As 10 mais assustadoras catástrofes ambientais

Os casos mais tétricos de negligência humana com a natureza

Fabio Marton Publicado em 03/12/2016, às 18h13 - Atualizado em 16/10/2018, às 11h48

Ruínas da usina da Union Carbide, em Bhopal
Ruínas da usina da Union Carbide, em Bhopal - Julian Nietzsche

Houve uma época em que jogar lixo tóxico no subsolo e nos rios parecia tão inofensivo quanto plantar batatinha ou fazer xixi no mar. Nesse mesmo período, fumar no elevador também era permitido. Não existiam ainda as leis ambientais nem controles adequados de segurança. Foi pelo método traumático que a humanidade aprendeu que empurrar o lixo para (quase literalmente) debaixo do tapete pode gerar consequências terríveis. A seguir, uma lista ilustrada com os piores desastres ambientais da história. Começando pelo mais antigo…

10. Rio de Sangue
Contaminação mineral (Espanha, 3000 a.C. até hoje)


Wikimedia Commons

Na Andaluzia, na Espanha, corre um rio que lembra uma das pragas bíblicas contra o Egito. Vermelho como sangue, o Rio Tinto é talvez o caso mais antigo de poluição conhecido.

Quase dois mil anos mais antigo, aliás, que as pragas do Egito (que a Bíblia diz que aconteceram durante o reinado de Ramsés II, entre 1279 e 1213 a.C.). Em 3000 a.C., os íberos e tartessos começaram a explorar minerais na cabeceira do rio, extraindo ouro, prata, cobre, ferro e manganês, no que talvez seja a mina mais antiga do mundo. Seguiram-se fenícios, romanos, visigodos e mouros, por fim os espanhóis, no século 16, e uma corporação britânica, a partir do 19. A mineração – e a poluição – segue ainda hoje.

A assustadora coloração vem do ferro diluído na água. Com um pH igual a 2, ela é tão ácida quanto o vinagre ou suco de limão. Também há, por ali, uma grande concentração de metais pesados letais. Obviamente, não é exatamente um santuário para a vida. Mas algumas bactérias ainda assim prosperam. O que é tão bizarro que Nasa conduziu um estudo com esses seres para avaliar a possibilidade de vida em Marte.

Falando em paisagens extraterrestres…

 9. Silent Hill da vida real
Fogo subterrâneo (Centralia, Estados Unidos, 1962 até hoje)


Wikimedia Commons

Em Centralia, Pensilvânia, o asfalto das ruas racha com o calor do subsolo, deixando sair vapor e fumaça tóxica. A cidade é tão tétrica que se tornou modelo para a série de games e filmes Silent Hill.

Para dizer a verdade, Centralia nunca foi grande coisa. O ápice da população foi em 1890, com 2.791 habitantes. A maioria eram funcionários das minas de antracite, carvão mineral muito valorizado.

A economia sofreu um baque imenso com a crise econômica de 1932, da qual nunca se recuperou. A maioria das minas fechou, e em seu lugar, entraram escavadores irregulares, que extraíam o mineral de colunas de carvão, deixadas de propósito pelos engenheiros para agirem como sustentação. Isso fez com que o teto das minas desabasse, impedindo o acesso.

Em 1962, as minas já estavam inativas quando o conselho da cidade teve a brilhante ideia de incinerar o lixo que atulhava o depósito municipal. O calor ou uma fagulha atingiu o subsolo, atingindo um veio de carvão.

O fogo foi se alastrando lentamente, por décadas, atingindo as áreas residenciais. Em 1979, o dono de um posto de gasolina (que vinha também a ser o prefeito) mediu a temperatura em um de seus tanques. O combustível estava a 77,8 graus. Dois anos depois, um menino de 12 anos caiu num buraco de 46 metros de profundidade que se abriu sob seus pés. Sobreviveu porque se agarrou em uma raiz, e foi resgatado depressa pelo irmão. Se não fosse isso, ele não teria durado muito lá embaixo, porque o buraco tinha uma quantidade letal de monóxido de carbono.

Em 1984, o Congresso Nacional americano alocou 42 milhões de dólares para transferir todo mundo para longe de Centralia. Mas algumas famílias insistiram em permanecer. No último censo, em 2010, a cidade quase fantasma contou 10 valentes (ou estúpidos?) moradores.

A terra do Sr. Burns é arroz-de-festa em nossa lista. Vejamos o próximo caso… 

8. Tsunami de Melado Explosão de tanque na Destilaria Purity (Boston, EUA, 1919)


Wikimedia Commons, 

Era uma quarta-feira até agradável no inverno de 1919. A temperatura tinha subido de trincantes 17 abaixo de zero para quase toleráveis 5 graus. Ao meio dia e meia, ouviu-se um som de metralhadora.

