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Como fazíamos sem proteção ambiental?

Tacavam fogo? Caçavam tudo? Não é bem por aí

Nathalia Bustamante Publicado em 03/02/2019, às 07h00

Entenda
Pixabay

A ciência ecológica nasceu mais ou menos junto com a biologia moderna, com a explicação da evolução por meio da teoria da seleção natural. O termo foi criado por um dos primeiros entusiastas de Darwin, o alemão Enrst Haeckel, em 1866. No original alemão, Ökologie – vem do grego oikos, “habitação”. O estudo da morada (da natureza).

Antes da ecologia, as pessoas já tinham uma noção básica da economia ambiental. Nunca foi segredo que caçar um animal ou cortar uma árvore em demasia faziam a espécie rarear. A medicina pré-científica, desde Hipócrates, tinha o conceito de miasma, o ar ruim que causa doenças – poluição, enfim. Médicos árabes como Avicena já falavam em poluição do ar, da água e do solo. Reis e nobres tinham reservas de caça, e a pena por caçar ou cortar árvores ilegalmente podia ser a morte. 

Mas uma coisa é ver o dano óbvio e local, outra é perceber que isso pode ir muito além da perda de animais ou plantas úteis. A teoria mais aceita sobre os maias é que cortaram a floresta até mudarem o clima e causarem a seca e a fome generalizada, levando ao colapso de sua civilização. O mesmo teria acontecido aos nativos da Ilha de Páscoa, que destruíram seu ambiente para fazer seus monumentos, os moais. 

Curiosamente, o maior vilão da mudança climática, o carvão mineral, nasceu de uma questão ecológica primitiva. Ele emite duas vezes mais carbono para uma mesma quantidade de energia que o petróleo ou gás natural. Seu uso em termoelétricas é responsável por quase metade das emissões de carbono humanas (dados do Worldwatch Institute). Durante a Idade Média, o carvão natural era usado para produzir ferro – e, de fato, é melhor nessa função que o carvão mineral, que contém impurezas. Mas isso levou ao quase total desflorestamento da Inglaterra. 

Assim, o carvão mineral, combustível fóssil, surgiu como um substituto, para preservar as florestas. Quando a Revolução Industrial começou, seria movida a carvão mineral, não vegetal – iniciando a mudança climática atual.

Também na era industrial, uma grande descoberta deu o pontapé inicial para a criação da ecologia: a ideia de extinção. Ainda que se soubesse que animais pudessem rarear, seu fim completo era visto como uma heresia. Seria uma quebra na Grande Cadeia do Ser, a ordem dos animais decidida por Deus, dos protozoários aos humanos. 

Conforme a geologia avançou, foi possível datar fósseis. E ficou claro que animais como mamutes e dinossauros eram de outras épocas e não estavam mais por aí. Isso levou cientistas como Georges Cuvier (1769-1832) a concluir que espécies podiam, sim, deixar de existir. Por volta da mesma época, a primeira extinção bem-documentada, a do pássaro dodô das Ilhas Maurício, foi reconhecida pelos cientistas. 

O ambientalismo moderno nasceu no século 19, mas não é um só. Possui duas vertentes, arcadismo e imperialismo, identificadas pelo historiador americano Donald Woster em 1994, em seu livro A History of Ecological Ideas (Uma História de Ideias Ecológicas, sem tradução). Essas duas alas ainda hoje definem o debate da preservação ambiental e estão longe de se reconciliarem.

A primeira vertente do conservacionismo nascia de um local improvável e nada científico: a poesia. O arcadismo, a ideia ancestral do refúgio junto à natureza intocada, da harmonia das necessidades humanas com as do ambiente, era um conceito caro aos poetas e artistas românticos, que se instalavam em propriedades rurais para se inspirarem. A apreciação da natureza esteve por trás das primeiras iniciativas estatais, a criação do Parque de Yellowstone, nos EUA, em 1872. 

Ao romantismo, à ideia da natureza sagrada, se opõe o imperialismo ecológico: pelo qual podemos nos servir como quisermos dela. Sua origem é bíblica, Deus deixando as espécies ao dispor da humanidade. Nessa vertente, preservação é uma questão prática, de sobrevivência. Da religião, passou à ciência. Que entra em confronto com certos ambientalistas em assuntos como o uso de cobaias.