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A alegoria da Revolução Russa no livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell

Uma das mais importantes obras ficcionais da História, conheça os paralelos entre o cenário de transformações na Rússia e na Granja do Solar

Isabela Barreiros Publicado em 02/12/2019, às 15h58

Lenin discursando para a multidão em 1917
Lenin discursando para a multidão em 1917 - Getty Images

Era 1945 quando George Orwell publicou uma de suas mais importantes obras. A Revolução dos Bichos, mais que fábula distópica, é uma alegoria a uma transformação que marcou a História durante o século 20: a Revolução Russa de 1917. Os paralelos entre os personagens de ambas as revoluções são mais que claros ao realizar a leitura do livro, ainda assim, ele representa muito mais.

Em A Revolução dos Bichos, os animais da fazenda Granja do Solar se juntam para derrubar seu dono, o Sr. Jones, que sofria com o alcoolismo e maltratava os animais do local, pagando-os com ração — que muitas vezes ainda não era o suficiente para alimentá-los.

É o Velho Major, o mais inteligente e respeitado de todos os porcos da fazenda, quem começa a plantar as sementes da revolução no imaginários dos animais. Ele acaba também tornando-se o líder da rebelião, visto que era preocupado com todos os presentes na granja e também com a injustiça causada pelo dono.

A este personagem podemos atribuir a importância associada a Karl Marx e Lenin dentro da ideologia comunista presente nos ideais da Revolução Russa. Marx, por seus escritos, manifestos e sabedoria, e Lenin por conta de sua liderança durante um dos momentos mais importantes da história de seu país.

Crédito: Getty Images

 

Ainda é possível associar outra questão importante nessas figuras. Major não chegou a ver a revolução com seus próprios olhos — é apenas depois de sua morte que os animais se organizam para tomar a fazenda do Sr. Jones. Marx também não chegou a ver nenhuma transformação radical na sociedade em que vivia, mas ainda sim inspirou diversos movimentos mesmo após falecer.

De volta ao livro, os porcos tornam-se líderes da Revolução dos Bichos, que muda o nome do local de Granja do Solar para Granja dos Bichos. Tudo parece ótimo entre eles, até que começam a surgir inúmeras contradições e também corrupções.

Quando Major morre, são dois porcos que assumem a hegemonia do poder na fazenda. Napoleão, que representa Stalin, e Bola-de-Neve, Trotsky, passam a comandar o local, mas as discordâncias tornam-se gritantes entre eles.

Napoleão, representante do autoritarismo de Stalin, tenta se livrar de Bola-de-Neve e consegue fazer com que ele seja incriminado e expulso da fazenda, sofrendo com o exílio como aconteceu também com Trotsky. Ele se tornou o que podemos considerar um “inimigo da revolução” nos olhos do povo a partir da manipulação do novo líder.

O porco, então, passa a governar apenas pelos interesses de sua própria espécie, e ainda começa a negociar com os humanos, estabelecendo seus privilégios perante os outros animais da granja. É assim que Orwell via a atuação de Stalin dentro do socialismo autoritário: uma subida no poder que se corrompe assim que alcança o objetivo da revolução popular.

Crédito: Getty Images

 

Ao final, não é possível perceber diferenças entre os porcos, aqueles nos quais os outros tanto confiaram para trazer a almejada liberdade e igualdade, e os homens, que no começo eram os responsáveis por todos os problemas causados na fazenda.  

“À primeira vista, "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, é só uma genial sátira à Revolução Russa (1917). Todavia, embora Orwell tenha buscado mostrar uma época específica, sua obra pode — e deve — ser vista como uma alegoria a qualquer revolução em que os mais fracos tomam o poder e, em seguida, são por ele corrompidos”, explica Márcio Senne de Moraes, jornalista da Folha de S. Paulo, em análise sobre o livro. 


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