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AH Indica: Jovens Polacas, a saga das escravas brancas no Brasil

Os detalhes sobre a prostituição de luxo que invadiu o Rio de Janeiro, no século 19

Alexandre Carvalho Publicado em 10/04/2020, às 11h00

Filme Jovens Polacas, com a direção de  Alex Levy-Heller
Filme Jovens Polacas, com a direção de Alex Levy-Heller - Divulgação/Pipa Produções e Afinal Filmes

Não foram só imigrantes estrangeiros e migrantes de outras regiões do país que movimentaram o porto do Rio de Janeiro a partir de 1850, com a expansão urbana. A nova aristocracia do café abriu espaço para uma prostituição de luxo com status inédito: desembarcavam na antiga capital do Brasil meretrizes europeias. Iniciar-se sexualmente ou trair a esposa com uma francesa (embora elas viessem de diversos países) virava símbolo de modernidade e do refinamento dos costumes.

Essa novidade logo foi seguida pela chegada de loiras e ruivas mais em conta, a partir de 1867, que estenderam o glamour do sexo internacional a clientes de menor renda. Eram mulheres da Europa Oriental, chamadas genericamente por aqui de polacas (fossem polonesas mesmo ou russas, húngaras e austríacas). Judias na maioria. Mas a trajetória dessas garotas – fugidas da miséria rural e dos pogroms que aterrorizavam as comunidades judaicas do Leste Europeu – não teve nada do champanhe importado e das grandiosas festas dos bordéis da alta sociedade.

Pobres, quase sempre analfabetas, eram aliciadas por cafetões judeus e acabavam na condição de escravas brancas. A história sofrida dessas mulheres, vítimas constantes da opressão mais violenta, é contada no filme Jovens Polacas (que entrou em cartaz no fim de fevereiro), do diretor Alex Levy-Heller, inspirado em livro homônimo da historiadora Esther Largman.

O enredo se divide em duas narrativas. No tempo presente, Mira (Jacqueline Laurence) é uma idosa judia que dá depoimentos para um jornalista (Emilio Orciollo Netto) sobre quando, em sua infância, foi testemunha do cotidiano desse baixo meretrício com sotaque – do qual fazia parte sua mãe, associada a um trauma que bloqueia partes da memória de Mira.

As empostações dos atores são teatrais, e as imagens alternam entre edição não convencional e muitos closes nos personagens, numa tentativa de aproximar o espectador da essência que os clientes viam como mistério nessas prostitutas. Mas sua realidade estava mais próxima da de figuras discriminadas que de femmes fatales exóticas. Tanto que a sociedade judaica da época não lhes permitia nem um enterro digno – a exemplo do que acontece com os suicidas.

O estigma as obrigou a ter um local de repouso separado, o Cemitério Israelita de Inhaúma, na zona norte do Rio. Fundado em 1916 pelas próprias prostitutas, ficou conhecido como Cemitério das Polacas.


Alexandre Carvalho é jornalista e criou, em 2005, a revista de cinema Paisà. é autor dos livros Inveja – Como Ela Mudou a História do Mundo (2015) e Freud – Para Entender de Uma Vez (2017)


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