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Como Napoleão Bonaparte se tornou o imperador da França

Inteligente e estratégico, o quarto filho da família Bonaparte cresceu em uma nação turbulenta, cujo trono ele acabou assumindo no dia 02 de dezembro de 1804

Odair Chiconelli Publicado em 16/05/2021, às 10h00

Retrato do imperador Napoleão Bonaparte
Retrato do imperador Napoleão Bonaparte - Creative Commons/ Wikimedia Commons

A ilha já fora de gregos, romanos, lombardos e de outros povos que a conquistaram ao longo de quase dois milênios. A partir do século 13, passou a ser governada por Gênova, que a manteve sob sua tutela até 1755, quando grupos nacionalistas tentaram estabelecer a República da Córsega.

Após nove anos de embates, diante da dificuldade de suprimir o nacionalismo corso, Gênova solicitou à França o envio de tropas de apoio. Entretanto, impossibilitada de quitar dívidas com o tesouro francês, cedeu a ilha a Luís XV, em 1768.

Quinze meses mais tarde, em 15 de agosto de 1769, nasceria o quarto filho da família Bonaparte, cujos antepassados eram nobres toscanos que haviam emigrado no século 16. Embora cidadão francês, Napoleão se expressaria somente em língua corsa ou em italiano até os 9 anos, quando foi estudar no continente.

Após quatro meses no Liceu de Autun, cinco anos na Escola Militar de Brienne e um na Escola Real do Campo de Marte, em Paris, ele se tornou segundo-tenente do regimento de artilharia de La Fère, em Valence, início da ascensão meteórica do jovem corso em terras gálicas. A França vivia momentos de grande turbulência.

Em 1788, condições climáticas muito desfavoráveis haviam reduzido as colheitas e dificultado o transporte do trigo até os moinhos no inverno, diminuindo a oferta de farinha eaumentando do preço do filão de pão de 1,8 kg — o item mais importante na dieta da população à época, que passou de 8 para 14 sous em janeiro de 1789.

Pintura de Napoleão durante a juventude / Crédito: O Projeto Yorck/Creative Commons/Wikimedia Commons

 

Como consequência, tanto camponeses quanto moradores urbanos saqueariam moinhos e mercados. Diante da gravidade da situação econômica, a Assembleia dos Estados Gerais foi convocada, pela primeira vez desde 1614. Representantes do clero (primeiro estado), nobreza (segundo estado), bem como da burguesia e do povo (terceiro estado) se reuniram em maio de 1789, dando vazão a uma avalanche de protestos contra as injustiças sociais vividas pelo povo e os abusos de um estado perdulário.

Em junho, como a nobreza e o clero resistiam a renunciar às suas isenções de impostos e privilégios, os representantes do terceiro estado decidiram separar-se da Assembleia dos Estados Gerais, estabelecendo a Assembleia Nacional Constituinte. Em 14 de julho, a população atacou a fortaleza da Bastilha em busca de armas, ação que se transformaria no símbolo da Revolução.

Castelos, mosteiros e mansões também foram atacados por camponeses que protestavam contra a obrigação de cumprir direitos senhoriais feudais e de pagar dízimos ao clero, privilégios que foram abolidos em agosto para pacificar o país.

Com a transformação da França em monarquia constitucional, o Sacro Império RomanoGermânico e a Prússia passaram a conclamar outras potências europeias a restaurar o poder monárquico absoluto no país.

Em agosto de 1792, a Áustria e a Prússia invadiram a França, mas foram logo derrotadas. Nos próximos vinte anos, o país se envolveria numa série de outras guerras, tornando-se o primeiro a recrutar homens entre 18 e 25 anos para a defesa nacional.

A primeira pintura feita por Jacques-Louis David / Crédito: Getty Images

 

Período do terror

Desde o início da Revolução, muitos oficiais que pertenciam à aristocracia haviam deixado o Exército, que também teve de lidar com insubordinação, deserções e motins. No final de 1791, aproximadamente 6 mil oficiais já tinham abandonado seus postos, tendo sido substituídos por oficiais subalternos.

Após a extinção da monarquia e a execução de Luís XVI, Maximilien Robespierre e seus aliados jacobinos impuseram o Período do Terror, prendendo cerca de 300 mil suspeitos e executando oficialmente 17 mil supostos “inimigos da Revolução”, enquanto outros 10 mil teriam morrido em prisões. Mesmo oficiais de alta patente não estavam imunes.

Em clara mensagem de que o Exército devia se submeter ao novo poder civil, 84 generais foram guilhotinados entre 1793 e 1794. Essas políticas repressivas e a crescente centralização do poder em Paris resultaram em insurreições em toda a França. No final de 1793, a maior parte do sudeste do país se rebelava contra a República.

