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Cartas do Holocausto: Relatos relevam os momentos finais das vítimas do Führer

Escritas em 1944, correspondências enviadas por vítimas do Holocausto a seus familiares mostram os últimos momentos da Segunda Guerra

Joseane Pereira Publicado em 03/09/2019, às 13h00

Conheça a triste história de Isabella Fodor e sua filha Gita
Conheça a triste história de Isabella Fodor e sua filha Gita - Reprodução

O Memorial Yad Vashem, localizado em Jerusalém, abriga cartas escritas pelas vítimas judaicas do Holocausto. As correspondências foram enviadas de esconderijos, guetos, prisões e acampamentos de diversos países, e apresentam despedidas e comentários às vezes ingênuos sobre a situação vivida durante a Segunda Guerra Mundial.

Os documentos estão compilados pelo projeto Recolhendo os Fragmentos, organizado por pesquisadores do Memorial, e mostram a perspectiva das vítimas, permitindo que suas identidades sejam restauradas. 

Última carta de Isabella Fodor

Gita, filha de Isabella / Créditos: Reprodução

 

Isabella Fodor morava com seu marido, Chaim Fodor, e sua filha na Transilvânia, que foi anexada ao território húngaro de 1940 a 1945. Em março de 1944, quando os alemães ocuparam a Hungria, Isabella procurou a todo custo uma maneira de salvar sua filha, enviando-a para um orfanato a fim de ser adotada por outra família.

Na carta, a mãe renuncia os seus direitos parentais, e recomenda aos pais adotivos que convertam sua filha ao catolicismo. Isabella e Chaim Fodor morreram em campos de extermínio dois meses depois, e a nota foi doada pela própria Gita ao Memorial Yad Vashem.

Carta de Isabella / Créditos: Reprodução

 

"3 de maio de 1944

Cara Sra Szmor,

Quem escreve esta carta é uma mãe perturbada que está sendo levada com sua família para um destino desconhecido. Você certamente já ouviu falar sobre a nossa situação atual - a mesma coisa que aconteceu na sua cidade, está acontecendo na nossa. Estou lhe enviando um documento de adoção da minha filhinha, em que eu a abandono para seu próprio bem. Desta forma, talvez ela seja salva e eles não a levem. Eu não tenho outra escolha. Eu te imploro, use este documento para que ela seja salva. Tente fazê-la entender que ela se converteu ao catolicismo e agora é cristã, e precisa ser educada como tal. (...) Eu te imploro, ame-a como uma mãe, para que ela sinta minha ausência menos intensamente. Não diga a ela onde estou. Tenho certeza de que há muita coragem em sua jovem alma e muitas perguntas sem resposta.

Mais uma vez peço-lhe, sra. Szomor, cuide da minha filha. 
Bella"

Último cartão postal de Bracha Igaz

Bracha Igaz / Créditos: Reprodução

 

Bracha Igaz escreveu esta carta de despedida ao seu marido em um gueto na Hungria, onde estava confinada com seus cinco filhos e todos os judeus da cidade. No mesmo dia em que escreveu, Bracha e seus filhos foram transferidos para a fábrica de tabaco local e, um mês depois, transportados para Aushwitz - onde foram assassinados. Seu marido, Yaakov, que sobreviveu ao Holocausto, e nunca se casou novamente, guardou esta lembrançã de sua família.

A carta / Créditos: Reprodução

 

"Meu querido,

Com o coração partido, lhe informo que estamos indo para a fábrica de tabaco. O que posso dizer? Meu coração está à beira de quebrar. Você pode imaginar meu estado mental. Eu poderia suportar a mudança para a fábrica, mas sei que isso não terminará aí. Quase certamente, na próxima semana vamos embarcar nos vagões de gado e ir embora. Para onde? Só Deus sabe. 

Imagine meu estado, e o sofrimento indescritível de nossas cinco criancinhas inocentes. Meu coração está prestes a quebrar. Eu choro noite e dia. Pois se você estivesse aqui conosco, talvez fosse mais fácil para nós. Agora meu querido, nos despedimos de você. Não sei se nos encontraremos novamente nesta vida. Ore ao bom Deus para ser misericordioso conosco, pois não podemos suportar esta situação por muito tempo...

Deus esteja com você. Cargas de beijos.

Sua esposa sofredora e os filhos

Bracha Igaz"

Cartão postal de Susan e Lili

As irmãs / Créditos: Reprodução

 

Em 1944, os judeus do distrito de Bihar, na Hungria, foram instalados pelos nazistas em terras agrícolas sob condições deploráveis. Lá estavam as irmãs judias Suzane e Lili, que ao sentir saudades de seu pai escreveram um cartão postal em letras infantis. Algum tempo depois, as meninas foram deportadas com a mãe para Auschwitz, onde foram assassinadas. Seu pai, Hugó Klein, sobreviveu ao Holocausto e se casou posteriormente com uma prima de Matild, imigrando para Israel em 1957.

Cartão postal / Créditos: Reprodução

 

"Querido papai 
Nós estamos bem 
Adeus 
Susan e Lili".