Fazia pouco mais de um ano desde o fim da Primeira Guerra, mas ninguém teve tempo de pensar se os alemães não tinham voltado. Nem fazer nada. A 56 km/h, uma onda de quase 8 metros de altura destruiu prédios, uma estação de metrô, cavalos e pessoas. Se fosse uma tsunami, talvez tivesse acabado melhor: a onda era feita de melado de cana de açúcar. Quem afundava na gosma não tinha a menor chance. Corpos despedaçados de pessoas e cavalos seriam encontrados no caos grudento, que levaria meses para ser limpo.

A onda veio de um tanque cilíndrico de 15 metros de altura por 27 de diâmetro, na Destilaria Purity, que fazia rum e álcool industrial com melado importado do Caribe. Com as temperaturas subindo, o produto começou a fermentar, liberando gás carbônico e aumentando a pressão no tanque. Até que os rebites se soltaram violentamente – daí o som de metralhadora – e as placas voaram, com o melado voando para todos os lados. 21 pessoas morreram.

A equipe de limpeza acabou espalhando o melado pela cidade, pelo metrô, telefones públicos, casas e ruas. Por meses, tudo o que os bostonianos tocavam era grudento, e por anos o cheiro de melado tomava a cidade em dias de verão.

E você aí achando que sua cozinha é bagunçada. Já que mencionamos tsunami… 

7.  A morte veio do mar
Central Nuclear Fukushima I (Okuma, Japão, 2011)


IAEA Image Bank

O Japão é provavelmente o país mais preparado do mundo no quesito prevenção de terremotos. Nas escolas, crianças passam por simulações, que incluem máquinas que imitam a sensação de terra chacoalhando. Os prédios usam a mais avançada tecnologia para evitar que tombem com os constantes tremores da ilha.

Mas nem o Japão poderia estar preparado para o terremoto de 11 de março de 2011. Foi o pior da história do país e o quarto pior da humanidade. A tsunami causada pelo tremor, que chegou a 40 metros de altura, invadiu a Usina Nuclear Fukushima I. Com a destruição do equipamento de refrigeração e contenção, três de seus reatores sofreram derretimento nuclear, contaminando a região com cerca de 24 quilos de césio 137, 20% do que foi emitido pelo acidente de Chernobyl.

Oficialmente, não houve nenhuma morte por exposição à radioatividade. Locais próximos à usina foram evacuados – mas não Fukushima, que é a capital da região e fica a 40 quilômetros dali. Segundo dados do governo japonês, 1656 pessoas morreram após o incidente, por “estresse” causado pela relocação (possivelmente, codinome para suicídio).

A maior vítima de Fukushima foi provavelmente a energia atômica. Protestos antinucleares, que não eram vistos há décadas, eclodiram em vários países. A Alemanha decidiu extinguir completamente sua capacidade nuclear. Isso é provavelmente para mal, porque usinas atômicas eram vistas como uma alternativa a combustíveis fósseis, pois não contribuem para o aquecimento global.

Por falar em combustíveis fósseis… 

6. 87 dias de devastação
Plataforma Deepwater Horizon (Golfo do México, 2010)


Wikimedia Commons

Qualquer um que conheça o verbete “meio ambiente” sabe que seu antônimo é “indústria petrolífera”. Poderíamos fazer outro post só com a destruição causada por eventos, como a queima dos campos de petróleo por Saddam Hussein durante as invasões de 1991 e 2003, o Acidente do Exxon Valdez em 1989, e (vai Brasil!) a destruição da plataforma P-36 em 2001.

Então falemos do pior, para representar todos. Em 20 de abril de 2010, um jato inesperado de metano subiu pelos canos da plataforma Deepwater Horizon, no Golfo do México, e se incendiou imediatamente, engolfando toda a construção, que foi ao fundo dois dias depois. Os corpos de 11 dos trabalhadores nunca foram encontrados. E era só o começo.

Por 87 dias, o poço destruído deixou vazar petróleo livremente no mar, afetando a vida marinha num raio de 80 quilômetros, do qual 80% não pôde ser limpo. Coral, golfinhos, peixes e aves marinhas morreram em massa. Milhões de litros de petróleo ainda estão no fundo do mar, e não se sabe se e quando a situação vai se normalizar.

Já mencionamos 3 vezes as agruras da terra do Tio Sam. Está na hora de passar ao outro lado do muro…

5. O deserto que a burocracia criou
Mar de Aral (Cazaquistão e Uzbequistão, 1960 até hoje)


Wikimedia Commons

O mar virou sertão. No início da década de 60, o Aral era o quarto maior lago do mundo – tanto que ganhava o nome de “mar”, ainda que fosse só uma enorme lagoa de água salgada. Cidades em volta floresciam com a indústria da pesca, fornecendo 1/6 de todos os peixes que iam parar às mesas soviéticas.

