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Corte brasileira promoveu “prêmio” para quem conseguisse desenvolver a vacina animal contra varíola

A informação de que a vacina animal era 100% eficiente instigou a Corte

Diego Antonelli Publicado em 09/02/2021, às 08h00

Chegada da Corte ao Brasil
Chegada da Corte ao Brasil - Wikimedia Commons

Antes da vacina ser generalizada, era “produzida e mantida” nas próprias pessoas. Com a falta de estrutura e tecnologia para manter as doses ativas, recorria-se à chamada “vacina humanizada”.

Em algumas situações, os vacinadores pagavam para conseguir voluntários que aceitassem receber a dose para que o vírus vacinal fosse preservado.

Essa prática, contudo, causava repulsa a uma boa parte das pessoas, principalmente porque muitos desses voluntários eram da população mais pobre e carente da região – a mesma parcela, claro, que liderava o ranking de doenças venéreas e outras moléstias.

Até que, na década de 1820, um grande número de imunizados adoeceu de varíola, acendendo uma luz de alerta: algo errado estava acontecendo. Descobriu-se que a vacina humanizada, com o tempo, perdia a capacidade de proteger o organismo.

“Ela era uma espécie de ‘doença’ que produzia anticorpos contra a varíola. Porém, o processo ‘humanizado’ passou a sofrer com uma perda da vitalidade da vacina, chegando a um ponto em que ela deixava de produzir a resposta imunitária. A alternativa, então, era voltar às vacas que tivessem varíola bovina para produzir a vacina diretamente do animal”, conta Tania Maria Fernandes, professora e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, e autora do livro Vacina Antivariólica: Ciência, Técnica e o Poder dos Homens (1808-1920).

Logo, a “vacina animal” retirada direto da pústula da vaca foi desenvolvida e inoculada no homem. E somente a partir de 1840, passou a ser usada em grande parte do mundo.

No Brasil

Enquanto isso, o Brasil continuava usando a vacina humanizada, de “braço em braço”. O município do Rio de Janeiro, conforme explica Tania, elaborou uma legislação em 1832 estabelecendo a obrigatoriedade da vacina pela primeira vez no país.

Essa obrigação, no entanto, era limitada às crianças – e aqueles que infringissem a lei seriam multados. “A regra, apesar de restrita a apenas uma fração da população, não se fez cumprir. A única obrigatoriedade efetivamente cumprida foi a relacionada à escravidão nas fazendas, para onde o vacinador era deslocado por solicitação dos proprietários”, descreve a pesquisadora.

Na década seguinte, com as notícias de que a vacina animal era 100% eficiente e que não perdia a data de validade, a Corte brasileira previu no Regulamento do Instituto Vacínico do Império, de 1846, a necessidade de desenvolver a vacina animal contra a varíola.

Neste caso, quem tivesse êxito na experiência receberia um “prêmio” do governo imperial. A mesma legislação que criou a instituição definia, então – e mais uma vez –, a obrigatoriedade da vacinação em crianças de até 3 meses e em grupos determinados como, por exemplo, no Exército ou Armada (como era chamada a Marinha), em estabelecimentos de educação ou em oficinas a cargo do governo, onde exigiase atestado da vacina ou a comprovação da doença para admissão.

“A mesma exigência se fazia para os admitidos, matriculados ou inscritos em qualquer estabelecimento literário oficial, público ou particular”, detalha. Essas medidas foram justificadas pela gravidade da doença.

“No Brasil, a varíola matou mais gente do que todas as demais doenças reunidas nos três primeiros séculos após a chegada dos portugueses. As principais vítimas foram os índios, com centenas de milhares de mortes. A primeira epidemia ocorreu em 1563. Alguns surtos de varíola coincidiram com os de sarampo”, explica o professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Rubens Bedrikow.

A complexidade em trazer o vírus animal “vivo” durante o translado sobre o Atlântico dificultava a chegada da vacina mais eficiente ao Brasil. Até que, em 1887, após várias tentativas, o barão Pedro Affonso Franco conseguiu.

Tratava-se de uma polpa do vírus glicerinada vinda do Instituto Chambon, de Paris. Nessa época, descobriu-se que adicionar glicerina à linfa vacínica garantia mais tempo de conservação da substância.

Foi assim que a vacina animal chegou ao país. “O vírus foi inoculado num bezerro e desse bezerro passou para outro e assim por diante, até começar a produzir a imunização diretamente do animal”, explica Tania.

Gradativamente, a vacina humanizada deixou de ser utilizada. Em 1894, o Barão – que criou o Instituto Vacínico Municipal no Rio de Janeiro –, descobriu no Brasil outras pessoas que poderiam ajudar a disseminar a vacina no país.

Uma delas foi Rodolfo Marcos Teófilo, do Ceará. Durante suas férias, em Salvador, Teófilo comprou dois bezerros, equipamentos específicos e começou a produzir a vacina. Voltou a Fortaleza e em quatro meses imunizou 1,2 mil pessoas gratuitamente.

Para convencer os céticos, inventou o “São Jenner” (em homenagem ao inventor da vacina). Chegava até a fazer o sinal da cruz antes de aplicar cada dose.