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Brilho da morte: 34 anos do acidente do Césio 137

O maior acidente radioativo no brasil e o maior fora de uma usina nuclear aconteceu em Goiânia

Lorena Verli Publicado em 05/09/2021, às 10h00

Fotografia tirada na época do episódio em Goiás
Fotografia tirada na época do episódio em Goiás - Por Carlos Costa, via Site da Secretaria de Estado de Saúde Governo do Estado de Goiás

Em 13 de setembro de 1987, dois catadores de lixo de Goiânia deram início ao que seria o pior desastre radioativo do mundo desde Chernobyl, em 1986. Ao arrombarem um aparelho radiológico, encontrado nos escombros de um antigo hospital, expuseram o césio 137, pó branco que emitia um estranho brilho azul quando colocado no escuro.

Considerado sobrenatural, o elemento radioativo criado em laboratório passou de mão em mão, contaminando o solo, o ar e centenas de moradores da capital goiana. Foram necessários 16 dias para perceberem que a substância estava adoecendo as pessoas.

Durante esse tempo, a contaminação só se espalhava — e, depois, os trabalhos de descontaminação produziram 13,4 toneladas de lixo radioativo entre roupas, utensílios, plantas, animais, restos de solo e materiais de construção.

Tudo isso foi armazenado em cerca de 1200 caixas, 1900 tambores e 14 contêineres, guardados em um depósito construído na cidade de Abadia de Goiânia, a 24 quilômetros da capital (e lá deve ficar por pelo menos 180 anos).

“O brilho da morte”, como o césio 137 foi chamado por Devair Alves Ferreira, a primeira pessoa a entrar em contato direto com o elemento, fez centenas de vítimas. Quatro morreram cerca de um mês após a exposição. Entre elas, a sobrinha de Devair, Leide das Neves, uma menina de 6 anos considerada a maior fonte humana radioativa do mundo.

Quase uma década depois, o governo passou a pagar pensões vitalícias para as vítimas que, no entanto, reclamam de um descaso do poder público. Em 1996, a Justiça condenou, por homicídio culposo, três sócios e um funcionário do hospital abandonado a três anos e dois meses de prisão. As penas foram trocadas por prestação de serviços.

A cápsula de onde saiu o Césio-137 / Crédito: Comissão Nacional de Engenharia Nuclear

 

Confira o trajeto da fatal luz azul:

1. 13 de setembro

Os catadores de lixo Roberto dos Santos e Wagner Mota removem partes de um aparelho usado no tratamento de câncer das antigas dependências do Instituto Goiano de Radioterapia. O objetivo era vender o metal do equipamento para um ferro-velho. Arrombaram a máquina e deram início à contaminação.


2. 18 de setembro

Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho perto do hospital desativado, compra a peça. No mesmo dia, ele arromba a máquina e entra em contato com 19,26 gramas de césio 137. Ele descobre que a substância, em ambientes escuros, emite uma luz azulada. Encantado, acredita estar diante de algo sobrenatural e leva o pó para casa.


3. 18 a 21 de setembro

Devair recebe a visita de parentes, vizinhos e amigos interessados em ver a misteriosa luz azul. Todos começam a apresentar tonturas, náuseas, vômitos e diarreia — os primeiros sintomas da contaminação radioativa. No dia 19, seu irmão Ivo leva a substância para casa e logo ela se transforma em um brinquedo nas mãos de sua filha de 6 anos, Leide das Neves.

Imagem ilustrativa do Césio-137 / Crédito: Divulgação/Rede Globo

 


4. 26 de setembro

Odesson Ferreira, outro irmão de Devair, entra em contato com a substância. Motorista de ônibus, contamina centenas de passageiros. Considerado uma alta fonte de contaminação, seu veículo foi destruído como lixo radioativo. Enquanto isso, os hospitais entram em alerta com o número de doentes com os mesmos sintomas.


5. 29 de setembro

Maria Gabriela, esposa de Devair, suspeita que o pó branco seja o responsável pelos sintomas e leva a cápsula de Césio 137 para a Vigilância Sanitária. O físico Walter Mendes é chamado e descobre tratar-se de uma substância radioativa. Ele chega a tempo de impedir que os bombeiros joguem a cápsula dentro do Rio Meio Ponte, principal fonte de abastecimento da cidade.


6. 30 de setembro

Os técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) chegam a Goiânia e, junto com a polícia militar, começam os trabalhos de descontaminação. Centenas de pessoas que apresentam os sintomas do contato com o Césio 137 são colocadas de quarentena num estádio, onde passam por uma triagem para identificar o grau de contaminação.


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