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A polêmica imagem de Cristo: obra apresenta a figura de Jesus na cultura pop

Confira na íntegra a reprodução dos textos extraídos do livro A História de Jesus Para Quem Tem Pressa, de Anthony Le Donne

Redação Publicado em 18/08/2020, às 15h39

Representação feita por Diego Velazquez de Jesus Cristo sendo crucificado
Representação feita por Diego Velazquez de Jesus Cristo sendo crucificado - Getty Images

Pouco se sabe sobre a vida íntima de Jesus Cristo, o profeta que, ao longo da História, conquistou diversos seguidores e admiradores ao redor do mundo. Pensando nisso, a obra A História de Jesus Para Quem Tem Pressa, de Anthony Le Donne, apresenta uma perspectiva inovadora sobre o líder político e religioso.

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Obra A história de Jesus para quem tem pressa: Do Jesus histórico ao divino Jesus Cristo!, de Anthony Le Donne (2019) / Crédito: Divulgação / Editora Valentina

Lançada em 2019 pela Editora Valentina, o livro aborda questões históricas, filosóficas e midiáticas que permeiam a vida e imagem de Jesus Cristo. Por meio de uma análise minuciosa, o autor levantou aspectos sobre a vida pessoal do profeta, que são pouco debatidos, como a sua amizade com prostitutas e a representação na cultura pop por meio da mídia. 

“Desde o início, Jesus apresenta várias facetas. Ainda que nos concentremos apenas no Jesus da Bíblia, deparamos com múltiplas descrições dele. Os adeptos do cristianismo primitivo comparavam quatro histórias sobre sua vida: os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Ou deveríamos — tal como muitos estudiosos têm feito — tentar sondagens profundas nos evangelhos em busca das primeiras máximas apregoadas por Jesus? Talvez isso até nos forneça um interessante mosaico da sua vida pública como pregador, mas deparamos aqui também com a falta de uma descrição única a esse respeito”, escreveu Le Donne na introdução da obra. 

Por meio de cinco capítulos breves e concisos, Le Donne discute, ainda, uma enorme polêmica envolvendo o nome de Jesus Cristo nos dias atuais: quando Elton John afirmou que o profeta seria homossexual.


Com autorização da Editora Valentina, a Aventuras na História reproduziu, na íntegra, dois tópicos do Capítulo 5: Jesus na Cultura Pop. Confira:

Jesus — Marido e Amante 

Uma das ideias mais comuns sobre Jesus na cultura pop é a crença de que ele andava com prostitutas. E confesso que reproduzi essa metáfora em um dos meus livros:

“Os evangelhos canônicos revelam a fama [de Jesus] [falando de sua índole] de hedonista amante de festas e do envolvimento socialmente inapropriado com mulheres. Parece que Jesus privava regularmente da companhia de prostitutas e belas mulheres interesseiras.”  Le Donne, A., Historical Jesus: What can we know and how can we know it? (Grand Rapids: Eerdmans, 2010), p. 44.

Embora Jesus pareça mesmo ter fama de hedonista nos evangelhos, foi um erro dizer que ele desfrutava regularmente da companhia de prostitutas. Se eu tivesse pesquisado mais, teria sabido que, nos evangelhos, não existe passagem alguma dizendo que Jesus andava com prostitutas. Aliás, em nenhuma das narrativas do século 1 consta que Jesus andava ou convivia com prostitutas. Portanto, como e quando começou esse boato a respeito de Jesus?

Em suma, embora não haja sequer uma afirmação explícita a esse respeito nos evangelhos, a maioria das pessoas sempre achou que Maria Madalena era prostituta. Mas acabou-se descobrindo que essa suposição é uma ficção proveniente da Idade Média. Num sermão, o Papa Gregório I (ano 591), presumindo então que ela fosse, fez tal afirmação na ocasião, e por conta disto o boato, tantas vezes repetido, acabou se tornando “senso comum” e tem sido assim desde então. Em 1260, um arcebispo chamado Jacobus de Voragine escreveu uma história sobre Maria Madalena, contando a forma pela qual ela caíra na prostituição. Essa crença foi recontada no romance de Nikos Kazantzakis, A última tentação de Cristo, de 1955, obra que Martin Scorsese transformou em filme em 1988. Assim, na imaginação popular do Ocidente cristianizado, Maria Madalena se tornara prostituta. Portanto, quase não havia razão para se questionar o suposto envolvimento de Jesus Cristo com prostitutas.