Em Toulon, monarquistas haviam cedido os fortes da base naval local a uma frota anglo-espanhola, que viera lhes dar suporte e havia tomado quase a metade dos navios da Marinha francesa, colocando em risco não apenas a segurança do país, mas também o tão esperado prestígio da Revolução.

Embora a resposta das tropas francesas fosse conduzida pelo general Dugommier, o sucesso do ataque para a retomada dos fortes foi creditado à capacidade tática do oficial de artilharia corso Bonaparte. Por seu desempenho no Cerco de Toulon, Napoleão — que já passara a major em setembro e a general-adjunto em outubro —, foi promovido a general de brigada em dezembro de 1793, aos 24 anos.

gravura de Napoleão na guiando seus exércitos / Crédito: Getty Images

 

As glórias de Napoleão

O irmão de Maximilien Robespierre, Augustin Robespierre, que viajara ao sul do país com a missão de conter as revoltas, tomou parte na retomada de Toulon e viu a ação de Napoleão, reportando seus “extraordinários méritos” em carta ao seu poderoso irmão.

Augustin teria também lido o panfleto pró-jacobino 'A Ceia em Beaucaire', escrito pelo então capitão Bonaparte, em que um soldado conversa com quatro mercadores, procurando mudar suas opiniões contrarrevolucionárias.

Em 1794, com a influência de Augustin Robespierre e do deputado corso Christophe Saliceti, Napoleão foi nomeado comandante da artilharia do exército francês que ocupava o noroeste da Itália desde 1792. Após dois anos de lutas, a Sardenha reconheceu a República Francesa e lhe cedeu o Ducado da Savoia e a cidade de Nice, garantindo ainda a passagem de suas tropas pelo seu território.

O futuro político de Napoleão começava a ser delineado sobre os louros da campanha italiana. Dois anos mais tarde, Napoleão expulsou os austríacos de Milão e os derrotou em território veneziano, obrigando-os a reconhecer a soberania da França sobre a parte sul dos Países Baixos e a Lombardia.

Napoleão Bonaparte após a coroação / Crédito: Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Após consolidar seu domínio do norte da Itália, conquistou Malta, Alexandria e o delta do Rio Nilo, de onde retornou à França em outubro de 1799, escapando de modo surpreendente do cerco que a marinha britânica impusera no Mediterrâneo, desde que destruíra a frota que o levara ao Egito.

Na França, Emmanuel-Joseph Sieyès, um dos teóricos da Revolução e membro do Diretório que comandava o país, estava convencido de que somente uma ditadura militar poderia evitar a restauração da monarquia. Com base na confiança que a população tinha em Napoleão, em 9 de novembro de 1799, um golpe obrigou os demais quatro membros do Diretório a renunciar, estabelecendo o Consulado sob o comando de Sieyès, Roger Ducos e Napoleão, o verdadeiro detentor do poder.

Em 1802, com o suposto suporte de Lucien Bonaparte, um plebiscito confirmou o cargo de Cônsul Vitalício para Napoleão, que, dois anos mais tarde, se transformaria em “Imperador dos Franceses”. Nesse momento, NapoleãoI organizou um grande exército no norte de França para atacar o Reino Unido, ao mesmo tempo em que ordenava o confisco de mercadorias provenientes desse país e de suas colônias.

Entretanto, entre 1804 e 1809, utilizou-o em uma série de guerras no continente, obtendo relevantes conquistas. A batalha mais emblemática ocorreu em 1805, em Austerlitz, na atual República Tcheca, onde Napoleão I derrotou a Rússia e a Áustria, apesar da inferioridade numérica do seu exército, obrigando a última a ceder à França todos os territórios que controlava na Itália. Em 1806, o imperador criaria a Confederação do Reno, reunindo os estados alemães que conquistara.

A Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David / Crédito: Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Ponto de inflexão

Com o controle direto ou indireto de praticamente toda a Europa, Napoleão I reuniu um exército multinacional de aproximadamente 612 mil homens na Polônia para atacar a Rússia, chegando a Moscou em setembro de 1812.

Entretanto, como os russos tinham incendiado a cidade e a abandonado, o imperador ordenou que as tropas partissem em retirada sob temperaturas de até 32°C negativos, nos meses de novembro e dezembro.

Apenas 112 mil soldados teriam conseguido retornar à fronteira, enquanto 150 mil feridos ou prisioneiros de guerra permaneceram na Rússia. Outros 50 mil teriam desertado e 300 mil teriam sido mortos em batalhas, por doenças ou pelo frio.

