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Ciência e religião: guerra inevitável

As novas possibilidades tecnológicas nos levam a questões profundas sobre o significado do ser humano

Coluna - David N. Livingstone e John Hedley Brooke Publicado em 14/03/2021, às 10h00

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Imagem ilustrativa - Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Olhando para a História, encontramos várias ocasiões em que a ciência e a religião entraram em conflito. No início do século 17, alguns católicos acharam as novas teorias do organismo perturbadoras por causa dos desafios que eles mesmos colocaram no entendimento da eucaristia.

Para alguns judeus, a proibição da astrologia entre 200 e 500 a.D. reprimiu o estudo astronômico. Para os bíblicos, a evolução de Darwin provoca uma postura de oposição.

Por outro lado, podemos identificar diferentes pontos de conciliação e enriquecimento dos dois lados, como uma negociação.

Por exemplo, a ideia bíblica de que a humanidade vem de uma única fonte, e, assim, essa crença inspirou a busca por respostas como o início da linguagem humana e as rotas que os humanos já fizeram pelo mundo, como os primeiros povoamentos.

No século 17, instrumentos científicos como o telescópio e o microscópio foram considerados meios de reverter os efeitos dos pecados de Adão. Métodos científicos e instrumentos foram vistos pela Igreja como meios de amenizar os problemas cognitivos e sensoriais do homem que acreditava-se serem fruto da pecaminosidade humana. Ou considere toda a questão de design no mundo.

Essa ideia foi fundamental para o desenvolvimento da ciência e da ecologia. A chave para os trabalhos de história natural, que enfatiza as conexões íntimas entre o organismo e o ambiente em que vive, foi a crença de que Deus havia adaptado os animais e as plantas para os determinados ambientes em que iriam habitar. Mesmo nos dias atuais pode haver benefícios que derivem do diálogo entre a teologia e o transhumanismo.

As novas possibilidades tecnológicas que estão nascendo nos levam a questões profundas sobre o significado do ser humano, um assunto do qual os teólogos têm muito a dizer.

Pelo menos, a teologia provou ser útil na conversação que articula os valores pelos quais julgar as capacidades humanas que poderiam ser desenvolvidas prioritariamente.

Com as diferentes fontes de autoridade, sempre existirá divergência, tensão e até comunhão entre as representações religiosas e científicas. Mas tensão, divergência e animosidade – até mesmo o conflito – não são o mesmo que a inevitável guerra. Muitas pessoas religiosas são indiferentes à ciência.

Muitos cientistas experimentaram a alienação vinda da religião. Uma desconfiança mútua comum. Mesmo assim, repito que: indiferença, alienação e suspeita não são
a mesma coisa. As palavras “ciência” e “religião” sofreram profundas mudanças de significado.

Só no meio do século 19 que a ciência se tornou um guardachuva capaz de capturar a expansão de investigação das especialidades empíricas, supostamente – mas nem sempre – unidas por um “método científico” comum.

As religiões conseguem sobreviver às sociedades tecnológicas? Elas já conseguiram – e por uma razão importante. Elas conferem as identidades e buscam encontrar significados nos eventos, para interpretar o universo, sem obter como o principal a explicação dele.

Como Terry Eagleton disse um dia: “O erro de acreditar que a religião é uma tentativa fracassada de explicar o mundo é igual a enxergar o balé como uma tentativa fracassada de correr em direção a um ônibus”.


David N. Livingstone é professor de Geografia e História da Universidade de Belfast. 

John Hedley Brooke é professor de Ciência e Religião da Universidade de Oxford.


**A seção coluna não representa, necessariamente, a opinião do site Aventuras na História