Então veio o algodão. Em 1960, como parte de um dos planos de cinco anos, o governo soviético desviou o curso de dois rios que abasteciam o Mar de Aral para plantações no deserto. O impacto não foi sentido imediatamente: o mar começou a descer uma média de 20 cm por ano na década de 60, que passou a 60 cm nos 70, e 90 cm nos anos 80. O mar deu lugar a um deserto salino e poluído com agrotóxicos das tais plantações. A salinidade matou os peixes, e os navios pesqueiros foram encalhados e abandonados no lugar.

Os engenheiros soviéticos sabiam no que estavam se metendo quando divergiram o curso dos rios. Mas ninguém teve coragem em contestar os planos do Politburo, o comitê central do Partido Comunista. Era, afinal, a União Soviética.

O fim do comunismo não mudou em nada a situação. Durante os anos 90, enquanto ainda era possível se falar em Mar de Aral, o governo do Uzbequistão continuou investindo firme em algodão no deserto. Em 2014, pela primeira vez, a planície do Mar de Aral tornou-se completamente seca.

O Mar de Aral prova que desastres ambientais não nascem sempre do capitalismo. Eles também podem surgir de burocracia estúpida e autoritária. O caso é que burocracia estúpida não precisa de comunismo para surgir. Voltando ao país que ocupa o maior número de posições nessa lista… 

4. Segredo macabro
Contaminação química em Love Canal (Niagara Falls, EUA, 1955-1978)


Retro Report, Reprodução

Com um nome tão adorável assim (“Canal do Amor”), não é difícil entender porque muita gente se interessou em mudar para o loteamento criado na cidade de Niagara Falls – aquela das cataratas – em 1955.

A primeira construção foi uma escola primária, que atraiu trabalhadores a se instalarem em volta. Logo nos primeiros anos, os moradores começaram a notar coisas esquisitas: das paredes do porão, vazava um líquido preto e viscoso. O lugar inteiro tinha um cheiro químico e uma cabeleireira teve de abandonar seu trabalho, num salão no subsolo, após desenvolver uma doença misteriosa. As árvores morriam. As crianças tinham uma brincadeira que só existia em Love Canal: jogavam lama no chão. Que explodia como um traque.

Isso acontecia porque a lama era rica em fósforo. O solo inteiro de Love Canal estava contaminado por milhões de barris de lixo tóxico, cortesia da Hooker Chemical, que usou o local como aterro entre 1942 e 1953.

A ficha só caiu mesmo em 21 de novembro de 1968, quando Karen Schoreder, criada em Love Canal, deu à luz a um bebê chamado Sherri. A criança era parcialmente surda, com buraco no septo do coração, ossos bloqueando a cavidade do nariz, orelhas deformadas e lábios leporinos. Quando começou a crescer, seus dentes se desenvolveram em duas linhas, como um tubarão, e a mãe percebeu que ela tinha deficiência mental.

Apôs inúmeros protestos e um grande escândalo na imprensa, a vizinhança de Love Canal acabou evacuada em 1978. Nisso foi descoberto que a indústria química nem era a maior vilã. Em 1953, ela foi procurada pelo Comitê Escolar de Niagara Falls, interessada em comprar o aterro. Apesar da recusa insistente da empresa, que deixou clara a situação do local, o comitê ameaçou com processo, e o negócio foi fechado por um dólar. Lá foi construída a escola primária, ao que se seguiu o loteamento. A empresa teve de pagar 129 milhões de dólares em 1995. Nenhuma autoridade municipal foi a julgamento.

Se você achou a história medonha, se prepare, que só piora daqui para a frente. A próxima aconteceu bem ao ladinho de casa… 

3. Terror tupiniquim
Acidente do césio 137 (Goiânia, Brasil, 1987)

 


Vítimas tiveram de ser enterradas em caixões de chumbo | Portal Radiologia

O pior desastre ecológico do Brasil um caráter amargamente tupiniquim: surgiu de uma mistura de miséria, ignorância e descaso.

Tudo começou quando dois catadores de sucata invadiram um prédio em ruínas, sem janelas, telhas ou portas, no centro da cidade. Até onde dois anos antes, lá funcionava o Instituto Radiológico de Goiânia. Levaram do local o núcleo de um aparelho de radioterapia – um feixe focado de radiação usado para matar células cancerígenas.

A cápsula foi parar no ferro-velho de Devair Ferreira, que a abriu a marretadas, para revender o que encontrasse dentro. O que achou foi o pó de césio 137, fonte da radiação. O pó brilhava no escuro com uma luz azul, o que deixou o sucateiro encantado. Devair decidiu mostrar para todo mundo o achado. Ele até mesmo deu um pouquinho do pó para seus amigos e família.

