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Como a Gripe Espanhola acabou?

Epidemia que vitimou mais 50 milhões de pessoas possui diversas semelhanças com crise atual de coronavírus. "Parece uma máquina do tempo", dizem especialistas

Fabio Previdelli Publicado em 28/07/2020, às 16h49

Enfermaria carioca de 1918 com infectados pela gripe
Enfermaria carioca de 1918 com infectados pela gripe - Divulgação/Biblioteca Nacional

Em 1918, a pandemia da Gripe Espanhola varreu os Estados Unidos, a Europa e diversos outros países, deixando, aproximadamente, mais de 50 milhões de pessoas mortas em todo o mundo. A crise começou entre janeiro e fevereiro daquele ano nos EUA, quando centenas de pessoas faleceram após apresentarem fortes dores de cabeça, dificuldade respiratória, tosse e febre alta.

Alguns meses depois, pacientes na França, Bélgica e Alemanha tiveram sintomas clínicos semelhantes e, em maio, um festival religioso na Espanha causou um surto da mesma doença que até então era misteriosa. Considerada uma das pandemias mais devastadoras da história, seu legado deixa agora lições que podem e devem ser passadas adiante nesta atual crise do coronavírus.

Mas, afinal, como a Gripe Espanhola cessou?

Para entender o final dessa história, no entanto, é preciso compreender os meios que levaram a esse caminho. Esse é um dos assuntos estudados pelas historiadoras espanholas Laura e María Lara Martínez, que além de analisarem os dois últimos anos da doença, também fizeram um paralelo entre a Covid-19 e a pandemia do século passado.

Polciais observam vítima da Gripe Espanhola / Crédito: Biblioteca Nacional

 

"Parece uma máquina do tempo, tudo o que investigamos está se tornando realidade dia após dia", disseram as irmãs em entrevista à EuroNews. Segundo contam, em 1918, as pessoas também disseram que tudo não passava de um “resfriadinho”, porém, assim como acontece atualmente, esse pensamento só serviu para que os sistemas de saúde sobrecarregassem rapidamente.

Medidas

Por outro lado, medidas de isolamento social também foram adotadas há mais de um século, assim como o fechamento de teatros, escolas e fronteiras. O cuidado sanitário também passou a ser muito importante, com espaços públicos sendo desinfetados com regularidade. Segundo as historiadoras, as pessoas que não usavam máscaras poderiam ser multadas em até 100 dólares nos Estados Unidos.

Em 1918, as pessoas rapidamente assimilaram que as multidões poderiam causar transmissões. "Os bloqueios foram implementados e houve progresso na aplicação de medidas preventivas que historicamente se mostraram eficazes", complementa o historiador Jaume Claret Miranda.

Porém, sem a perspectiva de uma vacina, o vírus continuou se espalhando. A segunda onda da epidemia, por exemplo, foi mais mortal que a primeira. Na Espanha, essa data coincidiu com as colheitas e celebrações em setembro, bem como o relaxamento das medidas de isolamento.

Enfermeira e paciente infectado, durante surto da gripe espanhola / Crédito: Wikimedia Commons

 

Os surtos também ocorreram durante o inverno, explica Jaume, que acrescenta que, em algumas regiões, houve inclusive o início de uma terceira onda na década de 1920. "O fim da pandemia dependia de cada país: das informações e treinamento de seus especialistas e dos interesses de sua classe política".

Apesar de existir um conhecimento limitado dos historiadores em relação a pandemia no mundo ocidental, os acadêmicos concordam que o fim da pandemia ocorreu em 1920, quando a sociedade acabou desenvolvendo uma imunidade coletiva ao vírus — embora ele nunca tenha desaparecido completamente.

"Traços do mesmo vírus foram encontrados em outros vírus da gripe", explica Benito Almirante, chefe de doenças infecciosas do hospital Vall d'Hebron, em Barcelona. "A gripe espanhola continuou a aparecer, transformando e adquirindo material genético de outros vírus".

A “gripe A” (H1N1), de 2009, por exemplo, tinha elementos genéticos de vírus anteriores, portanto os indivíduos mais velhos estavam melhores protegidos que os jovens, por já possuírem anticorpos. Isso também ocorreu com a Gripe Espanhola, com pessoas com mais de 30 anos sendo mais propensas a sobreviverem devido a terem adquirido anticorpos da chamada Gripe Russa, de 1889 e 1890.

Mas como acaba uma pandemia?

Segundo Benito Almirante, esse marco se dá quando há uma transmissão comunitária controlada e os casos de contaminação estão em um nível muito baixo. “Na Europa, essa situação está chegando [com o coronavírus] porque os casos são facilmente identificados e podem ser rastreados. Se a situação continuar nas próximas semanas, a pandemia pode ser considerada controlada”.

Fila para distribuição de máscaras em São Francisco / Crédito: California State Library

 

Durante a pandemia de Gripe Espanhola, o medo social variou de acordo com o grau de informação que as pessoas tinham a disposição, outro fator foi como esses países foram afetados pela guerra, explica Claret.

"A memória das pessoas é curta", argumenta. "No entanto, [a Gripe Espanhola] deixou um certo legado no nível científico e entre especialistas, confirmando e agregando conhecimento sobre como essas epidemias devem ser tratadas". “A principal lição do passado”, diz Claret, é que "qualquer medida" anterior à pandemia descrita como "exagerada é posteriormente considerada insuficiente".


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