Numa ampliação ainda maior do equívoco, a sexualidade de Jesus virou o centro das atenções no século 20. A última tentação de Cristo contava uma história da imaginária esperança que Jesus tinha de ter uma vida normal (incluindo atividade sexual). Alguns cristãos boicotaram o filme e tentaram proibir a publicação do livro, pois achavam sacrílega a ideia de se falar em devaneios sexuais de Jesus. Desse modo, como a sexualidade de Jesus se tornou um assunto polêmico e visto que ao legado de Maria haviam sido conferidas características sexuais, era natural que se criasse um amante para ela. Jesus tinha sido reinventado e agora era namorado de Maria. 

Foi somente com o advento do megaseller de Dan Brown, O código Da Vinci, que o grande público começou a imaginar uma Maria sem nenhuma ligação com a prostituição. Na obra, a ideia de ela ser amante de Jesus foi fascinante para os leitores, mas o argumento de que era sua esposa foi a causa do sucesso de vendas. No suspense de Brown, uma francesa moderna, Sophie toma conhecimento de um antigo encobrimento do escândalo do casamento de Jesus e Maria. De acordo com a história, esse “episódio”, mantido em segredo, foi divulgado por intermédio do trabalho do artista renascentista Leonardo da Vinci. Brown apresenta uma conversa que Sophie teve com um historiador quando ambos estavam procurando A última ceia, de Da Vinci:

— Essa senhora, querida — respondeu Teabing —, é Maria Madalena. — A prostituta? — perguntou Sophie, virando-se para ele. Teabing deu um ligeiro suspiro, como se a palavra tivesse sido uma ofensa pessoal. — Madalena não era nada disso. 

Esse preconceito lastimável é o legado de uma campanha de difamação lançada pela Igreja primitiva. Esse retrato de Madalena como a esposa secreta de Jesus era instigante demais para ser ignorado e suficientemente escandaloso para transformar um divertido suspense no centro de uma polêmica internacional. O livro ocupou o topo da lista dos mais vendidos do New York Times por mais de dois anos (2003-5) e foi boicotado por inúmeras igrejas quando o transformaram em filme. Muitos livros de estudiosos e apologistas do cristianismo foram publicados com o único objetivo de patentear as imprecisões históricas da obra. 

Todavia, apesar dos elementos ficcionais do livro, é provável que Dan Brown tenha feito todo o possível para revelar a falácia do Papa Gregório ao grande público. A fictícia Maria de O código Da Vinci não era prostituta. A Maria de Brown, no entanto, era uma pessoa de sangue nobre. E um componente de grande importância para o caráter empolgante do enredo é que tanto Maria como Jesus eram de linhagem real. Isso foi inspirado, em parte, na ficção de fundo histórico do século 13 do arcebispo Jacobus. Brown descartou aquilo de que não gostou nessa obra de ficção medieval e manteve o que poderia ajudar ao máximo seu enredo. O aspecto irônico é que a sua ficção, embora tenha conseguido abalar a errônea imagem de prostituta de Maria, lucrou com o suposto desejo de Jesus de ter uma vida sexual normal, como todo mundo. Portanto, foi uma obra que explorou o mesmo ponto sensível do universo cultural que A última tentação de Cristo havia explorado.


O Jesus Gay de Elton John 

O cantor e compositor britânico Elton John deu uma entrevista à revista Parade em que declarou: “Acho que Jesus foi um gay superinteligente, compassivo e que entendia os problemas humanos.” Além de membro do Hall da Fama dos Astros do Rock and Roll, Elton John é filantropo e antigo defensor da causa LGBT. Foram muitas as vezes que falou publicamente sobre sua vida como homossexual, marido e pai. Certa vez, ele disse a respeito de Jesus: “Na cruz, ele perdoou as pessoas que o crucificaram. Jesus queria que fôssemos amorosos e magnânimos. Não sei o que torna as pessoas tão cruéis.” 