Todo mundo exposto ao césio começou a apresentar náuseas, tonturas e vômitos – os primeiros sintomas que o DNA das células foi destruído pela radiação, e elas não podem mais se reproduzir. Os médicos levaram 16 dias para entender.

Oficialmente, 4 pessoas morreram de exposição aguda à radioatividade: a mulher e a sobrinha do sucateiro, que sobreviveu, e dois funcionários.Segundo a Associação das Vítimas do Césio 137, foram 104. 13,4 toneladas de lixo atômico, como roupas, plantas, corpos de animais e objetos tocados pelas vítimas foram enterradas num depósito a 24 quilômetros de Goiânia, e devem permanecer lá por pelo menos 180 anos.

Isso dá ao Brasil a duvidosa medalha de prata em matéria de catástrofes radiológicas, perdendo apenas para Chernobyl. Falando no diabo…

 2. Na memória de todos
Central Nuclear Chernobyl (Pripyat, Ucrânia, 1986)


Reprodução

Claro, não podia faltar na lista o desastre número um na memória coletiva. É provável que o leitor tenha uma ideia do que aconteceu: em 26 de abril de 1986, explodiu um dos reatores da Usina Nuclear Chernobyl, na Ucrânia. O incêndio que se seguiu liberou uma nuvem radioativa que atingiu países tão distantes quanto a Itália e Finlândia. A cidade de Pripyat foi evacuada, e a zona de exclusão permanece até hoje. Atraindo turistas.

O total de mortes é extremamente controverso, e nunca vai ser conhecido exatamente. Simplesmente não dá pra dizer com certeza que alguém que morreu de leucemia na Bielorússia em 2015 só teve a doença por causa da nuvem radioativa em 1986. 31 bombeiros e funcionários da usina, que trabalharam na contenção do fogo, morreram de exposição aguda à radiação. Outros 246 trabalhadores morreram entre 1991 e 1998 de doenças circulatórias e leucemia. Quanto ao resto da população afetada, aí começa a controvérsia:relatórios das Nações Unidas estimam que 4 mil pessoas morreram ou vão morrer pela exposição.O Greenpeace fala em 200 mil – mas não é, vamos convir, uma fonte neutra.

Vamos falar de algumas coisas que talvez você não saiba de Chernobyl. A mais surpreendente: a usina continuou operando com seus outros reatores (eram quatro)… até 2000. Só parou após a Ucrânia receber dinheiro dos países ocidentais para construir outros geradores de energia.

Outra: o desastre talvez tenha um lado positivo para a natureza. Apesar da contaminação, plantas e animais tomaram conta da paisagem antes dominada pela cidade. Isto é, a contaminação radioativa não é tão ruim quanto a presença humana. Faz pensar.

Chernobyl é o número um na memória popular, mas apenas o dois na nossa lista. Porque nada se compara ao pior desastre industrial da história. Cuidado, imagem forte a seguir… 

1. Pior que a Primeira Guerra
Vazamento de gás industrial (Bhopal, India, 1984)


Raghu Rai, Times of India

 

Válvula de segurança. Saída de lições como o desastre do melado, ela está lá para impedir que um tanque com produtos químicos exploda com a pressão. Mas “segurança” talvez seja um pouquinho de otimismo. Na fábrica de pesticidas Union Carbide India, madrugada de 2 para 3 de dezembro de 1984, uma falha de manutenção fez com que um tanque com isocianato de metila começasse a ser enchido de água. Isso causou uma reação química descontrolada, que elevou a temperatura interna a 200o C. O tanque começou a acumular pressão e a válvula de segurança fez seu trabalho, abrindo-se automaticamente. Liberando 30 toneladas de veneno no ar.

O isocianato de metila é altamente tóxico, destrói olhos, pele e as vias respiratórias. A nuvem de destruição foi levada pelo vento para uma favela próxima, onde a maioria já estava no sétimo sono. Quem foi acordado tratou de correr, o que só piorou a situação: eles inalaram mais veneno do que quem ficou parado em casa. As crianças eram particularmente susceptíveis, porque os gases eram mais pesados que o ar, e eram mais densos próximos ao chão. No dia seguinte, as vítimas cobriram as ruas da cidade, numa cena de guerra.

Literalmente guerra. Durante os quatro anos da Primeira Guerra Mundial, 90 mil pessoas morreram por ataques com armas químicas. Em Bhopal, apenas um dia, 25 mil pereceram, segundo as estimativas mais altas. Isso é seis vezes mais que Chernobyl e mais que todos os franceses, alemães e ingleses somados na Grande Guerra. O governo indiano ressarciu apenas 5.295, o número oficial.