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Chá da meia-noite: a falsa bebida letal da Gripe Espanhola no Brasil

O boato de que um hospital servia chás envenenados na cidade do Rio de Janeiro alimentou ao imaginário popular por muito tempo

Caio Tortamano Publicado em 18/04/2020, às 10h00 - Atualizado às 13h00

Carro alegórico fazendo alusão ao chá da meia-noite
Carro alegórico fazendo alusão ao chá da meia-noite - Biblioteca Nacional

No contexto de uma outra pandemia, durante a crise da Gripe Espanhola no Brasil no ano de 1918, as mortes por conta da doença foram um marco para a saúde pública brasileira. Ela começou a ter uma formalização maior depois que o problema atingiu extremas proporções, principalmente pela falta de apoio das unidades de saúde das cidades brasileiras.

Pelas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro — cidades mais afetadas pelo desastre da saúde — eram centenas de corpos deixados nas ruas para que mutirões da polícia e de serviços sanitários recolhessem os cadáveres. Era um verdadeiro cenário apocalíptico.

Isso pela superlotação dos hospitais, muitos destes eram instituições religiosas, que não tinham todo o equipamento necessário para tratar uma gripe tão letal como a espanhola. Além disso, a população mais pobre sofria ainda mais com a doença, já que não existiam hospitais públicos que pudessem atender a essas populações.

As famílias abastadas, por sua vez, conseguiam ter seus espanholados — como eram chamados os acometidos pela gripe — enviados para suas casas de campo, praticando o distanciamento social e, principalmente para os não infectados, estarem longe das aglomerações urbanas que eram um verdadeiro centro de disseminação da doença.

No meio disso tudo, começou a circular, no Rio de Janeiro, um boato de que um hospital estava se livrando dos doentes terminais da gripe espanhola de um jeito nada ortodoxo. A Santa Casa da Misericórdia, que atendia grande parte do público geral da capital, tinha a prática de dar um chá envenenado para esses pacientes, a fim de acelerar a desocupação de leitos no local.

Fachada da Santa Casa da Misericórdia no século 19 / Crédito: Wikimedia Commons

 

A iguaria, servida sempre ao início da madrugada, foi apelidada de chá da meia-noite, e a imprensa começou a chamar a Santa Casa de Casa do Diabo. A oferta do chá era sempre feita com a promessa de que os enfermos iriam melhorar subitamente, e que seria dado como um prêmio para os enfermos com melhor comportamento.

Essa lenda popular deu ao carnaval carioca do ano seguinte (1919) a oportunidade de superar de vez a gripe espanhola — que já via seus números de casos extremamente reduzidos e a situação pública normalizada. As marchinhas cariocas e os desfiles de carros alegóricos seguiam o tema do Chá da meia-noite, simbolizando os tempos difíceis que foram recentemente superados.


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