Jornalistas da ABC News foram procurar uma resposta para isso junto a Bill Donohue, o presidente da Liga Católica. Donohue criticou Elton John, dizendo que “chamar Jesus de homossexual é rotulá-lo de pervertido sexual”. E o reverendo Sharon Ferguson assim reagiu, em resposta à declaração de Elton John: “Não acho que comentários como esses sirvam muito para alguma coisa.” Note que o reverendo é membro do Lesbian and Gay Christian Movement.

“Em suas relações com os discípulos e amigos, ele pôs em xeque a compreensão que temos do amor uns pelos outros. Portanto, deveríamos levar em conta a atitude de tolerância absoluta de Cristo para com a ideia de identidade e orientação sexual [dos outros], mas isto não significa que devamos fazer suposições a respeito da atividade sexual por parte de Cristo ou da inexistência dela.” Independentemente das consequências, mais uma vez esses comentários põem o Rocket Man bem no centro de um furacão de controvérsias. A revista estará nas bancas no sábado.”  Gallego, S., “Elton John: Jesus ‘Super-Intelligent Gay Man’”, ABC News, 19 de fevereiro de 2010 [Online]. Extraído de http://abcnews.go.com/Entertainment/elton-john-jesus- -super-intelligent-gay-man/story?id=9889098.

Existem, pelo menos, quatro objetivos nessa matéria. O de Elton John parece consistir na defesa de um grupo que tem sido perseguido ao longo da história. No caso de Bill Donohue, seu objetivo parece relacionado com a defesa de uma visão mais conservadora do conceito do que se considera normal na questão da orientação sexual. Já Sharon Ferguson aparentemente defende a reconciliação entre uma Igreja quase sempre exclusivista e um grupo historicamente perseguido. Enfim, tanto a revista Parade como a ABC News parecem estar divulgando essa controvérsia para vender produtos. A semelhança entre os quatro é que o nome “Jesus” é usado para promover um objetivo. Enfim, para o bem ou para o mal, o nome de Jesus é uma força ideológica. Tem sido assim na cristandade há dois milênios, e não é nem um pouco diferente agora.

Logicamente, isso é apenas o exame de um aspecto num quadro muito maior de possíveis discussões sobre sexualidade e gênero no Ocidente cristianizado. É muito comum o nome de Jesus ser citado em conversas dessa natureza. Eu mesmo ouço, com muita frequência, defensores da igualdade dos direitos LGBT citarem algo que Jesus não disse. Por exemplo, o ex-presidente americano Jimmy Carter afirmou: “A homossexualidade era bem conhecida no mundo antigo, muito antes do nascimento de Cristo, e Jesus jamais disse uma palavra sequer sobre homossexualidade.” *Raushenbush, P. B., “President Jimmy Carter Authors New Bible Book, Answers Hard Biblical Questions”, Huffington Post, 19 de março de 2012 [Online]. Extraído de http:// www.huffingtonpost.com/2012/03/19/president-jimmy-carter-bible-book_n_1349570.html. Mas afirmações como a de Elton John, de que Jesus era gay, embora seja um alvo de debates relativamente novo, são cada vez mais comuns.** Vale assinalar que essa ideia foi debatida antes por Christopher Marlowe (1564-93) nos círculos literários.

Devemos considerar, porém, que muitas vezes discussões sobre o assunto resultam numa compreensão demasiadamente simplista da questão relativa a gênero sexual. Nelas, Jesus é gay ou é heterossexual. É um abandono do constructo dualista de homem versus mulher, mas é apenas a substituição de um constructo dualista por outro. Um questionamento melhor seria: Jesus chama a si mesmo de “homem” nos evangelhos, mas que tipo de masculinidade ele representava?*** Trato dessa questão em meu livro The Wife of Jesus: Ancient Texts and Modern Scandals (Londres: Oneworld, 2013). 


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