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Como a primeira antropóloga do Brasil enfrentou a ditadura militar

Sempre muito empática, Gioconda Mussolini sofreu com as perseguições de alunos e colegas em meio ao regime, segundo explicou, com exclusividade à AH, o professor Andrea Ciacchi

Pamela Malva Publicado em 17/04/2021, às 09h00

Repressão militar em tempos de ditadura
Repressão militar em tempos de ditadura - Divulgação

Em janeiro de 1934, o então governador (ou interventor) de São Paulo, Armando de Salles Oliveira, criou a instituição que logo se tornaria uma das faculdades mais conceituadas do país. Era o começo da imponente Universidade de São Paulo, a USP.

Naquele mesmo ano, uma mulher de inteligência singular se matriculou no Curso de aperfeiçoamento de professores primários do instituto. Com óculos largos em seu rosto delicado, Gioconda Mussolini logo se tornaria a primeira antropóloga do Brasil.

Dona de “trabalhos que ajudam a compreender muitos dilemas da sociedade contemporânea brasileira”, segundo o professor Andrea Ciacchi, a acadêmica teve aulas com grandes pensadores, como Claude Lévi-Strauss, e não apenas rompeu com padrões da época, como ainda modificou o cenário da pesquisa antropológica no país.

Quando chegou aos 50 anos, contudo, Gioconda viveu momentos de puro terror conforme a ditadura militar se instaurava no Brasil. Professora da própria USP, a antropóloga atravessou o Regime da melhor forma que conseguiu, apesar dos pesares.

Fotografia de Gioconda Mussolini / Crédito: Divulgação

 

Uma educadora de ponta

Com exclusividade ao site Aventuras na História, o professor Andrea Ciacchi, autor do dossiê ‘Do desembarque do navio ao embarque na canoa’ — que fala sobre a trajetória biográfica e intelectual de Gioconda — narrou a vivência da acadêmica na ditadura.

Naquela época, a antropóloga já era uma das professoras mais conceituadas da USP, adorada por grande parte dos seus alunos. “Ela foi uma extraordinária professora, formadora de antropólogos que consolidaram a Antropologia no Brasil”, contou Ciacchi.

Com um mestrado em Antropologia pela Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, Gioconda era uma estudiosa exemplar. “Todos os cientistas sociais formados na USP entre os anos 1940 e 1960 devem o melhor da sua formação a ela.”

Dois dos trabalhos de Gioconda / Crédito: Divulgação

 

Amigos do peito

Durante anos lecionando, então, a professora formou grandes acadêmicos que, além de conceituados antropólogos, ainda se tornaram seus grandes amigos. Fernando Henrique Ruth Cardoso, Florestan Fernandes, Roberto Cardoso de Oliveira, Antonio Augusto Arantes e Eunice Durham estão entre alguns dos seus colegas e alunos mais queridos.

“A grande maioria deles, que eu entrevistei, me deu depoimentos até mesmo emocionados, sobre o papel que Gioconda desempenhou na sua juventude”, narrou Andrea, que tenta publicar a tese de doutorado da acadêmica, com ajuda de Acauã Allende Silva Capucho, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana.

Diferente de muitos outros alunos, contudo, Gioconda cultivou uma amizade próxima e bastante duradoura com Florestan Fernandes, que também se tornou professor da USP. Para Andrea, ele foi uma das principais influências nas pesquisas antropológicas de Gioconda, abrindo os olhos da acadêmica para o lado social de cada narrativa.

Fotografia do professor Florestan Fernandes em protesto / Crédito: Divulgação

 

Uma dor no peito

A amizade entre os dois, contudo, foi interrompida pela perseguição que Florestan sofreu durante a ditadura Militar. Nesse sentido, um depoimento da dramaturga Consuelo de Castro, coletado por Andrea, revela os acontecimentos da época.

Segundo a estudante, Gioconda recebeu a notícia de que “Florestan Fernandes fora arrastado para um ‘camburão’ a fim de ‘prestar depoimentos’” enquanto dava uma aula de Evolução das Espécies na Faculdade de Filosofia da USP.

“Quando soube, [ela] saiu da sala — sua tribuna maior — gritando”, continuou Consuelo. “Mas voltou, e, com ódio santo, continuou a aula, curvando-se para mostrar como caminhavam nossos antepassados do Pleistoceno, e comentou, quase chorando, que as espécies não tinham evoluído porr* nenhuma.”

Em um misto de sentimentos, a acadêmica “cutucava sua peruca e com ela se abanava, esquecendo-se que uma peruca é um disfarce". Para Consuelo, "estava ali, ainda viva, a cabeça nua e altiva remoendo aquele desgosto histórico”.

Imagem meramente ilustrativa de militar / Crédito: Divulgação

 

Humanidade por um fio

Mais tarde, em meio aos “anos mais duros da ditadura, entre 1967 e 1969”, Gioconda resolveu entrar em ação. “Ela ajudava e até escondia estudantes procurados pela polícia e chegou a dormir algumas noites na Faculdade de Filosofia”, contou Andrea.

“É muito provável que ela estivesse lá, horrorizada, no dia da terrível ‘batalha da Maria Antônia’, ocorrida em 3 de outubro de 1968, quando o estudante secundarista José Carlos Guimarães foi morto, atingido na cabeça por um tiro procedente da Faculdade Mackenzie”, pontuou o professor, que estuda a vida de Gioconda há anos.

De certa forma, então, a forte presença da acadêmica na vida dos alunos durante a ditadura militar não surpreende. Isso porque, segundo Andrea, a primeira antropóloga do Brasil sempre foi uma mulher muito empática, com um senso afiado de humanidade — características que “a levaram a ser sempre interessada pelos outros”.


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