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Ataques à oposição, fraudes e acusações: Entenda como nasce o populismo

O populismo é uma febre. Um aviso de que algo não está funcionando na democracia liberal

Redação Publicado em 23/05/2020, às 08h00

Donald Trump
Donald Trump - Getty Images

É um daqueles palavrões políticos que são usados só para definir adversários: “populista”. Com ele, vem a acusação de o político rival estar mentindo deliberadamente, fazendo promessas que sabe ser irresponsáveis, apelando aos sentimentos primitivos do eleitorado.

Em outras palavras, se comportando como qualquer político.

Assim como ocorre com o palavrão político número 1, fascista, disparado à esquerda e à direita, antes de conversar sobre populismo é preciso chegar a uma definição mais exigente. O que, afinal, as pessoas querem dizer quando atribuem o mesmo termo a gente tão ideologicamente distante quanto Donald Trump e Nicolás Maduro? Ou figuras históricas como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek? Sequer existe populismo?

Duas definições

Existe. Mas há duas coisas muito diferentes aqui que atendem pelo mesmo nome. Uma é rifar o futuro para manter o poder no presente. Outra é rejeitar o jogo político tradicional, transformar a oposição em inimigos do povo e da pátria e adotar planos em conflito com os direitos e a forma de atuar do Estado estabelecida na Constituição — e mesmo nas leis comuns. As duas costumam andar juntas, mas não sempre.

“Na literatura especializada há a diferença entre populismo econômico e político”, afirma Pedro César Dutra Correa, professor da UFRGS e autor de O Mito do Populismo Econômico de Vargas.

“O político foi o primeiro que surgiu — era associado a um líder carismático, que distribuía benefícios para as massas e é associado, principalmente, ao século 20, já que houve a chegada do rádio e da TV. O populista, na fala típica, cria um partido para ele, governa com sindicatos ou até com um Congresso fechado.”

“O termo populismo econômico”, continua, “veio depois: sugere o governante que adota medidas como aumento de salário mínimo, valoriza a moeda do país — o que consequentemente faz tudo ficar mais barato, as pessoas podem viajar para o exterior com mais facilidade, por exemplo. Ele gasta mais, sem se preocupar efetivamente com o depois — mas uma hora essa conta chega ou no seu governo ou nos seguintes”.

Cristóbal Rovira Kaltwasser, coautor do livro Populism: A Very Short Introduction (Populismo: Uma Muito Breve Introdução), tem uma definição um pouco mais específica da versão política:

“O populismo é uma ideologia política que não apenas afirma que a sociedade é dividida entre o povo puro e a elite corrupta mas também defende que a política é defender a soberania popular a qualquer custo. Isso significa que o populismo é, antes de mais nada, uma visão de mundo moral, na qual o povo é descrito como bom, enquanto a elite é retratada como ruim”.

Populismo também exige um populista: o grande líder que encarna a vontade do povo. Quase inevitavelmente um homem, com a capacidade de denunciar em palavras suficientemente agressivas os inimigos do povo.

Com ou sem a ajuda do Estado, um culto à personalidade existe em torno do líder. Os ataques à oposição podem ficar só no verbal ou passar a diversos abusos ilegais, entre fechar meios de comunicação, fraudar eleições, até assassinatos. As eleições continuam, mas a distinção entre uma democracia dominada por populismo e um regime autoritário pode se tornar nebulosa.

O fenômeno não é privilégio de esquerda ou direita. E, por diferentes que sejam os populistas nesses dois campos e suas propostas, eles seguem os mesmos princípios básicos.

Quando Maduro e Trump falam em povo, querem dizer a maioria. “Simplesmente declarado, o populismo é uma forma de extremo majoritarismo, que rejeita os direitos das minorias”, define Clas Mudde, coautor de Populism: A Very Short Introduction.

Trump em campanha nas eleições de 2016 nos EUA / Crédito: Wikimedia Commons

A maioria de Maduro é a camada mais pobre da população, majoritariamente não branca (56,4% da população). A elite de Maduro são as classes média e alta, majoritariamente brancas e onde está a maioria da oposição.

Trump governa num país em que a tradicional maioria de brancos já é quase minoria — segundo a última estatística do Departamento de Censo, os brancos não latinos eram 60% em 2017. Entre os brancos, conseguiu 58% dos votos (não ganhou entre nenhuma minoria, mas fez 33% entre os latinos).

A elite de Trump é econômica, mas também cultural: a população em média mais próspera, educada, multiétnica e socialmente liberal das regiões costeiras, acusada de desprezar com arrogância o “real” americano, o do interior, cristão, conservador (e frequentemente racista).