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Como a trágica morte de Júlio César representou a ruína da República

Uma mistura de populismo e sede de poder resultaram na morte de César

Rodrigo Casarin e Fabio Marton Publicado em 31/07/2020, às 08h00

Pintura de Júlio César
Pintura de Júlio César - Wikimedia Commons

Imediatamente após a morte de Júlio César, uma enorme disputa pelo posto de mandachuva se instalou. De um lado, os que lideraram o assassinato defendiam a legitimidade da violência como uma forma de salvar a república. Do outro, os fiéis a César que queriam a punição dos assassinos e defendiam a legitimidade de tudo o que o ditador — que era um cargo, afinal, legal — havia feito.

Mas a república já tinha morrido antes mesmo de matarem César. Só não haviam se dado conta disso. "César faz parte de um processo de concentração de poderes e riquezas sob o Império Romano que não começou nem acabou com ele", explica Faversani.

O brutal assassinato de César / Crédito: Wikimedia Commons

 

"A concentração de poderes extraordinários já havia acontecido antes, sobretudo no contexto das guerras civis entre Mário e Sila, mas também e muito particularmente com o principal rival de César, Pompeu", continua. "Depois dele, essa concentração de poderes na mão de um só se tornará ainda mais intensa e duradoura, especialmente com o imperador Augusto. Há que se lembrar que o fim da República Romana corresponde a um processo difícil de datar, mas que, de toda maneira, durou cerca de um século."

A república foi extinta na prática em 27 de novembro de 43 a.C., ao ser criado um triunvirato oficial. Marco Antônio, Caio Otávio e Marco Lépido, aliados próximos de César, ganharam poderes monárquicos. Como na primeira vez, isso terminou em guerra — em 31 a.C., Otávio levaria o grande prêmio, derrotando Marco Antônio na Batalha de Áccio. Lépido já sido jogado para escanteio em 36 a.C.

Em 27 a.C., Otávio ganhou o título de Augustus pelo Senado, significando algo como O Grande ou O Venerável. Também divi fillius, filho do deus — no caso, do deus Júlio César, assim proclamado pelo Senado em 43 a.C. E imperator, grande general — que assumiria o sentido atual. Por fim, e mais importante, princeps, primeiro cidadão.

Importante porque, ao se declarar cidadão, Augusto queria dizer que ainda havia república — um rei não é um mero cidadão. Seus sucessores também não admitiriam a monarquia. Pelas leis, os imperadores eram apenas líderes não eleitos de uma república — com poderes absolutos.

Roma continuaria a ser formalmente república até o reino de Diocleciano, começado em 284. Assim como as tiranias modernas têm presidentes, primeiros-ministros e comissários-gerais do partido.

Os atos de Júlio César destruíram a república em nome do povo. Teria sido para o bem? Ele favoreceu e cortejou os plebeus, enquanto seus adversários eram quase todos patrícios, privilegiados de nascença.

Sobre os quais pesa a acusação de quererem "um retorno às velhas prerrogativas da aristocracia, sobretudo a senatorial romana", como diz Faversani. "Para os inimigos, o assassinato de César representou a restituição da liberdade, com a desculpa de salvar a república."

O historiador britânico Tom Holland, autor de Rubicão — O Triunfo e a Tragédia da República Romana, enxerga por outro ângulo: "Após as conquistas de Alexandre, no primeiro século a.C. só havia uma cidade livre: Roma. Então César cruzou o Rubicão, a república implodiu e não restou mais nenhuma. Como resultado, mil anos de autogoverno foram encerrados e mais de outros mil se passariam até que isso se tornasse realidade novamente".

Um populista e militarista ascende ao poder prometendo defender aqueles que não têm voz. Cria um culto à personalidade e concentra poderes. Valores republicanos não podem mais ser resgatados, o Rubicão já foi cruzado. Resta o arbítrio: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Não foi só uma vez que essa história se repetiu.