foi o final da missão de Graham. Sua aluna deveria assumir o trono que seu pai abdicou. A estadia da inglesa no Brasil foi proveitosa, inclusive, se tornou uma grande amiga de Leopoldina, com quem passava horas e mais horas conversando sobre temas de interesse da austríaca, como ciências naturais.

Maria faleceu longe do Brasil, em Londres. Em 1842, quando tinha 57 anos, sua saúde começou a piorar de maneira drástica, até que faleceu devido a uma doença que nunca foi especificada. Seu último trabalho foi uma coleção ilustrada de plantas e árvores que são mencionadas e organizadas no livro A Scripture Herbal.


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