Apesar da dramática derrota, Napoleão I voltou a Paris e endureceu a ditadura que comandava, buscando obter novos recursos e homens para novas batalhas. Em março de 1813, a Confederação do Reno foi dissolvida com o suporte da Prússia, da Rússia e da Suécia, que tomaram Dresden e Hamburgo.

Embora o imperador, que partira de Paris com um exército de 226 mil homens, tenha conseguido vitórias iniciais, não teria o mesmo êxito contra as forças aliadas em outubro, quando sofreu decisiva derrota na Batalha de Leipzig.

Pintura de Napoleão / Crédito: Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Em novembro, os aliados ofereceram um acordo de paz, desde que o Rio Reno, os Alpes e os Pirineus fossem reconhecidos como fronteiras naturais pela França, mas quando Napoleão I enviou seu consentimento, em dezembro, a proposta já havia sido retirada e as operações de guerra prosseguiram, com grande suporte financeiro do Reino Unido.

No final do ano, a Prússia cruzou o Reno, chegando à cidade francesa de Saint-Dizier, em janeiro de 1814. A Rússia, a Áustria e seus aliados entraram em Paris em março, enquanto Portugal, Espanha e o Reino Unido invadiam a França através dos Pirineus.

Em abril, o Senado depôs Napoleão I, que abdicou dos tronos da França e da Itália em seu nome e em nome do seu filho de 3 anos, mas manteve o título de Imperador por toda a vida, conforme os termos do Tratado de Fontainebleau. Sua esposa, mãe, irmãos e sobrinhos também foram autorizados a manter os seus respectivos títulos.

Em maio, o Tratado de Paris restabeleceu a monarquia com Luís XVIII, irmão de Luís XVI. Às fronteiras que a França tinha em 1º de janeiro de 1792 foram acrescentadas partes da Savoia, bem como a cidade de Avignon e o enclave de Comtat-Venaissin, territórios papais que haviam sido anexados em 1791. A maioria das colônias francesas foi devolvida, com exceção das ilhas Maurício, Santa Lúcia, Seychelles e Tobago, que permaneceram sob a tutela da Grã-Bretanha.

Como os aliados desejavam uma paz reconciliadora, sem profundos rancores, apesar dos protestos do Reino Unido e da Áustria, não foram feitas demandas para reparações de guerra ou devolução das obras de arte saqueadas, que eram exibidas no Museu do Louvre ou enfeitavam as praças de Paris. As dívidas que a França contraíra com a Áustria e com outros países para o fornecimento de suprimentos para a campanha da Rússia também foram canceladas.

Retrato do Imperador Napoleão Bonaparte, 1804 / Crédito: Getty Images

 

Mais fogo do que sangue

O Tratado de Fontainebleau garantiu ao imperador uma pensão de 2 milhões de francos, que lhe seria paga anualmente pelo Tesouro francês; 400 homens de sua guarda, incluindo oficiais, soldados e voluntários, cujos custos ficariam a seu cargo; um destacamento de 1.200 a 1.500 homens armados para escoltar todos até a cidade litorânea de Saint Tropez, bem como uma embarcação de guerra e navios de transporte para levar o imperador, sua comitiva e bagagens ao exílio.

O menino que chegara ao continente havia 35 anos, sem nem mesmo falar francês, ascendera na França e conquistara o mundo, mas agora tinha que partir. Embora as potências vencedoras preferissem que ele fosse exilado em algum local bem distante da Europa, o imperador preferiu ir para a Ilha de Elba, a 270 km da costa francesa, que ele mesmo anexara em 1802.

Três séculos antes, Nostradamus previra Napoleão em sua Centúria VIII: “Pau, Nay, Loron, ele será mais fogo do que sangue,” em que o acrônimo “Pau, Nay, Loron” [Napaulon Roy] remeteria a Napauleone, enquanto “mais fogo do que sangue” remeteria ao caráter e à linhagem de Napoleão, que era mais um soldado (fogo) do que um nobre (sangue), conforme análise do escritor britânico Mario Reading, especialista na interpretação do significado oculto dos versos do profeta francês.

Sem o dom da profecia, mas com grande intuição e capacidade de observação, um professor do pequeno Napoleão teria escrito em sua avaliação anual: “Corso de caráter e nacionalidade, este jovem irá longe, se for favorecido pelas circunstâncias”.


Odair Chiconelli é professor de língua inglesa e pesquisador de história. em homenagem ao bicentenário da morte de Napoleão Bonaparte, escreveu uma trilogia sobre o imperador especialmente para a Aventuras na História. O texto acima é a primeira parte.


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