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Assassinado pelo marido da amante: a desgraça de Gabriel, pai de Jânio Quadros

Em um episódio caótico, Gabriel lutou pela paternidade dos filhos da amante

Giovanna de Matteo Publicado em 04/08/2020, às 13h02

Briga corporal entre José Guerreira e Gabriel Quadros
Briga corporal entre José Guerreira e Gabriel Quadros - Divulgação

Gabriel Quadros, Médico e farmacêutico de formação, e deputado pelo Partido Trabalhista Nacional, PTN, morreu em maio de 1957 numa situação digna de roteiro de filme.

A história do assassinato de Gabriel remete-se à época em que ele se elegeu vereador pelo Partido Democrata Cristão (PDC), em 1951, e tinha como cabo eleitoral o feirante José Guerreiro, dono de uma barraca de limões. Sem nem pensar duas vezes, o vereador iniciou um caso com a mulher de Guerreiro, Francisca Flores, também conhecida como Nena.

Jânio Quadros
Jânio Quadros / Crédito: Divulgação

 

A luta pela paternidade

De acordo com o São Paulo In Foco, após Francisca engravidar de gêmeos, a paternidade dos seus filhos foi motivo de disputa entre Gabriel e José, que chegaram até mesmo a brigarem corpo a corpo em meio a Praça da Sé, em São Paulo, para decidirem quem era o pai dos meninos. Todavia, enquanto a disputa acontecia, Nena afirmava que os gêmeos eram filhos de Gabriel Quadros. Nesse meio tempo, ela se mudou para um sobrado que Gabriel Quadros possuía na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo. Todavia, a situação ficaria ainda mais caótica. 

Apesar de ter afirmado que os gêmeos eram de Gabriel, quando os meninos cresceram pode-se perceber a semelhança de fisionomia com José Guerreiro. Embora o mistério da paternidade tivesse sido resolvido, o deputado Gabriel não desistiu e defendeu a guarda dos gêmeos até o fim.

José Guerreiro, o verdadeiro pai, não aceitou essa condição e armou um plano para "sequestar" seus filhos. Numa visita a Nena, José pegou seus filhos contra a vontade da mãe e os levou para sua casa na Mooca, zona leste de São Paulo. Ao saber disso, Gabriel Quadros preparou uma quadrilha com o objetivo de "resgatar" os jovens na casa de José. 

Pancadaria e tragédia

Era 18 de maio de 1957, quando o deputado e três de seus homens arrombaram a porta do cômodo onde José estava. Logo avançaram para pegar os gêmeos. Quando o feirante percebeu que estava sendo atacado, lutou contra os agressores usando um pedaço de caibro que encontrou perto da cama. José conseguiu imobilizar seu rival e segurar a arma, todavia, atirou seis vezes contra Gabriel Quadros, que caiu morto no mesmo momento.

Os capangas do deputado correram ás pressas levando os gêmeos junto. Guerreiro sentindo-se derrotado, voltou até o seu cômodo, se vestiu e saiu rapidamente do local. No entanto, o caos estava feito.

Após a confusão, as ruas próximas á casa de Guerreiro foram tomadas por uma multidão de curiosos. Os vizinhos prestaram testemunhos voluntariamente á polícia, que isolou a área para efetuar o exame pericial. A Polícia Rodoviária foi enviada para vigiar as saídas de São Paulo, com o objetivo de impedir que os capangas de Quadros conseguissem fugir com as crianças.

Ao mesmo tempo, o corpo de Gabriel Quadros foi levado para o necrotério do Hospital Santa Catarina, onde a causa da morte foi avaliada como “hemorragia interna traumática”. Depois do crime, houve relatos de que Nena saiu de sua casa ás pressas, quando entrou um carro que a aguardava, que era o mesmo que os homens de Gabriel Quadros utilizaram para fugir junto com os filhos.

Após ter conhecimento do crime, Jânio Quadros abriu investigação e afirmou: “O homicídio de que foi vítima o deputado Gabriel Quadros deve ser objeto de rápido inquérito, para apuração de responsabilidades. O autor (ou autores) não sofrerá qualquer coação ou violência, assegurando vossa excelência o governador, de forma absoluta, garantias e direitos da lei”. Durante o enterro, Jânio também disse à imprensa que José Guerreiro agira em legítima defesa.

Enterro de Gabriel Quadros
Enterro de Gabriel Quadros. Divulgação

 

O feirante foi perdoado por Jânio, porém foi indiciado e preso. Todavia, acabou ganhando a liberdade sem ir a júri, no ano de 1959. Jânio, apesar de ter afirmado que deixaria a política após a morte trágica de seu pai, se candidatou e foi eleito deputado federal pelo PTB no Paraná. Francisca Flores reapareceu tempo depois com os gêmeos, que os criou até o fim da vida.